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Opinião: O custo do nosso trabalho

Rui Paiva

Rui Paiva – Membro do Conselho Diretivo da OMD

Da atividade do Conselho Diretivo da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) destaco um projeto que me é caro pois estive envolvido na sua elaboração desde a primeira hora. Ao fim de 14 meses de trabalho e reflexão, o estudo intitulado “Apuramento do custo por tratamento de medicina dentária” está concluído. Este estudo, levado a cabo por uma parceria entre a Faculdade de Economia do Algarve e a OMD, é uma ferramenta fundamental na gestão das nossas clínicas e na determinação dos preços que cobramos, de modo a prestarmos serviços de medicina dentária em condições que respeitem o direito dos nossos pacientes a tratamentos de qualidade, em condições dignas e de segurança.

A existência de convenções e seguradoras que nos propõem parcerias, subjugando-nos a tabelas de preços inferiores aos preços de custo dos nossos serviços, é preocupante. A OMD tem por atribuição zelar pelo direito dos utentes a uma medicina dentária qualificada. Estaria a isentar-se das suas responsabilidades estatutárias caso não se pronunciasse acerca desta matéria que, numa primeira análise, poderá parecer de foro sindical ou meramente economicista. Não será bem assim se considerarmos que, principalmente em Saúde, é perigoso ultrapassar determinados limites impostos por constrangimentos financeiros. Parece-me óbvio que, ao proporem que executemos determinados procedimentos médico-dentários com uma remuneração igual a zero, ou abaixo do seu custo, se está a colocar em risco o superior interesse dos nossos pacientes, o seu bem-estar e segurança, a sua saúde e da comunidade.

 

Cabe a cada um de nós definir qual o valor a atribuir à prestação dos nossos serviços. Essa decisão deve ser tomada com conhecimento pormenorizado de quanto custa a nossa atividade e é imprescindível para o equilíbrio financeiro das nossas clínicas. É de facto legítima a expectativa de obtenção de lucro pela prestação dos nossos serviços, que nos permita manter a nossa prática atualizada em função da evolução da ciência e da tecnologia que, felizmente, não para de nos proporcionar maior conhecimento e meios para tratar cada vez melhor os nossos pacientes. Não podemos correr o risco de gerir a contabilidade corrente da nossa prática de modo empírico, estabelecendo os nossos preços em função da concorrência. Este estudo é, nesse sentido, uma ferramenta indispensável.

Com pouca surpresa, o estudo revela que o custo por hora de um consultório de medicina dentária é significativo. Incluindo salários do médico dentista e assistente dentário, entre outros custos fixos, o preço da hora ascende aos 89€ no caso de um gabinete de consulta. Uma consulta de avaliação, diagnóstico, aconselhamento − pouco importa o motivo −, mas com uma duração de 30 minutos, não ficará abaixo dos 49€. O estudo fornece, ainda, informação em clínicas com dois e três gabinetes, contudo a variação dos valores não é significativa.

 

É imperioso que entidades seguradoras e convenções tenham conhecimento destes dados. De facto, é irrealista apresentarem tabelas com preços na ordem dos 30€ nomeadamente para restaurações de 3 faces, quando o seu valor apurado de custos diretos e indiretos atinge os 99€. Ou sugerirem que façamos extrações a custo zero, quando o seu custo ascende aos 53€. Caberá a cada um de nós, em consciência, decidir se consegue cumprir os pressupostos de salvaguarda do interesse do paciente com estes valores.

O estudo fornece informação detalhada acerca da metodologia utilizada para a obtenção destes resultados e estará disponível para todos em breve.

 

*Rui Paiva – Membro do Conselho Diretivo da OMD

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 141 da revista SAÚDE ORAL, de novembro-dezembro de 2021.

 
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