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Saúde Oral

Opinião | Coronavírus (covid-19) e o impacto na medicina dentária

Constância vai ter consultas de saúde oral no SNS

O aparecimento do coronavírus (covid-19), nomeadamente, da estirpe SARS-CoV-2, tem desafiado infraestruturas, profissionais e procedimentos dos sistemas de saúde, evocando diferentes velocidades e modelos de reação por todo o mundo. Inicialmente, os médicos dentistas sentiram o dever moral de reduzir o seu atendimento clínico por receio e medo de espalhar a covid-19 entre os seus pacientes e cidadãos. Contudo, mostraram-se preocupados com as consequências financeiras que a pandemia terá na sua profissão. Simultaneamente, o excesso de informações disponíveis, quer online, quer através de canais de informação dos media sociais, governam a difícil tarefa de identificar evidências e orientações confiáveis, refletindo-se no nosso comportamento. Torna-se imperativo e necessário criar decisões morais.

A velocidade da reação e o tipo de resposta a esta doença, no mundo, tem variado de acordo com os diferentes sistemas de saúde, economias e ideologias políticas. Cada país está a desenvolver uma política, levando em consideração as orientações da OMS, para gerenciar a epidemia covid-19, mas interpretando as respetivas orientações de maneira diferente. Esta situação não promove a colaboração eficaz junto de instituições/entidades responsáveis e idóneas na matéria.

 

A importância do distanciamento social é uma estratégia para apenas diminuir a taxa de propagação do vírus SARS-CoV-2 até que uma vacina seja aprovada (estimada em 12 a 18 meses) para uso generalizado. Estas medidas permitem que o nosso sistema de saúde evite ficar completamente sobrecarregado. A identificação de portadores virais é a única maneira de impedir a disseminação contínua, por forma a investigar e entender a epidemiologia, mapeando a sua difusão pela população. O processo envolveria uma ação sinérgica de remoção contínua dos “transportadores” do contágio, enquanto a restante população pode voltar ao trabalho.

Têm surgido diversos apoios científicos na procura de novas soluções. Em Portugal, instituições como o i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, o maior instituto de investigação português na área das ciências da saúde, tem revelado a sua eficácia na colaboração com outras entidades responsáveis na área da saúde de forma dinâmica na análise de amostras do SARS-CoV-2.

Rodrigo Valdoleiros e Silva

 

Nesta vanguarda, é fundamental referir a qualidade do trabalho voluntário de inúmeros investigadores e estudantes na análise de amostras de testes de covid-19, provenientes de hospitais e lares, que, mesmo em tempos de crise pandémica, não deixaram de colaborar, independentemente do descuido que tem sido dado à investigação e a estes profissionais ao longo destes anos. Adicionalmente, investigadores da Universidade do Porto, das diferentes faculdades, no âmbito da iniciativa “Research 4 COVID-19”, criada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), foram contemplados com uma linha de financiamento para apoiar projetos de investigação e desenvolvimento, capazes de melhorar a resposta do sistema de saúde nacional ao impacto da covid-19.

O i3S desenvolverá três projetos, um no desenvolvimento de testes de diagnóstico molecular rápidos e muito sensíveis, utilizando técnicas de CRISPER-Cas13a;  outro para determinar o genoma de mais de 250 amostras de vírus com vista a estudar a sua taxa de mutação, assim como determinar qual a sua provável proveniência; e por fim, outro na identificação de assinaturas moleculares no plasma dos doentes com SARS-CoV-2, com vista à sua utilização como biomarcadores que possam prever o desenvolvimento da doença.

 

Ao contrário da medicina dentária, as outras áreas médicas possuem um sistema nacional de saúde gratuito para o atendimento médico. Esta discrepância, resulta na organização de um sistema nacional fragmentado e burocrático. Portanto, é inevitável que as respetivas respostas selecionadas se modifiquem continuamente, e que, no futuro, essa divulgação possa não acontecer no momento adequado.

Como consequência, a prática da medicina dentária mostra-se particularmente problemática dadas as características conhecidas sobre a disseminação deste vírus, que conflituam com os aspetos do que é a nossa profissão. Trabalhamos continuamente na presença dos aerossóis que podem projetar o vírus SARS-CoV-2 na atmosfera do nosso consultório. Idealmente, até aparecer uma vacina, dever-se-ia testar cada paciente, usando um método de teste rápido. Contudo, até à data, ainda não se encontrou nenhum disponível, nem mesmo consenso na sua reprodutibilidade e eficácia, uma vez que os estudos não demonstram concordância sobre as fases da sequência patológica da infeção que um paciente possa apresentar. Para isso, estes tipos de testes devem ser auxiliares, juntamente, com outros métodos de diagnóstico.

 

Perante esta conjuntura, temos de arranjar alternativas sustentáveis para ultrapassarmos esta pandemia. O caminho a seguir deve ser de grande prudência, analisando meticulosamente os historiais de saúde do paciente, e as suas necessidades de tratamento médico dentário.

Pacientes com mais de 60 anos e, especificamente, aqueles com doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, grávidas, pacientes em tratamento oncológico e pacientes com o sistema imunológico comprometido, serão tratados apenas para problemas dentários de emergência.

Assim, novas normas e restrições no plano da biossegurança do atendimento clínico a todos os pacientes devem ser implementadas, nomeadamente na utilização dos equipamentos de proteção individuais (EPI). É importante referir que esta medida é uma das muitas a ser tomadas, por forma a tornar o atendimento clínico seguro. Isto é, devemos “educar” os médicos dentistas e respetivo staff para a importância da colocação correta do equipamento, pois a sua má colocação e/ou utilização durante o atendimento clínico sacrificará todo o esforço de biossegurança, comprometendo assim a saúde de todos. O que poderá significar e motivar para que finalmente se alterem hábitos de comportamento e ensino, quer a nível universitário, quer profissional.

Devemos também ter em atenção quais os EPI que estão classificados por entidades reguladoras como adequados a ser usados na prática clínica. Assim sendo, a equipa médico-dentária deverá usar toucas, máscaras FFP3, aventais e protetores faciais, e as roupas deverão ser trocadas entre cada paciente (bata, máscaras e touca). Terá de existir um planeamento maior (distância logística) entre os nossos pacientes para descontaminar adequadamente o nosso consultório e o nosso equipamento de tratamento.

Durante o tratamento terão de ser implementadas novas metodologias rotineiras, como a utilização de isolamento absoluto em todos os tratamentos possíveis, por forma a evitar a exposição do ambiente oral, considerando apenas a área a ser tratada, diminuindo os aerossóis produzidos pelos fluídos orais. A higiene oral, como a destartarização, não deverá ser feita com o auxílio de instrumentos sónicos ou ultrassónicos, mas, sim, optando por outro tipo de abordagens.

As infraestruturas que acolhem o atendimento ao paciente devem ser categorizadas e desenhadas para criar um percurso seguro, seguindo o bom senso das etapas do atendimento. Um problema mais crítico, para o qual acredito ainda não haver solução, é como iremos descontaminar a atmosfera clínica.

Uma vez que até à data não foi necessário, aquando da construção das estruturas clínicas, sistemas de ventilação capazes de criar um fluxo de ar laminar para a remoção eficaz do vírus e de outros microrganismos, desde as zonas mais “limpas” às mais contaminadas, bem como a aplicação de pressões negativas nas diferentes zonas.

Não sendo logisticamente viável, como solução de ultrapassar este problema, tem-se pensado na utilização de purificadores de ar, mas não é assim tão simples. Os purificadores de ar podem combater outras causas de problemas respiratórios, porém os filtros “High, Efficiency, Particulate, Air” (HEPA) não conseguem capturar e destruir algo tão pequeno como um vírus. Contudo, filtros Photo Electrochemical Oxidation(PECO) poderão fazer a diferença. A diferença entre ambos é que os filtros HEPA são feitos de um tipo de tecido que funciona de maneira semelhante a uma rede, em que o ar é passado através do tecido. As partículas são capturadas por este tecido, enquanto o ar, agora limpo, sai pelo outro lado. Nos filtros PECO, o ar passa primeiro por uma espécie de “pré-filtro” atado a carbono e, em seguida, percorrerá um filtro maior que captura as partículas, ligando as moléculas aos iões, destruindo-as.

Adicionalmente, existem outras opções, as quais foram usadas contra esporos e vírus (H1N1 e  SARS), porém, a tecnologia usada não se limitava apenas aos filtros HEPA, mas também a um processo fotocatalítico oxidativo (PCO) que é libertado para o ar, ligando-se a estes agentes contaminantes, provocando a sua destruição. A radiação ultravioleta (UV) pode ser implementada, todavia estes métodos usualmente demoram longos períodos de tempo devido à sua baixa energia por fóton, além da necessidade de colocação em locais estratégicos, por forma a termos radiação direta uniforme. A utilização da radiação UV pode ser associada também ao PCO, aumentando o seu resultado.

Contudo, estudos devem ser feitos, por forma a provar o seu efeito no SARS-CoV-2. Como medida de proteção e de responsabilidade social, os pacientes deverão assinar um aviso de responsabilidade reconhecendo que foram tomadas precauções sérias para impedir a disseminação viral, mas, caso sejam portadoras de vírus, e não tenham seguido as regras governamentais, podem comprometer outras pessoas enquanto procuram atendimento.

Após esta crise, muitos acreditam que a prática da medicina dentária não vai ser igual! Considerando que existem opiniões das mais diversas, acredito que este período vai ter um impacto muito positivo no futuro. Os médicos dentistas que sempre demonstraram e praticaram uma medicina dentária de excelência, ou seja, preocupados com a saúde oral dos pacientes, demostrando sempre o especial cuidado na medicina preventiva, sensibilizando o paciente para a manutenção da saúde oral, intensificando o vínculo orossistémico da sua prática quotidiana, serão, de facto, a chave para o futuro da sustentabilidade económica e da nossa prática clínica.

*Rodrigo Valdoleiros e Silva é médico dentista e investigador do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto.

CV sintético

Mestrado em Medicina Dentária pela Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto, FMDUP
Intercâmbio em Medicina Dentária na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP), Brasil
Formação continua em Cirurgia e Reabilitação Oral
Curso na NOVA School of Business & Economics, Lisboa – Shaping Powerful Minds
Curso de Empreendedorismo e Tecnologia do Centro Sutardja de Empreendedorismo e Tecnologia, Berkeley Engineering, U. C. Berkeley, Califórnia
Investigador no i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, Universidade do Porto
Estudante de doutoramento no Programa Doutoral Internacional em Biotecnologia Molecular e Celular Aplicada às Ciências da Saúde – Instituto Ciências Biomédicas Abel Salazar, ICBAS| Universidade do Porto
Estudante Representante da Pesquisa e Inovação da Universidade do Porto, na Aliança Universitária Europeia para a Saúde Mundial (EUGLOH)

 

** Notícia atualizada na tarde do dia da publicação para incluir uma fotografia do autor e o seu CV sintético.

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