Médicos dentistas

Mulheres na medicina dentária: “Há necessidade de premiarmos quem tem valor académico, científico e clínico, independentemente do género”

A propósito do Dia Internacional da Mulher, que se celebra este domingo, 8 de março, a SAÚDE ORAL falou com algumas médicas dentistas sobre o papel da mulher na profissão. Existem mais elementos do sexo feminino do que do sexo masculino na medicina dentária, mas a mentalidade de aceitação das mulheres em cargos de poder e a sua influência na profissão ainda não reflete essa realidade. Daí ser essencial “lutar pela existência de igualdade de oportunidades”. A OMD, por seu lado, diz não conhecer situações de desrespeito pela igualdade de género em Portugal.

Na medicina dentária em Portugal, durante as últimas décadas, assistiu-se a um aumento exponencial da classe feminina na profissão. No entanto, como salienta Raquel Zita Gomes, médica dentista especialista em cirurgia oral e líder internacional do projeto Divas in Dentistry, “ainda existe uma grande percentagem da população que associa ‘a ida ao dentista’ a uma figura masculina, dado que a profissão era, em tempos, quase exclusivamente constituída por homens”.

Raquel Zita Gomes

A realidade tem vindo a mudar nos últimos anos e hoje, atentando aos dados de 2019 (referentes a 2018) da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), cerca de 2/3 (60,2 %) dos seus membros são mulheres, sendo a taxa de feminização da profissão, em 2018, de 151%.

Embora existam cada vez mais mulheres licenciadas na medicina dentária, “a mentalidade de aceitação das mulheres em cargos de poder e a sua influência na profissão ainda não reflete essa realidade”, alerta Raquel Zita Gomes.

Uma pirâmide desequilibrada?
“A ausência de paridade é, sobretudo, sentida nos chamados extremos da carreira de pessoas com o ensino superior”, especifica Ana Mexia, médica dentista com prática clínica em cirurgia, implantologia e estética dentária, explicando que “se verifica que existem muito mais mulheres no início da carreira, ou seja, temos uma ‘base da pirâmide’ vincadamente feminina, e muitos mais homens no seu topo”. Isto significa que, “se há umas décadas não havia mulheres em número suficiente para ocupar uma percentagem elevada nos cargos de topo, neste momento já há”. No entanto, ainda de acordo com Ana Mexia, mesmo assim, “as mulheres (mesmo estando disponíveis) não chegam lá”. Um facto que, como sublinha a médica dentista, tem uma influência enorme “no fosso salarial de género que ainda se verifica atualmente”.

Daí declarar, em jeito de conclusão, que na medicina dentária “estamos ainda longe da paridade”. E, recorrendo a alguns exemplos, destaca: “Sou a única mulher a fazer parte dos órgãos sociais da SOPIO – Sociedade Portuguesa de Implantologia e Osteointegração e, na SPERO – Sociedade Portuguesa de Estética e Reabilitação Oral, os órgãos sociais são compostos por sete mulheres e 16 homens. Já no programa do congresso da OMD de 2019 tivemos 21 palestrantes homens e quatro mulheres, no primeiro dia; 34 homens e 22 mulheres no segundo, e 18 palestrantes homens para oito mulheres no último dia do congresso.”

Onde é que os desequilíbrios são maiores?
“Nos cargos de chefia”, sobretudo ao nível das clínicas, declara a médica dentista Joana Farto, que se dedica à odontopediatria e à ortodontia, justificando: “Parece-me existirem mais diretores clínicos homens do que mulheres, talvez pela maior dedicação dos homens e capacidade de terem horários mais alargados.” Ana Mexia alerta, neste sentido, que “a mulher continua a assumir o papel da maternidade, do cuidar, e o homem vai fixando, sem grandes desvios, o ‘foco’ na competição”.

Mas se o sexo feminino “já domina (quantitativamente) a profissão, já só precisa de espaço (entenda-se, receber convites) para poder mostrar talento, trabalho qualitativo, se preferir trabalho de topo, melhor, ou pelo menos igual, ao que é apresentado por alguns colegas do género oposto”

Mas, voltando às áreas em que se nota mais diferença de (des)equilíbrio entre géneros, Raquel Zita Gomes aponta “a docência universitária, a chefia de organizações profissionais ou mesmo as palestras em palcos internacionais”. Segundo a médica dentista, nestas áreas de poder, “as prevalências não têm acompanhado as tendências da penetração feminina na profissão”, uma circunstância que acredita “dever-se ao facto de a profissão de médico dentista ser durante muitos anos dominada pelo sexo masculino e os círculos de poder estarem muito vedados aos amigos e conhecidos, acabando por existir algum machismo”.

Mas se o sexo feminino “já domina (quantitativamente) a profissão, já só precisa de espaço (entenda-se, receber convites) para poder mostrar talento, trabalho qualitativo, se preferir trabalho de topo, melhor, ou pelo menos igual, ao que é apresentado por alguns colegas do género oposto”, argumenta Ana Mexia.

Há assim, como defende Raquel Zita Gomes, “a necessidade de uma atitude neutra e de premiarmos quem tem valor académico, científico e clínico, independentemente do género”. Sendo que, do seu ponto de vista, “a criação de movimentos para promover e apoiar as mulheres profissionais na medicina dentária também poderá contribuir para uma evolução das mentalidades”, acrescenta.

Especialidades mais “femininas”?

Joana Farto

Atualmente também se assiste ao ‘fenómeno’ de haver áreas na medicina dentária mais associadas aos elementos do sexo feminino do que outras. “Na odontopediatria, por exemplo, somos muito mais mulheres que homens: na entrega das especialidades só me lembro de um homem e num curso que dou nesta área, ainda só tive um aluno”, elucida Joana Farto.

A maior parte das pessoas atribui “as especialidades mais cruentas (cirúrgica oral e implantologia) preferencialmente aos homens e as especialidades mais delicadas (odontopediatria, ortodontia, e estética dentária) especialmente às mulheres, provavelmente porque no geral atribuímos uma conotação de força e poder sobretudo aos homens e uma conotação de estética e delicadeza às mulheres”, reforça Raquel Zita Gomes.

Ana Mexia concorda: “A cirurgia oral/implantologia e a endodontia estão mais associadas a nomes masculinos e a odontopediatria e a ortodontia a nomes femininos.” O historial destas supostas diferenças prende-se, como reitera a médica dentista, com “a associação (provavelmente elogiosa) que se fazia à sensibilidade e paciência, como características apontadas essencialmente às mulheres e, para os homens, os slogans de força pareciam assentar como ‘uma luva’ ao trabalho de cirurgia”.

Não obstante, na sua opinião, “as características de género são uma espécie de mitos urbanos falaciosos e sem sentido”, que “já todos temos noção que está errado, mas que é preciso tempo para sentirmos as mudanças acontecerem, de facto”.

O que é preciso então fazer?
Para começar, “as mulheres devem impor-se mais ao nível da formação e nos cargos de chefia”, afirma Joana Farto.

“Lutar pela existência de igualdade de oportunidades em cargos de poder entre sexos na profissão; mudar a mentalidade que certas especialidades são supostamente mais masculinas; e consciencializar a classe e o público de que o facto de sermos mães e esposas não impede que também sejamos profissionais de excelência”, enumera Raquel Zita Gomes.

Contactado pela SAÚDE ORAL, Orlando Monteiro da Silva, bastonário da OMD, confirmou que são cada vez mais as mulheres na medicina dentária: “No nosso caso, olhando para os Números da Ordem 2019, vemos que as mulheres representam atualmente 60% da classe (na edição de 2010 eram 45%) e apresentam uma média de idades inferior à do sexo masculino (37 para 42). Portanto, o papel das mulheres na evolução da profissão é evidente e julgo que esse contributo, seja feminino ou masculino, é reconhecido pelos seus pares de igual forma.”

O bastonário da entidade reguladora dos dentistas afirma, porém, desconhecer situações de desigualdade: “[…] A OMD não tem conhecimento de situações de desrespeito pela igualdade de género. Aliás, por exemplo, em eventos como o Congresso da Ordem é notório o respeito, a admiração, a valorização do mérito e da partilha de conhecimento que existe entre os médicos dentistas, independentemente do género.” Aliás, este “respeito”, frisa Orlando Monteiro da Silva, estende-se ao funcionamento da própria Ordem: “Os direitos e deveres são iguais para todos os seus membros. É o caso da isenção de pagamento de quotas por licença de maternidade, atribuída tanto à mãe como ao pai, pelo período de duração da respetiva licença.”

E no futuro?
“Sabemos que em muitos lugares do mundo, muitas vezes por fatores culturais e até religiosos, continuamos a assistir a mulheres marginalizadas, ignoradas, maltratadas, e onde as portas não se abrem pela ‘simples’ questão de género”; expõe Ana Mexia. E acrescenta: “Acredito que tudo isso será eliminado. Ainda faltará muito tempo, mas também já faltou mais.”

Ana Mexia

Quanto à medicina dentária propriamente dita, Raquel Zita Gomes é mais otimista: “Espero que num futuro próximo, pelo menos na geração dos nossos filhos, as oportunidades em cargos de poder na medicina dentária sejam equilibradas entre géneros e que a percentagem de mulheres em termos de cargos de chefia, docência e como palestrantes seja minimamente proporcional ao número de profissionais femininas.” Neste sentido, defende que teremos de “mudar rapidamente as mentalidades e oportunidades, dado que é inegável que a tendência para existirem mais mulheres que homens na profissão é já uma realidade”.

*com Ana Tavares

Divas in Dentistry

É um movimento que surgiu com o objetivo de ‘empoderar’ e motivar as médicas dentistas. A sua criação adveio da “necessidade de tentar criar consciência das mudanças dos tempos e para dar suporte às mulheres na nossa profissão”, explica Raquel Zita Gomes.

“[O Divas in Dentistry] foi o primeiro movimento que surgiu neste sentido, tendo sido foi criado pela Dr.ª Delia Tuttle, em 2014, sendo eu a primeira líder internacional, com o objetivo de conectar, ajudar e promover o trabalho desenvolvido pelas mulheres médicas dentistas.”

O trabalho construído já está a dar os seus frutos, nomeadamente a organização de congressos mundiais, lançamento de livros e criação do site (www.divasindentistry.com) e do grupo de Facebook (https://www.facebook.com/divasindentistry).