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Médicos Dentistas

Opinião: O amor não paga dívidas

Opinião OMD

Empoderar ou proteger? Criticar construtivamente ou humilhar? Compreender ou julgar? São escolhas difíceis, escolhas de todos os dias. Muitas vezes, pensamos pouco nisso e acabamos por escolher outra coisa qualquer.

É fácil dizer: “a classe está mal porque há quem aceite trabalhar com seguros”, “quem quer sempre consegue”, “quem sonha sempre alcança” ou “quem acredita vai”. Mas todos sabemos que os acordos e convenções se foram alargando até um ponto de quase não retorno, de “não os podes vencer, junta-te a eles”. Todos conhecemos a história do médico dentista que conseguiu tudo à custa do seu suor, trabalho árduo e 50 000 emprestados pelo pai, num tempo em que as vacas ainda eram cheiinhas.

Na verdade, ninguém precisa de treinadores de bancada que mandam umas dicas do lado de fora, mas, afinal, nunca meteram os pés no treino. Nem todos têm a possibilidade de investir em formação diferenciada, nem todos têm possibilidade de hipotecar casas para pedir empréstimos para cursos que custam mais do que carros, nem todos encontram pessoas disponíveis para dar a mão na hora certa. Por mais que se acredite que quem não desiste sempre chega ao destino, há que perceber que o caminho não é igual para todos: uns vão logo de carro, outros começam descalços nas pedras soltas. O que acontece? Alguns rasgam feridas tão grandes que vão para o banco de suplentes antes que lhes surja uma oportunidade válida a que se agarrar. Alguns são empurrados para fora do seu País, outros acabam por ir trabalhar para a Zara, enveredando por profissões em que auferem o mesmo (ou mais) sem terem responsabilidade sobre a saúde de outrem, às quais acrescem os direitos a subsídio de férias, de Natal e folga no dia de anos.

Em vez de considerar que os jovens são “falhados”, “desistentes” ou “mimados”, devemos questionar a quantos deles terá sido dada uma oportunidade DIGNA. Como é que os grandes nomes evoluíram na sua profissão? Certamente, um dia, alguém acreditou neles…

Os jovens não querem que lhes sirvam peixe empratado, querem que as escolas ensinem realmente a pescar e que os colegas mais experientes sejam seus mestres e lhes permitam ter onde lançar a rede de pesca. Os jovens não querem que os levem ao colo, querem que este País e esta classe lhes permitam andar pelos próprios pés. Querem que o SNS dê o exemplo e deixe de contratá-los miseravelmente e a recibos verdes. Não querem que os empregadores os vejam como material consumível, descartável. Não querem ser obrigados a emigrar ou a ter que trabalhar noutra área para se sustentar.

No mais recente inquérito de Diagnóstico à Empregabilidade Jovem 2021, 56% dos inquiridos responderam que não voltariam a escolher a profissão de médico dentista ou pretendiam completar a atividade com outra área/profissão. Um colega, na secção de resposta aberta, justificou a sua opção dizendo que “o amor não paga dívidas”. É só isto: por mais que se goste, por mais que se ame a profissão, aleija demais andar nas pedras descalço.

Assim, aos colegas mais experientes, peço que se tornem verdadeiros treinadores, que saltem da bancada para o campo e façam parte dos que ajudam a crescer. Aos colegas mais novos e aos futuros colegas desejo sorte e, sobretudo, coragem até que ela chegue e força para a agarrar quando aparecer.

E sim, eu sei que acreditar na empatia é sonhar alto, mas sabendo que quem sonha nem sempre alcança, será embora pelas mãos de quem sonha muito que talvez nos chegue, enfim, alguma coisa.

*Mónica Pereira Lourenço, membro do Conselho Diretivo da OMD e do Conselho dos Jovens Médicos Dentistas da OMD

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 138 da revista SAÚDE ORAL, de maio-junho de 2021.

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