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Médicos Dentistas

Opinião: Uber, stresse e…a falar é que a gente se entende!

VitorBrás

Começo este artigo por constatar alguns factos sobre todos os que trabalham em medicina dentária: 90% do dia é passado a pensar, falar e até a tratar dentes! Dói-nos as costas com mais frequência do que o Trump faz tweets e gostamos de competir uns com os outros a ver quem está mais cansado! O tema burnout já não é novo, mas nunca deixou de ser atual, cada um tem a sua própria forma de lidar com o stresse, seja a emborcar cafeína ou a fazer pilates. Surgem agora novas técnicas e filosofias como o mindfulness, mas o fundo da questão é: de onde vem tudo isto?

Por toda a parte, quais abelhas com pólen às costas, vemos motociclistas da Uber carregados com a próxima facada na dieta de alguém. Deve ser difícil andar de um lado para o outro a fazer entregas ao frio, à chuva ou quando todos os outros estão confinados em casa. Mas o que poderá ser a fonte de stresse do estafeta? O cliente! O cliente quer que a sua refeição chegue rapidamente e intacta, com as batatas fritas ainda crocantes, qualquer erro e lá se vai uma avaliação de cinco estrelas. Outra vantagem da Uber é que se sabe o preço antes da viagem e não a escolhemos pela qualidade (se não íamos de limusina) mas sim pelo preço, ora é diferente escolher por preço e não por valor.

No universo “Uber-Dentário” o dentista também sofre de stresse e quer ter uma avaliação de cinco estrelas, mas tal como o estafeta quem manda é o paciente! O paciente muitas vezes procura clínicas primeiro pelo preço e só depois pela qualidade, exige resultados e tem expectativas normalmente mais altas do que o que está disposto a pagar. Não raras vezes pede um resultado igual ao que viu na televisão ou no Instagram numa publicação de um(a) influencer. E por isso quem sofre? O dentista! Por isso falo do trabalho de dois colegas do Reino Unido, Crawford Bain e Lloyd Jerome. Segundo estes gentlemen, devemos mudar a forma como olhamos para este problema ao introduzir o conceito de burnout do paciente. Bain e Jerome mostram como podemos identificar um paciente em burnout: começam a chegar atrasados, questionam o plano de tratamento a meio e pressionam para que nos despachemos a concluir todo o processo. O acumular de pacientes em burnout é então sugerido como a principal fonte do stresse para o dentista.

E porquê? Porque o que falha na maior parte dos casos é a comunicação! Já dizia o povo que a falar é que a gente se entende e isto não pode ser mais verdade na nossa área. Vários artigos de comunicação em saúde estabelecem uma relação entre (a falta de) a capacidade de comunicação e os níveis de stresse nos clínicos.

No Brasil aprendi uma lição do dr. Adolfo Embacher, considerado um mestre por muitos, e que ficou gravado em mim: dito antes é aviso, dito depois é desculpa! Tudo começa por aqui, explicar todos os obstáculos e desafios numa reabilitação e gerir as expectativas do paciente. É importante explicar os riscos e não focar o discurso apenas nos benefícios. O tempo é também essencial! A sociedade como um todo não gosta de esperar e o paciente na cadeira também não, por isso o melhor é deixar claro logo de início que poderá haver atrasos ou mais consultas que o planeado. Por último, mas não menos importante, a empatia! Abusabel et al. mostram que se se mantiver uma conversa com o paciente durante o tratamento e não deixar a comunicação “morrer” aumenta-se a satisfação da pessoa e a sua perceção de qualidade do tratamento.

Se queremos evitar o stresse e burnout devemos comunicar eficazmente com o paciente! Isto pode parecer algo clichê, mas as redes sociais e os media tornam o público mais exigente e impaciente, vivemos na Era do Imediatismo, em que muito se escreve, mas pouco se conversa. Muito stresse seria evitado porque: É a fala que a gente se entende!

Referência

Bain, C., & Jerome, L. (2018). Patient and Dentist Burnout – A Two-Way Relationship. Dental Update

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 136 da revista SAÚDE ORAL, de janeiro-fevereiro de 2021.

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