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Médicos Dentistas

Opinião: Nós, os Cripto-Dentistas!

VitorBrás

Vítor Brás – Médico dentista e Investigador de neuromarketing em medicina dentária

Que há cada vez mais dentistas já se sabe, é quase mais um cliché que um facto estatístico. E agora que os millenials já estão formados é a vez de começarem a sair das universidades os dentistas da chamada Geração Z. E se os primeiros eram, muito resumidamente, tidos como meninos mimados mais interessados na embalagem que no conteúdo, a Geração Z são os geeks, aqueles que gastam mais racionalmente e mais que experiências querem resultados. São os cripto-dentistas da era Bitcoin, que tratam a tecnologia por tu e nasceram com um smartphone em frente enquanto os pais lhes davam a papa. E porque lhes chamo cripto-dentistas?

Não lhes chamo só a eles, acho que todos nos transformámos nisso, sejam pacientes ou dentistas. Todo o mercado evoluiu no sentido de eliminar o intermediário, ir direto à fonte, ter o mais imediatamente possível aquilo por que se paga. Mas no que toca a nós arrisco até a dizer que somos uma criptomoeda, uma bitcoin; algo digital, com valor, descentralizado. Mas passo a explicar esta analogia que faço.

O dinheiro é a forma mais básica de troca económica por um serviço ou objeto que nos acrescente valor ou utilidade. Desde o tempo dos Fenícios e do papel-moeda que o dinheiro foi só isso mesmo, um pedaço de papel ou metal ou como agora: um número de um retângulo plástico. O problema do dinheiro comum? Ser regulado pelos Governos Centrais de cada país. A grande inovação das criptomoedas foi a descentralização dos bancos centrais. Hoje, com a crescente regulação do mercado e da profissão todos somos mais ativos e críticos do sistema, tantas são as leis que todos os dias são aprovadas. Parecemos quase trolhas numa obra em que enquanto um trabalha três ou quatro supervisores vão inspecionando.

E a palavra é mesmo essa: inspecionar. Cada dispositivo numa rede de criptomoedas “inspeciona” todos os outros, tal como os dentistas que constantemente avaliam o trabalho dos seus pares, para o bem e para o mal. Tudo isto forma uma rede em que todos inspecionam todos e o valor é determinado em conformidade. Tudo isto leva-nos a concluir que tal como as moedas digitais, somos nós próprios enquanto “rede de cripto-dentistas” que determinamos o nosso próprio valor.

Valor! Sim, valor e não preço porque providenciar um serviço e não objetos faz com que o que fazemos seja algo não palpável como uma bitcoin, mas que acrescentam valor ao paciente. O problema com as criptomoedas é a sua volatilidade de preço, tão depressa o que daria para pagar uma refeição dá para comprar uma casa. Ainda bem que nesse aspeto já não somos tão parecidos. Somos sim na parte em que cada vez mais colegas já não sujam o paciente com alginato ou putty, e armados qual Harry Potter digitalizam bocas e num toque de classe enviam tudo para o laboratório. Somos cada vez mais digitais, e isso é ótimo.

Apesar de tantas parecenças há algo que podemos invejar não nos assemelharmos às bitcoins, é que há um limite de oferta e daqui a uns tempos atingir-se-á o máximo de moedas em circulação, mas e nós? Até onde irá a oferta de “cripto-dentistas” em circulação? Há cada vez mais, e até de outros países, que vêm cá “minerar” para depois se lançarem por esse Mundo fora.

Estamos agora a assistir à explosão do digital, em que as máquinas ficam mais inteligentes e eficientes que os humanos, em que o paciente está mais informado e nós com cada vez mais ferramentas para satisfazer caprichos mais exigentes. Já não é altura de ter dúvidas, mas sim de abraçar a internet no nosso gabinete.

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 141 da revista SAÚDE ORAL, de novembro-dezembro de 2021.

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