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Os caminhos das clínicas dentárias: Da humanização à especialização médica

A medicina dentária está em constante evolução, não só nas técnicas utilizadas, mas também na abordagem que é feita ao doente. Estas duas componentes conduzem também a uma tendência de especialização dos profissionais que, por vezes, se confunde com a clínica em si.

Num mercado cada vez mais concorrencial, é preciso criar estratégias que conduzam a uma distinção. A especialização numa área de tratamento da medicina dentária e o atendimento ao doente cada vez mais humanizado são mecanismos que os médicos dentistas, também eles simultaneamente empresários, encontram para ganharem o seu espaço.

 

Aliado a tudo isto é necessário “ética e seriedade”, recorda Luís Bessa. O responsável pela The North Clinic [1] defende ainda ser importante proporcionar “uma boa experiência ao paciente desde a hora do primeiro contacto telefónico até ao final do tratamento”. Este é também o foco da médica dentista Arethuza Luna. Na sua clínica, a PortOral [2], quer transmitir “um novo conceito de medicina dentária, garantir confiança, saúde e satisfação ao sorrir, num ambiente acolhedor e contemporâneo”.

Miguel Fraga Silva optou por ter uma abordagem holística na sua clínica e explica que esta “não é mais do que o reconhecimento da importância da nossa especialidade no bem-estar geral do doente, não apenas pelo que podemos executar, mas também pelo potencial de diagnóstico e articulação com outras especialidades como a terapia da fala, fisioterapia, fisiatria, pneumologia, gastroenterologia, psiquiatria, medicina interna, otorrinolaringologia, nutrição, dermatologia, entre outras”

 

Os profissionais de medicina dentária há muito que alertam para a importância de se olhar para a saúde da boca de uma forma integrada com a saúde geral do nosso corpo. É esta a abordagem do diretor clínico da Oral Function − Centro de Prevenção e Reabilitação Oral [3], Miguel Fraga Silva. “O verdadeiro desafio é deixar de ver uma cavidade oral doente e fazer um esforço de descentralização para conhecer o utente, correlacionando tudo o que o aflige, com uma abordagem preventiva de avaliação de sinais e sintomas que possam indiciar uma desregulação homeostática, compreendendo simultaneamente o potencial e as limitações do nosso papel e estabelecendo prioridades”, diz. Miguel Fraga Silva optou por ter uma abordagem holística na sua clínica e explica que esta “não é mais do que o reconhecimento da importância da nossa especialidade no bem-estar geral do doente, não apenas pelo que podemos executar, mas também pelo potencial de diagnóstico e articulação com outras especialidades como a terapia da fala, fisioterapia, fisiatria, pneumologia, gastroenterologia, psiquiatria, medicina interna, otorrinolaringologia, nutrição, dermatologia, entre outras”.

Arethuza Luna conclui ainda que na PortOral pretende-se que “o paciente fique à vontade, sem medos e traumas, tirando a visão de um lugar amedrontador, para tentar apagar experiências anteriores negativas”.

 

Arethuza Luna conclui ainda que na PortOral pretende-se que “o paciente fique à vontade, sem medos e traumas, tirando a visão de um lugar amedrontador, para tentar apagar experiências anteriores negativas”

Especialização sim, mas com cautela

A humanização do espaço de consulta conjuga-se com o atendimento dos pacientes. Procura-se dar a melhor resposta aos problemas de cada e, para tal, é importante que haja uma boa consulta de diagnóstico e de prevenção. A responsável da PortOral, Arethuza Luna, refere que as consultas preventivas são essenciais.

 

“É por meio delas que conseguimos orientar os pais e de forma atraumática trazer saúde e qualidade, não só na vida das nossas crianças, mas na vida dos pais também”. Miguel Fraga Silva defende a importância das consultas de diagnóstico e, por isso, parece-lhe “irracional verificar que estas consultas são muitas vezes realizadas pelos colegas menos experientes, sobretudo em grupos ou situações conjunturais em que as mesmas não apresentam honorários. Qualquer clínica de futuro deve antes ter muitíssimo bem definido como se processará a primeira consulta e elaboração do plano de tratamento. Até porque é isto que nos aproxima da medicina. Qualquer outra visão implica que nos reconheçamos como executantes competentes”.

Sendo a consulta de diagnóstico e preventiva essencial, importa perceber onde se encaixa a especialização destes profissionais. Será ela efetivamente um caminho?

Para Miguel Fraga Silva, a especialização é o futuro, mas de forma diferente daquilo que tem sido feito até aqui. “Um médico dentista, recém-licenciado que envereda imediatamente por um percurso de subespecialização terá, salvaguardando eventuais exceções, limitações no diagnóstico fora da sua área de especialidade”, afirma o médico, considerando que “não fará sentido que, para a elaboração de uma proposta terapêutica de alguma complexidade, o doente tenha que realizar três ou cinco consultas de reabilitação oral, ortodontia, cirurgia oral, periodontologia, endodontia ou disfunção temporomandibular”.

Luís Bessa, da The North Clinic, é a favor da especialização “de uma forma racional”, mas não acredita que este seja o caminho para Portugal e explica porquê: “não existe cultura de referência de pacientes suficiente para o mercado funcionar dessa forma. Ainda predomina muito a cultura do médico dentista generalista. E deixem-me dizer que há excelentes generalistas em Portugal com capacidade para resolver casos interdisciplinares a um nível altíssimo, mas lamentavelmente são poucos”. O mesmo responsável explana ainda que “a racionalidade é mais importante que a especialidade, querendo com isto dizer que não podem haver bons especialistas sem um conhecimento geral das outras especialidades”.

Luís Bessa, da The North Clinic, é a favor da especialização “de uma forma racional”, mas não acredita que este seja o caminho para Portugal e explica porquê: “não existe cultura de referência de pacientes suficiente para o mercado funcionar dessa forma. Ainda predomina muito a cultura do médico dentista generalista.

Na PortOral a opção passa por reunir uma equipa especializada em diversas áreas de atuação e disponibilizar um atendimento integrado. As equipas juntas elaboram um plano “para encontrar a solução mais adequada a cada caso”, sempre com o objetivo de “disponibilizar aos clientes diagnósticos precisos, rápidos e um atendimento de excelência”, uma experiência conseguida também recorrendo à mais avançada tecnologia e ao conhecimento científico.

Nesta questão da especialização há algum ceticismo da parte dos nossos entrevistados. Por um lado, Luís Bessa pensa que “se vai notar cada vez mais quais são as clínicas direcionadas a tratar pacientes ou direcionadas única e exclusivamente à faturação. As clínicas corporativas não vão desaparecer do mercado, mas a sua especialidade nunca irá além de vender crédito bancário aos pacientes. As clínicas são feitas de pessoas que lá trabalham estando esse fator diretamente relacionando com a qualidade da sua resposta e essa será sempre a grande diferença entre elas e o que fará distinguir o trigo do joio”. Por outro lado, Miguel Fraga Silva considera que existirá “possivelmente uma maior tendência para a subespecialização, infelizmente acompanhada de um decréscimo da qualidade global da atividade”. Uma reflexão que surge devido ao ratio médico-dentista/utente “cada vez mais desfavorável com um crescente número de estudantes, mantendo a quantidade e qualidade da prática clínica”.

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 140 da revista SAÚDE ORAL [4], de setembro-outubro de 2021.