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Médicos Dentistas

Opinião|Somos todos Jokers!

A vida de um médico dentista é um filme, disso poucas dúvidas restam. Quantas vezes damos por nós a rir de nervoso ao tomar conhecimento de mais uma taxa ou licença, de propagandas de marketing (no mínimo) selvagens ou de tabelas de preços (quase) gratuitas de planos de saúde e seguradoras? E vida social? Grande parte dos colegas que me leem, tal como eu, acreditariam mais facilmente na vida em Marte do que em… “vida social”!

Se o Arthur Fleck (A.K.A. Joker) dependia dos medicamentos para se controlar, muitos de nós vivemos à base de cafeína, isolados do “mundo não dentário” e maltratados pela sociedade e pelo mercado.

A julgar pelo que a maioria dos colegas publica nas redes sociais, o nosso mundo de dentes e sorrisos é cinzento como Gotham City; mas, então, porque é que existem neste nosso mundo milionários como Bruce Wayne, que nem médicos dentistas são?

Aproveito-me da liberdade de este texto ser um artigo de opinião para tentar responder.

Quantos de nós podemos dizer que somos financeiramente letrados? Quantos investiram em formação de gestão e/ou marketing e/ou contabilidade? Quantos se deram ao trabalho de redigir um CV sem ser em formato Europass, com um design minimamente apelativo? Quantos temos um perfil de LinkedIn atualizado e devidamente preenchido? A resposta, arrisco-me a dizer, é a mesma para todas estas perguntas: muito poucos!

Exigimos mudança nas “cúpulas” que regem a nossa profissão, mas em boa parte a mudança também tem de vir de dentro! Muito precocemente, a mentalidade de um(a) médico dentista é limitada, cingindo-se apenas ao que aos dentes diz respeito, vivendo num mundo imaginário próprio…como o Joker!

Filmes à parte, se olharmos para os Números da Ordem numa perspetiva positiva, vemos que existe em nós muito potencial humano.

Somos uma classe jovem, em que quase três quartos tem menos de 45 anos e, por isso, mais “modeláveis” e familiarizados com as novas tecnologias de informação.

É uma verdade que somos cada vez mais, mas também se verifica um aumento de estudantes estrangeiros (cidadãos do Espaço Económico Europeu) que, após a graduação, regressam ao país de origem. Ainda neste ponto, note-se que a estatística mede coisas concretas e palpáveis, a quantidade de profissionais; mas é impossível mensurar o grau de diferenciação e qualificação de todos nós. O que é que quero dizer com isto? Que é muito difícil quantificar quantos dentistas mais focados em endodontia existem ou quantos se dedicam quase em exclusivo à cirurgia, à medida que surgem igualmente novas áreas, como a harmonização facial. É uma questão de não só ser forte, mas também de nos adaptarmos às necessidades do mercado.

Se olharmos para o nosso mercado, vemos que não é tão cinzento como Gotham City, se sairmos um pouco do nosso mundo e nos formarmos noutras áreas, veremos também que não, não somos Jokers!

*Artigo publicado originalmente na edição de março-abril da revista SAÚDE ORAL.