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Saúde Oral

Opinião: O impacto da capacitação dos profissionais de saúde na cooperação para o desenvolvimento

Mariana Dolores

Há 16 anos que a Mundo A Sorrir desenvolve atividades em vários países de língua oficial portuguesa e ao longo deste tempo tem sido constante a manifestação de necessidade de capacitação por parte dos profissionais de saúde destes países. Temos vindo a desenvolver atividades em áreas específicas como a prevenção, a assistência médica e a investigação, mas sem dúvida que a capacitação dos profissionais de saúde locais tem ocupado uma posição de cada vez mais destaque ao longo destes últimos anos.

A estratégia da Mundo A Sorrir para os PALOP passa por um trabalho de cooperação e ajuda ao desenvolvimento que permita, a seu tempo, uma apropriação local dos projetos. Apostamos na sustentabilidade, na inclusão social e num trabalho coeso desenvolvido em parceria com as entidades locais, que permita o desenvolvimento de cada um dos países, principalmente na área da saúde.

Segundo a OMS, apenas 3% dos profissionais de saúde do mundo são encontrados na África subsaariana, o que demonstra a necessidade de investimento na formação qualificada de mais médicos, mas também na formação continuada desses mesmos profissionais de saúde.

Posso dizer que uma das coisas que mais me chocou das primeiras vezes em que entrei num hospital em África, foi verificar a falta de condições em termos de infraestruturas, o escasso número de profissionais em comparação com o elevado número de pacientes à espera de atendimento, a falta de conhecimento de alguns profissionais (em coisas tão básicas como infeção cruzada) e ver pacientes a percorrerem quilómetros para encontrar um médico. E em contraste, encontrar equipamentos “topo de gama” enviados por algum benemérito da Europa, que na sua inocência, enviou o equipamento sem se aperceber de que, sem formação, ninguém o saberia ou iria utilizar. Muitos destes equipamentos acabam estragados e abandonados, são milhares de euros desperdiçados por falta de informação e principalmente de capacitação. Daqui, também podemos concluir o quão importante é fazermos um trabalho bem estruturado, de continuidade e que permita o envolvimento dos interlocutores locais. São estas as pessoas, que no futuro, farão a diferença nos seus países. É a conhecida imagem do “ensinar a pescar” e não apenas “dar o peixe”.

Por exemplo, a pandemia, como todos sabemos, criou alterações tremendas e algumas possivelmente permanentes na forma como praticamos a medicina dentária. Aqui em Portugal, tivemos a oportunidade de adquirir os EPIS, de receber informação, de formar as nossas equipas e de fazer os devidos ajustes nas nossas clínicas. Mas nem todos os profissionais de saúde oral pelo mundo fora tiveram a mesma possibilidade. Em maio passado, a Mundo A Sorrir recebeu vários pedidos de apoio por parte de médicos dentistas guineenses que não sentiam ter condições ou conhecimento para reabrir o setor da medicina dentária em condições de segurança, quer para os médicos quer para os utentes.

Poderíamos simplesmente ter “dado o peixe” e enviado os EPIS para a Guiné, mas esta não é a forma de a Mundo A Sorrir atuar. Em parceria com os dentistas locais criámos um plano de sete sessões de capacitação online sobre a forma de transmissão do vírus, a utilização dos EPIS, as alterações que deveriam ser feitas em cada infraestrutura, etc. Só depois lhes fizemos chegar os ditos equipamentos de proteção que tinham em falta. Reabriram assim, com condições similares às que temos em Portugal, os seis gabinetes de medicina dentária de hospitais públicos e clínicas sociais. Se tivéssemos apenas enviado os EPIS, estes iriam acabar por ser mal utilizados, deixando os pacientes e os profissionais de saúde expostos ao vírus, provando-se mais uma vez a importância que a capacitação tem e o seu impacto para uma atuação devidamente estruturada e que promove o apoio ao desenvolvimento.

“Com o problema da pandemia e a falta de protocolos adequados, quando soube desta formação aceitei imediatamente. Foi excelente a guia de ensino que a Mundo A Sorrir deu e agora trabalho com confiança e segurança com os novos protocolos e os EPIS que foram oferecidos e são tão necessários. Isto marcou completamente a diferença na minha consulta porque eu já não podia ajudar as pessoas que precisavam da mim”, médica dentista da Guiné-Bissau do Hospital Casa Emanuel.

“Foi muito útil a formação e os materiais enviados pela Mundo A Sorrir para o combate à pandemia de modo que os atendimentos ocorram da forma mais correta possível e não envolvam riscos tanto para os profissionais quanto para os utentes”, refere a médica dentista do Hospital Simão Mendes e responsável pelo departamento de saúde oral do Ministério da saúde da Guiné-Bissau.

Ler estes testemunhos faz-nos ter a certeza do impacto que a capacitação tem no trabalho de cooperação que realizamos e na vida das pessoas que beneficiam dessa ação!

Aqui na Europa temos a possibilidade de nos licenciarmos, fazermos especializações e estarmos numa constante busca por mais informação, por mais conhecimento e por mais evidência científica. Em muitos casos até se conciliam formações feitas em vários países: procuramos as universidades/centros de formação com os melhores cursos, os melhores professores, os melhores equipamentos. Esta é a realidade que conhecemos, mas esta não é de todo a realidade de muitos profissionais de saúde pelo mundo fora.

Cabe-nos a nós valorizar o conhecimento que temos ao nosso dispor e partilhar, de forma estruturada, essa informação. Cabe-nos a nós compreender a importância de fazer este trabalho de forma organizada e consoante as necessidades dos outros profissionais de saúde e, acima de tudo, cabe-nos a nós respeitar os outros profissionais de saúde que infelizmente têm menos acesso (basicamente a tudo o que um médico precisa) do que nós e valorizar o trabalho que eles fazem, muitas vezes com tão poucos recursos disponíveis e, de forma humilde, acreditarmos que temos muito a ensinar, mas também muito a aprender. Só assim a cooperação vai funcionar e só assim a capacitação trará os frutos que tanto queremos para o desenvolvimento integral de cada país.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 137 da revista SAÚDE ORAL, de março-abril de 2021.

 

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