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“O médico dentista assume um papel crucial no diagnóstico das doenças das glândulas salivares”

Tiago Fonseca

A propósito do evento Patologia Salivar e Medicina Dentária, que decorrerá a 2 de julho no formato híbrido de webinar e workshop, a SAÚDE ORAL entrevistou Tiago Fonseca, médico estomatologista e coordenador da organização da formação, que destaca o papel do médico dentista no diagnóstico e referenciação da patologia das glândulas salivares.

Qual a prevalência das patologias das glândulas salivares em Portugal?

 

A diversidade da patologia salivar, a sua dispersão por várias especialidades e a ausência de publicação de dados estatísticos faz com que seja difícil responder a essa pergunta. Quem tenha um contacto pontual com problemas de glândulas salivares dirá que é rara, de um modo geral. Mas quem apresente uma prática clínica dedicada a estes órgãos, de anos, reconhece que é deveras frequente. Não existe a especialidade de Glândulas Salivares; mas um especialista em glândulas salivares avalia e trata, quase em exclusivo, todas as patologias das glândulas salivares.

Qual a patologia mais frequente das glândulas salivares?

 

Podem considerar-se três grupos de patologia das glândulas salivares: obstrutiva, neoplásica e funcional. A primeira e a última são as mais frequentes; as neoplasias são incomuns. A sialoadenite, termo genérico para a inflamação de uma glândula salivar, pode causar ou ser causada por uma obstrução do fluxo salivar; litíase (cálculos) e estenoses podem estar na sua base. A sialoadenite também pode comprometer o funcionamento de uma glândula salivar, com alteração da saliva; doenças do metabolismo (ex.: diabetes) e certos fármacos podem ser a causa.

Quais os principais sintomas relacionados com a patologia salivar?

 

A patologia obstrutiva habitualmente manifesta-se como uma síndrome aguda: “inchaço” – tal como os doentes descrevem – no local da glândula, por norma associado a desconforto ou mesmo dor. Corresponde à dificuldade de excreção/drenagem de saliva e pode evoluir para um quadro inflamatório ou infecioso (sialoadenite, portanto). A sensação de boca seca (xerostomia) é o típico da patologia funcional. Pode ser acompanhada por alteração do paladar (disgeusia) e ser independente – por norma é! – da diminuição da quantidade de saliva (hipossialia).

Nas situações de maior complexidade diagnóstica ou terapêutica ou nos casos de maior gravidade, a referenciação para um profissional / especialista ou centro específico é sempre possível. O raciocínio diagnóstico é o mais importante.

 

Patologia salivar

Que papel assume a medicina dentária na sua identificação?

A medicina dentária aborda a região da cabeça e do pescoço, as manifestações principais e mais frequentes relacionam-se com a boca, o quadro agudo é muitas vezes confundido pelos doentes como problemas dos dentes… “Só” por isto, há dúvida sobre o papel da medicina dentária na identificação da patologia salivar? Alguns dos problemas destes órgãos são identificados por médicos dentistas; em outras situações, o primeiro profissional que um doente procura é, precisamente, o dentista. Mas a medicina dentária também pode assumir um papel preventivo…

Quando identificada, qual deve ser a abordagem do médico dentista?

Como se entende, o médico dentista assume um papel crucial na suspeita – e na confirmação – diagnóstica das doenças das glândulas salivares. A história clínica e o exame objetivo fazem parte da atividade clínica diária; e a requisição de meios auxiliares de diagnóstico (ex.: ecografia, sialografia) também está ao alcance de qualquer clínico. Nas situações de maior complexidade diagnóstica ou terapêutica ou nos casos de maior gravidade, a referenciação para um profissional / especialista ou centro específico é sempre possível. O raciocínio diagnóstico é o mais importante.

Como tem evoluído o diagnóstico e a terapêutica da patologia das glândulas salivares?

Como em qualquer área, na medicina em particular, a evolução diagnóstica e terapêutica também acontece com as glândulas salivares. A biologia molecular tem proporcionado um maior entendimento, por exemplo, sobre os tumores, as neoplasias. Tem igualmente aberto portas à exequibilidade de testes salivares, não só para o diagnóstico de patologia salivar, mas também não salivar (oncológica, por exemplo). Tudo isto tem repercussão nos tratamentos… Mas de há anos que se utiliza uma técnica simultaneamente diagnóstica e terapêutica: a sialoendoscopia.

Alguns dos problemas destes órgãos são identificados por médicos dentistas; em outras situações, o primeiro profissional que um doente procura é, precisamente, o dentista. Mas a medicina dentária também pode assumir um papel preventivo…

Como caracteriza o conhecimento e a consciencialização da sociedade para estas patologias?

Pobre, atrever-me-ia… É do conhecimento geral o que é e onde está o coração. Ou o estômago. Ou os rins. Todos sabem o que é a saliva, o “cuspo”. Mas quem sabe de onde vem, isto é, quais são e onde se localizam os órgãos que a produzem? Raros… Felizmente, com recurso à internet, qualquer pessoa hoje em dia, diretamente ou por terceiros consegue fácil e rapidamente pesquisar e encontrar algo sobre glândulas salivares. Da minha parte, tento chegar à sociedade com iniciativas de formação de profissionais, como a “Patologia Salivar e Medicina Dentária”.

Quais são as expectativas do evento “Patologia Salivar e Medicina Dentária”?

Esta iniciativa tem um histórico… E vai buscar o que melhor se fez nos últimos dois eventos dedicados em exclusivo às glândulas salivares. Da “Patologia Salivar e Medicina Geral e Salivar”, em 2020, recapitula o formato de webinar que juntou a participação de colegas de MGF na apresentação de casos clínicos. Da “Actualização em Glândulas Salivares”, em 2018, recupera o molde de workshop que aliou a teoria à prática na formação sobre endoscopia salivar.

De manhã, o webinar permite reunir participantes de qualquer lado, com uma palestra e a apresentação de seis casos clínicos por médicos dentistas. Está mais direcionado para um público “generalista”. De tarde, o workshop foi pensado para quem queira aprofundar conhecimentos em matérias de raciocínio diagnóstico. Também com uma palestra, é seguido por “estações” onde se pratica o exame objetivo e se contacta com a ecografia e a endoscopia salivares.

Não foi pré-determinado, mas o evento acabou por ter a honra de contar com a presença do Dr. Philippe Katz. O Dr. Katz, médico estomatologista, otorrinolaringologista e radiologista, de Paris, foi o primeiro a realizar sialoendoscopia, a remover um cálculo por via endocanalar e a utilizar litotrípsia nas glândulas salivares; além disto, é exímio em ultrassonografia das glândulas salivares. Por tudo, enfim, apostaria que as expectativas são substanciais.

 

 

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