Quantcast
Opinião

Nem o Super-Homem resiste ao recrutamento na dentária

recrutamento dentária

“Não consigo arranjar ninguém para a receção”; “Cada vez é mais difícil encontrar quem queira trabalhar”; “Marcámos seis entrevistas, apareceram duas pessoas”; “Combinámos o dia para começar e não apareceu”. Estas frases são cada vez comuns no setor da dentária, mas há uma explicação para isso.

O recrutamento nunca é simples, seja em que setor for, embora consiga tornar-se muito complicado em áreas específicas. Na dentária, o processo de entrada de novos funcionários transformou-se em pesadelo para os proprietários das clínicas. Uma situação onde a culpa não morre solteira.

 

Vamos subtrair do tema o passo-a-passo das três fases do processo de recrutamento feito como deve ser (dava para outra crónica). Foquemo-nos na ausência de respostas aos anúncios, nas faltas às entrevistas marcadas ou na não comparência no primeiro dia de trabalho. São tudo contextos cujo resultado é o mesmo: insucesso na angariação de um novo membro da equipa, normalmente para rececionista ou assistente dentária. Com a agravante de, em muitos casos, desejar-se a mesma pessoa para ambas as funções, com tudo o que isso comporta de fragilidade funcional.

A maioria das pessoas que procura o chamado trabalho indiferenciado conhece bem a pior característica de encontrá-lo numa clínica dentária: a ausência de cumprimento do horário de saída.

 

Vários estudos sobre o que valorizam os trabalhadores numa empresa têm o bom ambiente e a organização nos dois primeiros lugares, vindo a remuneração em quinto ou ainda mais abaixo. Pelo meio estão, por exemplo, fatores como a proximidade de casa ou a função exercida. E é natural que o bom ambiente e a organização estejam frequentemente juntos, pois no caos é difícil haver a tranquilidade necessária para produzir. Se está sempre a sair tarde, algo está sempre a falhar e, consequentemente, a vida pessoal do funcionário também falha, num óbvio efeito de dominó.

Claro que há clínicas organizadas onde isso não acontece, mas são a minoria. Um número considerável de unidades de saúde oral não consegue organizar-se para cumprir a hora de fecho e, pior, encara isso como natural. É a kryptonite do recrutamento do nosso setor, numa analogia à matéria fatal para as forças do Super-Homem.

 

Como se espera, poucos trabalhadores querem fazer parte desse contexto, sobretudo por salários baixos e sem pagamento de horas extra. Nada é favorável. Nada é sedutor. E antes que comece a confundir o texto com o panfleto de alguma central sindical, dê uma volta pelos anúncios a pedir pessoas para clínicas dentárias. Encontrará nos requisitos pérolas como “resistência a elevados níveis de stress” e “venha pertencer a uma equipa onde a hora de saída não é o mais importante”. Há de tudo. Até anúncios colocados por funcionários nas redes sociais, a pedido dos patrões, a horas em que deviam estar com a família a descansar.

Nem o Super-Homem é tolo ao ponto de combater a kryptonite – sabe que existe e evita-a. Qual deve ser o esforço de quem dirige? Recrutar deixando claro que na sua clínica não é assim. E que o trabalho fora de horas, a acontecer, é verdadeiramente a exceção. Uma promessa a cumprir na prática, o que implica rever a organização do fluxo do dia-a-dia e perceber onde estão as zonas-gatilho da reação em cadeia que origina os atrasos.

 

Uma vez identificados esses problemas, analise-os e pense em soluções para resolvê-los. Porque a regularidade dos “atrasos inevitáveis” afasta os funcionários, mas faz ainda pior. É que os pacientes gostam tanto de passar a vida em salas de espera como o Super-Homem de kryptonite.

*Presidente da Incisivos – Associação dos Empresários da Medicina Dentária

Este site oferece conteúdo especializado. É profissional de saúde oral?