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Saúde Oral

“Portugal é dos poucos países europeus em que a periodontologia é uma especialidade reconhecida”

Susana Noronha

No passado dia 12 de maio assinalou-se o Dia Mundial da Saúde Periodontal, a doença é a sexta patologia mais prevalente em todo o mundo. Em entrevista à SAÚDE ORAL, a presidente da Sociedade Portuguesa de Periodontologia e Implantes (SPPI) e especialista em periodontologia pela Ordem dos Médicos Dentistas, Susana Noronha, revela a taxa de prevalência em Portugal e fala sobre o estudo recente que mostra a ligação da periodontite às complicações associadas à covid-19.

A doença periodontal é a sexta patologia mais prevalente no mundo e afeta cerca de 50% da população mundial. Em que é que consiste e como se manifesta?

As doenças periodontais podem-se dividir em gengivite e periodontite. A gengivite é uma doença inflamatória que resulta da acumulação de placa bacteriana. Os sinais mais comuns de gengivite incluem gengivas aumentadas de volume (inchadas) que sangram com facilidade (uma gengiva saudável não sangra…). Por sua vez, a periodontite implica, além da presença de bactérias, a existência de uma pessoa suscetível à doença. Essa suscetibilidade, e não a doença, passa de pais para filhos. Além das gengivas inchadas e sangrantes, os sinais de periodontite podem incluir dentes a abanar, dentes mais compridos (porque a gengiva retraiu), mau hálito e mau sabor. A periodontite é a segunda patologia oral mais prevalente e a sexta doença mais comum mundialmente.

Existem números nacionais? Qual é a taxa de prevalência em Portugal?

Em 2015, a DGS realizou o III estudo nacional de Prevalência das Doenças Orais no qual foi possível concluir que a prevalência da periodontite em Portugal era de 11%, aproximadamente. No entanto, são necessários mais estudos, com um número significativo de participantes que nos permitam caracterizar epidemiologicamente a saúde oral no geral e a saúde periodontal, em particular.

Como é que esta doença é encarada no nosso País? O que tem sido feito do ponto de vista da sensibilização?

Estou consciente que tem sido feito um caminho no sentido de sensibilizar a população portuguesa para a importância das doenças periodontais, não só pelas consequências diretas na cavidade oral como também pela relação, cientificamente comprovada, com outras patologias sistémicas, nomeadamente, a diabetes mellitus e as doenças cardiovasculares.

A SPPI tem participado em diferentes ações, ao longo dos anos, desenhadas com o objetivo de aumentar o conhecimento e promover a saúde oral. Acreditamos que a divulgação de informação específica relativa às doenças periodontais e ao seu tratamento é essencial para o correto esclarecimento e, consequentemente, para a clarificação de mitos que ainda persistem. Por exemplo, ainda ouvimos frases como “Tenho periodontite tal como a minha mãe. Como é uma doença hereditária, não há nada a fazer…” ou “vou perder os dentes porque esta doença não tem tratamento.” No entanto, ainda estamos longe dos nossos objetivos. Temos de unir esforços para continuar a aumentar a literacia da população de forma a que o principal foco seja a prevenção.

E os profissionais de medicina dentária, como atuam perante a doença?

Os médicos dentistas e higienistas orais estão capacitados para o diagnóstico e tratamento das doenças periodontais. Algumas situações implicam uma abordagem mais específica com intervenção do especialista em periodontologia. Portugal é um dos poucos países da Europa em que a periodontologia é uma especialidade reconhecida pela Ordem dos Médicos Dentistas.

Entre os dados importantes relativos à relevância da periodontite na saúde pública, destaca-se a sua ligação às complicações associadas à covid-19. De que forma é que a doença pode tornar-se um fator de risco para a covid-19?

Foi recentemente publicado um artigo que revelou uma associação entre a periodontite e as complicações por covid-19. O estudo concluiu que os pacientes com periodontite apresentam uma probabilidade aumentada de desenvolverem doença grave, nomeadamente 3,5x mais possibilidade de serem admitidos nos cuidados intensivos e 4,5x de necessitar de ventilação.

Apesar de serem necessários mais estudos científicos para suportar, de forma clara, a relação entre as duas patologias, a manutenção de saúde periodontal é, seguramente, uma parte relevante da abordagem dos pacientes com covid-19.

Por outro lado, também há dados que demonstram que a obesidade aumenta o risco de periodontite de 50 a 80%. Porque é que isto acontece?

A obesidade pode agravar a progressão das doenças periodontais − promove a inflamação crónica, o que influencia diretamente a libertação de mediadores responsáveis pela destruição dos tecidos periodontais. Adicionalmente, a obesidade associa-se, muitas vezes, a outras doenças sistémicas como a diabetes mellitus e as doenças cardiovasculares, que apresentam uma relação comprovada com as doenças periodontais.

Que impacto teve a pandemia na prevalência da periodontite? (O período em que as clínicas estiveram fechadas e o adiamento das consultas puseram em causa o seu tratamento?

A pandemia teve um impacto negativo na saúde oral da população. Em primeiro lugar, porque o adiamento de consultas influenciou diretamente a possibilidade de diagnóstico precoce e de prevenção. Em segundo lugar, os doentes que estavam em tratamento, acabaram por interromper a sequência de tratamento prevista, com consequências potencialmente nefastas. A ausência de consultas de manutenção regulares é altamente prejudicial para o sucesso do tratamento periodontal. Por último, conhecendo a relação entre as doenças periodontais e outras patologias sistémicas, o adiamento das consultas pode ter um impacto na saúde geral.

Como tem evoluído a abordagem terapêutica e de prevenção da doença?

As doenças periodontais tratam-se através da eliminação da causa ou seja, da placa bacteriana. O tratamento tem como principal objetivo eliminar as bactérias, ensinar e motivar o doente para as técnicas de higiene oral que permitam manter os resultados obtidos, prevenindo a recidiva e controlando a doença. A prevenção é a melhor forma de controlar ou limitar o aparecimento das doenças periodontais. Um programa de prevenção eficaz implica um doente esclarecido e motivado.

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