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Opinião

Ninguém a quer mas todos a desafiam

Para Nietzsche, a simples existência de dois seres humanos no mesmo espaço é suficiente para gerar uma luta de poder. Se acontece assim com um duo, a extrapolação desta tese para o ambiente de trabalho, onde coabitam várias pessoas, dá ideia da dimensão que estas questões assumem. E se esse local for uma clínica dentária, então a coisa tende a tornar-se numa guerra civil.

Um médico dentista de quem sou amigo contou-me, num misto de tristeza e estupefação, ter um colega insatisfeito com a sua gestão de equipas. “Não concorda que os procedimentos instituídos nas minhas clínicas tenham de ser apenas os do sistema que criei e implementei.” Felizmente este médico, diretor clínico e sócio-gerente da sua empresa, não anda nisto há dois dias. Caso contrário, estava aberto o caminho para a pior das mudanças: a que nasce por insegurança.

 

Um dos últimos artigos da revista Forbes sobre liderança propõe o teste dos 5 Cês nesta matéria: Caráter, Compromisso, Coragem, Comunicação e Confiança. Se o leitor não obtiver bom resultado, pelo menos fica a saber o que lhe falta. Na realidade, nenhum de nós precisa do resultado do teste para conhecer as fragilidades nos 5 eixos pedidos – faz parte de um autoconhecimento do qual dificilmente escapamos. Mas é preciso reconhecer isso e trabalhar para ultrapassar essas fragilidades. Ou, no limite, impedir que interfiram de forma catastrófica na gestão.

Certo é que a liderança nas empresas e instituições tem de existir, é um requisito fundamental. Difícil de abraçar e fácil de criticar, assume várias formas, mas poucas fórmulas – ou resulta ou não resulta. Se sim, mantém-se e otimiza-se. Se não, substitui-se por um caminho diferente. A terceira via, a inexistência de uma cadeia de decisão, gera o caos. E o caos tem uma característica danada: pode sempre piorar.

 

Consultar tudo e todos sempre que surge a necessidade de decidir é uma casca de banana autoinfligida. A mesma lógica aplica-se a quem faz um exercício de chefia tímido por temer a opinião dos que deve orientar. Ausência de liderança significa ausência de bússola. Liderança tímida é ter uma bússola perto de um campo magnético, querendo acreditar que o caminho apontado está correto.

Há já alguns anos que incluo “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar, nas minhas formações de gestão a médicos dentistas. Não é um manual de autoajuda, mas um clássico literário intemporal, bem mais precioso do que uma mão cheia de manuais práticos do tipo “liderança para totós”. Deixemos falar a sinopse da livraria online Wook. “‘Memórias de Adriano’ tem a forma de uma longa carta dirigida pelo velho imperador, já minado pela doença, ao jovem Marco Aurélio, que deve suceder-lhe no trono de Roma (século II d. C.). Uma carta em que lhe promete contar toda a verdade, sem as reservas próprias da história oficial. Pouco a pouco, através desta serena confissão, suscitada pelo pressentimento de que a morte se aproxima, ficamos a conhecer os episódios decisivos da vida deste homem notável, que soube pacificar o império, tornar a sociedade romana um pouco mais justa, melhorar a sorte das mulheres e dos escravos.”

 

Há vozes dissonantes, opiniões menos favoráveis ou contestação. E haverá sempre – tudo isso faz parte do mundo de quem lidera. É preciso estar preparado para tal, assim como para refletir sobre o que nos rodeia. Hoje, o desafio maior é vivermos tempos onde a razoabilidade se tornou um bem escasso. As empresas, um reflexo da sociedade, também se ressentem disso nos seus recursos humanos.

Vencer este desafio exige atenção permanente, do recrutamento à motivação de quem connosco trabalha. E, claro, saber identificar as críticas válidas. Porque são colaboradores com Caráter, Compromisso, Coragem, Comunicação e Confiança que ajudam líderes a calibrar o caminho, contrariamente aos que tanto desafiam a liderança, mas jamais aceitariam liderar.

 

*Presidente da Incisivos – Associação dos Empresários da Medicina Dentária

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