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Médicos Dentistas

Medicina dentária desportiva: O pódio à distância de um dente

medicina dentária desportiva

Mais do que serem utilizados para sorrir quando se celebra uma vitória, os dentes dos atletas de alto rendimento podem impedir uma performance nas melhores condições, provocar lesões e até sabotar transferências milionárias. É aqui que entra em campo a medicina dentária desportiva, uma área emergente em Portugal, mas que merece o seu lugar no pódio da medicina desportiva.

Chegou, viu e venceu — pelo menos até um exame médico impedir um futuro risonho. Aly Cissokho foi contratado pelo Futebol Clube do Porto em 2009, vindo do Vitória de Setúbal, por 300 mil euros. Apenas seis meses depois, o clube da Invicta tinha o A.C. Milan a bater-lhe à porta com uma oferta de 15 milhões pelo lateral francês. Tudo parecia encaminhado até aos testes médicos. Segundo a equipa do clube italiano, Cissokho tinha problemas dentários que poderiam provocar má postura e lesões musculares. O negócio caiu por terra. O jogador acabou por ser vendido pelo mesmo valor ao Lyon, mas, quando questionado sobre o problema, negou várias vezes os problemas de saúde oral, culpando os “muitos empresários” pela queda da transferência. Em 2011, chega a notícia de que, após dois anos com problemas físicos no clube francês, ia mesmo avançar para uma cirurgia ao maxilar.

Hoje, talvez já não fosse assim. São cada vez mais os atletas que revelam preocupação com os seus dentes e com a influência que a saúde oral pode ter na sua condição física. Cristiano Ronaldo, no futebol; Valentino Rossi, no motociclismo; e Daniel Ricciardo, na Fórmula 1, são apenas alguns dos desportistas de renome mundial que foram recentemente fotografados com goteiras de proteção bucal, feitas por médicos dentistas. Se Lionel Messi tivesse usado uma no clássico entre o Barcelona e o Real Madrid, em 2017, as famosas imagens que mostram o futebolista a cuspir um dente talvez não tivessem acontecido.

Em Lisboa, no Instituto de Implantologia, estas e muitas outras histórias que cruzam dentes e o desporto são contadas a título de exemplo pelos profissionais de medicina dentária que trabalham nesta área — a medicina dentária desportiva.

“Esta é uma área em crescimento que implica uma mudança de mentalidades por parte dos atletas, mas também dos profissionais de saúde que os acompanham, como os departamentos médicos, entre outros”, diz o médico dentista Artur Simões, responsável pelo Centro de Medicina Dentária da clínica privada lisboeta, a poucos passos da Praça de Espanha.

Inaugurado em 2014, este departamento foi criado por desafio do fundador do Instituto de Implantologia e professor na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa (FMD-UL), João Caramês, que quis desenvolver um departamento específico para colaborar com atletas, “aplicando algumas ideias absorvidas da sua experiência nos Estados Unidos, onde a medicina dentária desportiva está em constante desenvolvimento”, conta Artur Simões.

Deste lado do Atlântico, a população em geral tende a descuidar a sua saúde oral — um terço dos portugueses só visitam o consultório dentário em caso de extrema necessidade, segundo dados da Ordem dos Médicos Dentistas — e os atletas não são exceção. “Muitas vezes, a saúde oral é negligenciada pelo atleta e pode desempenhar um papel muito importante na obtenção dos seus objetivos”, nota Artur Simões.

Os abcessos dentários, dores de dentes agudas, cáries, sangramento das gengivas e dor na articulação temporomandibular, entre outros problemas, podem limitar a capacidade do atleta em treinar e competir ao seu mais alto nível, explica o profissional, que conta com uma pós-graduação em implantologia oral.

É por isso que Artur Simões acredita ser de “extrema importância que sejam desenvolvidas iniciativas de educação para a saúde relacionadas com a saúde oral no desporto, sensibilizando os atletas para a importância da prevenção e riscos associados”.

Colaboração entre especialidades

No Centro de Medicina Dentária Desportiva, médicos dentistas de diversas especialidades colaboram para resolver os problemas dentários dos atletas, após a realização de uma avaliação inicial e da criação de um plano de tratamento. Mas, na área da medicina dentária desportiva, o desafio não é tanto que os médicos dentistas colaborem entre si, mas, sim, que colaborem com outros médicos para uma avaliação global dos desportistas.

Artur Simões acredita ser de “extrema importância que sejam desenvolvidas iniciativas de educação para a saúde relacionadas com a saúde oral no desporto, sensibilizando os atletas para a importância da prevenção e riscos associados”

Artur Simões

Artur Simões

“A medicina dentária continua a ligar-se muito apenas e só à cavidade oral, mas tem de ser muito mais do que isso e perceber a sua ligação a outras áreas da medicina”, afirma Paulo Lopes, médico dentista e fundador da rede de clínicas Onda de Sorrisos, com consultórios em Odivelas, Casal de Cambra e Lisboa.

Para este antigo enfermeiro, que já foi diretor da Linha SNS24 e que completou um curso rápido de medicina dentária desportiva em São Paulo, no Brasil, Portugal ainda está muito atrasado nesta área. “Que eu tenha conhecimento, não há formação específica em medicina dentária desportiva”, refere. “Noutros países, como o Brasil e os Estados Unidos”, garante, “já se explora muito mais a relação entre o atleta e o médico dentista”.

Isto porque os problemas de oclusão — a forma como os dentes encaixam uns nos outros quando se fecha a boca — estão relacionados com problemas de postura que podem eventualmente conduzir a lesões.

“Historicamente, a primeira simbiose entre oclusão e controlo tónico-postural foi feita por um osteopata belga, Jean-Pierre Meersseman, que, juntamente com um dentista italiano, [Gian Mario] Esposito, publicou em 1987 o primeiro artigo científico que refere a possibilidade de interferência da oclusão na postura”, explica Luís Redinha, fundador da clínica com o mesmo nome, em Lisboa, e especialista em prostodontia, a área da medicina dentária que permite a recuperação de dentes perdidos.

Meersseman esteve depois envolvido na criação do MilanLab, o centro de investigação científica de alta tecnologia do A.C. Milan, que combina várias especialidades médicas na avaliação dos atletas do clube. “Foram eles que, precisamente, há uns anos, quando o F.C. Porto tentou vender o Cissokho ao Milan, o recambiaram com o diagnóstico de problemas oclusais”, conta o médico dentista.

Artur Simões sublinha ainda que a má oclusão interfere na mastigação e na digestão dos alimentos, afetando a absorção de nutrientes essenciais. Paulo Lopes aponta o mesmo: “Por vezes, temos pacientes desnutridos, com falta de ferro, ácido fólico, e ninguém pergunta se aquela pessoa já não tem dentes na boca para comer um bife ou um bom peixe”, sublinha, acrescentando que se esta é uma questão importante para a população em geral, muito mais o será para um atleta.

Para o médico dentista, o desenvolvimento da medicina dentária desportiva tem de passar por mais investigação que permita conhecer a realidade dos atletas portugueses.

“Historicamente, a primeira simbiose entre oclusão e controlo tónico-postural foi feita por um osteopata belga, Jean-Pierre Meersseman, que, juntamente com um dentista italiano, [Gian Mario] Esposito, publicou em 1987 o primeiro artigo científico que refere a possibilidade de interferência da oclusão na postura” − Luís Redinha

Luís Rendinha

Luís Rendinha

“[Em Portugal], temos de fazer um trabalho de campo doloroso e trabalhoso [com os atletas] para começarmos a trabalhar noutras áreas. Há ajustes que têm de ser feitos à nossa realidade.”

Paulo Lopes começou a fazer parte desse trabalho com alguns atletas de clubes desportivos de Loures entre 2018 e março de 2020, altura em que a pandemia de covid-19 começou a confinar o País. Pondo em prática a articulação da medicina dentária com outras áreas da saúde, o médico dentista avaliou cerca de 600 atletas em conjunto com outros profissionais das suas clínicas, dos ramos da nutrição, psicologia, terapia da fala e osteopatia (uma terapia não convencional que em Portugal é regulamentada pelo Ministério da Saúde e cuja formação é feita no ensino superior).

Os dados que recolheu — e que foram apresentados em dois Simpósios de Medicina Dentária que organizou em 2018 e 2019 com a presença de ex-futebolistas conhecidos, como Jorge Andrade e Jorge Cadete — revelam que ainda há muito a fazer.

Olhando apenas para as triagens dos jogadores de futebol do União Ponte Desportiva de Frielas, com crianças dos cinco anos até jogadores seniores, 55,37% dos 410 atletas avaliados sofriam de má oclusão, 65% tinham cáries ou gengivites e 6,58% já tinham sofrido traumatismos cranianos, muitas vezes evitáveis com o uso de goteiras de proteção feitas em consultório médico-dentário. “E isto apenas num clube e só com atletas de futebol. Há que pensar nas outras modalidades”, sublinha.

Medicina dentária e rendimento desportivo

Um médico dentista que está não só a estudar a ligação entre a medicina dentária e a atividade desportiva, mas também a avaliar o impacto que esta pode ter na performance dos atletas, é Luís Redinha. Mas, antes ainda de descrever a sua investigação, o profissional começa por salientar que, quando se fala de medicina dentária desportiva, há que distinguir três vertentes.

A primeira é a medicina dentária generalista, que trata a população em geral, mas aplicada aos atletas (sendo que há estudos com desportistas olímpicos que revelam que estes têm alta prevalência de patologias orais muito por culpa do consumo de bebidas energéticas e de uma dieta rica em hidratos de carbono, com potencial para alterar o pH oral, tornando-o mais ácido).

Já a segunda, que Luís Redinha afirma ainda estar “pouco dinamizada”, é a dos protetores bucais.

Por fim, a terceira vertente poderia implicar a criação de uma subespecialidade dentro da medicina dentária, caso se venha a validar que a intervenção desta “no desportista pode ser conducente a uma melhoria do rendimento e até mesmo à redução do número de lesões decorrentes da prática desportiva”, explica.

Nos cinco estudos que realizou em Portugal entre 2014 e 2017, em colaboração com os professores Pedro Pezarat Correia e Amândio Dias, ambos da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa (FMH-ULisboa), o médico dentista diz esse não parece ser o caso. Segundo Redinha, não há ainda evidência científica suficiente que comprove a relação entre a estabilização de problemas oclusais e a melhoria do rendimento neuromuscular dos atletas.

Tal foi revelado no primeiro estudo realizado pelos investigadores, que consistiu numa revisão de bibliografia sobre o tema, ou seja, um artigo científico que sintetiza as conclusões alcançadas por outros estudos. O problema, segundo Luís Redinha, não foi sequer a falta de material — os investigadores encontraram entre 700 e 800 textos científicos sobre o tema —, a questão prendeu-se com a metodologia escolhida, “que não obedece aos critérios válidos de evidência científica”. Como exemplo, refere um estudo sobre goteiras, que têm de ser executadas por um médico dentista, no qual não participava um único investigador de medicina dentária.

Os quatro estudos seguintes, realizados com a colaboração do professor Nuno Cordeiro, do Instituto Politécnico de Castelo Branco (IPCB), foram mais encorajadores, revelando que esta é uma linha de investigação que, embora não possa ainda ser confirmada, deve ser prosseguida.

Duas das pesquisas mostraram que o uso de goteiras bucais, ajustadas a uma posição estável do ponto de vista ortopédico, melhoraram a força de atletas de rugby numa prova de supino (levantamento de peso deitado sobre um banco), bem como a força de alunos do IPCB em testes ao braço e ombro.

 “Aliás, a má oclusão está diretamente relacionada com problemas posturais, muitas vezes com problemas respiratórios, com a distribuição não uniforme das forças nos membros inferiores, deficiente mastigação e alterações da visão binocular [em que os olhos são usados em conjunto]”

José Gomes Pereira

José Gomes Pereira

Os dois restantes estudos, com futebolistas e atiradores de precisão, não tiveram significado estatístico quanto à influência das goteiras na marcha e na menor oscilação dos atletas, porque a variabilidade do grupo era grande. Contudo, Luís Redinha salienta que testar os mesmos sujeitos várias vezes e nas mesmas condições pode produzir resultados mais claros. “Acreditamos que vá ter influência.”

Os dentes como indicadores de saúde

Se as relações diretas entre a oclusão e o desempenho desportivo não estão ainda confirmadas pela evidência científica, já a importância da boa saúde oral para os atletas é inegável, de acordo com os especialistas.

“Considerando a saúde oral dos desportistas, aí sabemos que há patologias, nomeadamente infeciosas, cáries, doença periodontal, entre outras, que têm repercussões sistémicas no nosso corpo. Isso está provado pela ciência”, explica Luís Redinha. O médico dentista salienta ainda as ligações entre a doença periodontal e a diabetes e patologias cardiovasculares.

Gustavo Cuco, que trabalha a área da medicina dentária desportiva na clínica da capital The Lisbon Smile Clinic, aponta, contudo, uma limitação. “Muito do que se fala de medicina dentária desportiva continua a estar ligado a uma saúde oral equilibrada, ou seja, todos os cuidados de prevenção para aquilo que são doenças da cavidade oral que não são distintas daquilo que deve ser o serviço para toda a população.”

Na opinião de Luís Redinha, os clubes e os atletas deveriam levar esta questão muito a sério. “Sendo eles atletas profissionais e estando numa franja da população privilegiada, deveriam ser controlados a um nível coincidente com a exigência profissional que têm, e penso que nem sempre é assim”, refere o profissional.

José Gomes Pereira, diretor clínico do Comité Olímpico de Portugal (COP) e especialista em medicina desportiva, acredita que os médicos ligados à alta competição e, consequentemente, aos clubes, estão conscientes deste problema. O médico garante ainda que a generalidade dos manuais de medicina desportiva que conhece mencionam a importância da saúde oral na prevenção e despiste de lesões. “Temos de considerar as cáries, gengivites, periodontites, processos inflamatórios, os desequilíbrios de oclusão”, enumera.

“Aliás, a má oclusão está diretamente relacionada com problemas posturais, muitas vezes com problemas respiratórios, com a distribuição não uniforme das forças nos membros inferiores, deficiente mastigação e alterações da visão binocular [em que os olhos são usados em conjunto]”, acrescenta.

Este último aspeto tem sido abordado em clínica por Luís Redinha desde 2015. “Esta parte do controlo tónico-postural não tem que ver só com a oclusão, mas também com a visão binocular, e há uma série de artigos já publicados sobre as interrelações entre estes dois sistemas”, afirma o médico dentista.

Redinha menciona o exemplo de uma atleta que tratou com insuficiência de convergência ocular — semelhante a um ligeiro estrabismo — e que tinha ainda problemas de oclusão, associados a uma síndrome de perna encurtada. Em conjunto com um fisioterapeuta e optometrista, foi possível resolver os vários problemas da atleta, incluindo as dores lombares que a impediam de progredir no treino em termos de carga.

Consultores, mas fora da equipa médica

Consciente de todas estas relações, José Gomes Pereira revela que, enquanto foi diretor clínico do Sporting, o clube contava com um consultor permanente para a área da medicina dentária. “Fui diretor clínico de um dos três grandes [Sporting] durante 11 anos e dentro do nosso conselho médico tínhamos várias especialidades, incluindo a medicina dentária, porque, de facto, a saúde oral do atleta é muito importante”, admite.

 “A perda de um dente é um problema de saúde pública”, salientando as suas repercussões estéticas e para a saúde. Segundo o médico dentista, os protetores bucais são importantes não só para proteger os dentes, mas também para prevenir traumatismos cranianos. “A base do crânio é a nossa maxila e há muitas forças que são projetadas na mandíbula e se repercutem a nível cerebral” − Paulo Lopes

 

Porém, o atual diretor clínico do COP reconhece que muitas vezes a presença contínua de um médico dentista não acontece. “O que existe é um médico dentista que faz parte da equipa de consultores e que é responsável, por exemplo, no clube a que estive ligado, por uma triagem no início do ano em que são inventariadas as situações.” Para cada atleta era então estabelecido um plano, que seria executado, quando possível, ao longo da época.

Artur Simões, que atualmente trabalha com os jogadores da Federação Portuguesa de Rugby e não só, salienta também o timing específico das intervenções nos desportistas. “Estamos a lidar com cronogramas que, por vezes, não permitem visitas regulares e tratamentos dentários a horas específicas. É sempre prejudicial se alguma patologia oral comprometer a participação do atleta no treino ou em competição”, explica.

A solução, acrescenta, passa por apostar na prevenção antes de cada período competitivo, como mencionado por José Gomes Pereira.

No COP, o diretor clínico sublinha que o acompanhamento médico-dentário responde às limitações geográficas, já que há atletas de projetos olímpicos (Jogos Olímpicos, mas também as olimpíadas da juventude, europeias, de verão e inverno) espalhados por todo o país. “Nesse contexto, temos uma consultoria na área da medicina dentária, como temos em todas as áreas médicas, com uma grande instituição prestadora de cuidados de saúde, porque importa neste caso centralizar”, afirma José Gomes Pereira.

“No COP, a medicina dentária está ao nível da radiologia, da pneumologia, da gastroenterologia. Qualquer problema que o atleta tenha numa área específica clínica, nós temos solução”, garante o especialista em medicina desportiva.

Para o F.C. Porto, a lição trazida por Cissokho parece ter sido aprendida. O clube mantém uma ligação próxima com o médico dentista Hélder Monteiro, que, na sua página de LinkedIn, se assume como “colaborador semanal no F.C. Porto”. O treinador Sérgio Conceição chegou mesmo a referir em entrevistas a importância da medicina dentária como parte integrante da equipa médica do plantel.

O clube, porém, não quer revelar pormenores sobre o trabalho realizado. Contactado no âmbito desta reportagem, fonte do departamento de comunicação do F.C. Porto agradeceu o interesse demonstrado, mas afirmou que este é “um trabalho privado da equipa […] que o gabinete de comunicação não pretende divulgar em pormenor publicamente”.

Luís Redinha diz que “é natural que os clubes não queiram revelar essa informação”, porque investem nela como “vantagem competitiva sobre os outros”.

“Do ponto de vista da ciência e das instituições, se conseguíssemos ter alguma informação, seria útil”, admite por sua vez o médico dentista Gustavo Cuco.

Para José Gomes Pereira, que revela já ter considerado alguns jogadores como “inaptos limitados” por o atleta “não ter devidamente acompanhada a sua saúde oral por um especialista”, é preciso que os dentistas também se vocacionem mais para a alta performance e para o desporto. Aponta como exemplo o uso de goteiras de proteção bucal: “Os médicos de medicina dentária têm de ter capacidade para responder imediatamente e de forma eficaz a estas solicitações e, da nossa parte, tem de haver sensibilidade para perceber o que esta interação produz, no fundo.”

Goteiras equivalem a doping?

A questão das goteiras bucais é, exatamente, segundo Luís Redinha, um ponto a explorar pela medicina dentária desportiva, pelo menos de acordo com os resultados dos estudos que realizou. “Temos a obrigação de investigar isto um pouco mais a fundo, porque se a goteira é um instrumento que permite melhorar o rendimento e diminuir lesões, será que isto não é doping no desporto?”, questiona.

Ao mesmo tempo, do ponto de vista da prevenção, o médico dentista defende o uso “quase obrigatório” destes aparelhos para proteção dos traumatismos dos atletas. “Ainda no outro dia recebi uma chamada de uma colega com um miúdo de 15 anos que lhe apareceu no consultório com três dentes fraturados porque joga rugby e não usa protetor”, conta.

As estatísticas apoiam a posição do profissional de saúde: estima-se que cerca de cinco milhões de dentes sejam perdidos em atividades desportivas só nos Estados Unidos da América todos os anos. “Não há cultura de uso e isso deveria ser mais sublinhado aos desportistas”, defende.

Paulo Lopes diz mesmo que “a perda de um dente é um problema de saúde pública”, salientando as suas repercussões estéticas e para a saúde. Segundo o médico dentista, os protetores bucais são importantes não só para proteger os dentes, mas também para prevenir traumatismos cranianos. “A base do crânio é a nossa maxila e há muitas forças que são projetadas na mandíbula e se repercutem a nível cerebral”, afirma.

“A medicina dentária desportiva sempre foi um tema abordado durante o curso de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa no âmbito de diversas disciplinas, como a Medicina Dentária Preventiva, Oclusão e Disfunção Temporomandibular e Oclusão em Clínica de Reabilitação Oral” − Maria Carlos Quaresma

Maria Carlos Quaresma

Maria Carlos Quaresma

Lopes aponta ainda que muitos desportistas compram protetores bucais em estabelecimentos comerciais. Além de não serem feitos à medida da boca do atleta, estes protetores têm de ser aquecidos em água e, depois, “mordidos”, para se adaptarem aos dentes. O “encaixe”, explica o médico dentista, vai ser sempre precário, prejudicando a fala e até a respiração do desportista.

Outra fragilidade é a ausência, nestes protetores, das várias camadas de material borrachóide e rígido ou semirrígido que as goteiras produzidas pelos dentistas englobam. Estas podem ter até três camadas, que variam de espessura e rigidez consoante a modalidade praticada para maior proteção contra o impacto. “São [protetores] feitos com materiais que absorvem energia. Além dos dentes, devem chegar ao osso alveolar [que rodeia a raiz dos dentes] e fundo do vestíbulo [espaço entre dentes e bochecha] para que a pancada que o atleta possa sofrer seja distribuída pelo osso alveolar e não só no ponto de impacto”, explica Luís Redinha.

No Centro de Medicina Dentária, Artur Simões confessa que o fabrico de goteiras de proteção bucal é um dos principais motivos de consulta com atletas. Em 2015, a clínica em que este centro se insere lançou, em parceria com a Federação Portuguesa de Rugby, um programa de prevenção de traumatismo dentário chamado Play — PlayHard, PlaySafe, PlayRugby, que incentivava ao uso de protetor bucal. “Estamos no presente a procurar desenvolver estudos que nos permitam lançar números relacionados com a prevalência do traumatismo dentário no rugby em Portugal, bem como dados sobre a preocupação dos atletas em relação à sua saúde oral”, conta o responsável pelo centro.

Falta de evidência para a especialização

Embora abarque algumas questões mais específicas, a verdade é que a medicina dentária desportiva ainda se integra na medicina dentária generalista, não existindo de momento em Portugal formação direcionada para este ramo.

“A medicina dentária desportiva sempre foi um tema abordado durante o curso de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa no âmbito de diversas disciplinas, como a Medicina Dentária Preventiva, Oclusão e Disfunção Temporomandibular e Oclusão em Clínica de Reabilitação Oral”, explica Maria Carlos Quaresma, professora da FMD-ULisboa.

É, aliás, durante os seus mestrados integrados em Medicina Dentária que os estudantes aprendem a executar os protetores bucais, mas, segundo a docente, o interesse dos alunos por este ramo é notório. “Há interesse por parte dos alunos nesta área. Talvez pelo facto de muitos dos nossos alunos também serem desportistas, existem todos os anos dissertações de mestrado integrado que abordam precisamente o tema dos protetores bucais em desportos específicos”, afirma Maria Carlos Quaresma.

Além disso, a professora da FMD-ULisboa salienta ainda que cada vez mais as federações procuram a Universidade de Lisboa para dar resposta aos seus atletas.

Por outro lado, Luís Redinha, que também já foi professor convidado em várias instituições do ensino superior, é cético quanto à criação de formação específica nesta área. “Vejo evidência clínica, mas a evidência clínica não é suficiente para criarmos uma formação [em medicina dentária desportiva] ou subespecialidade”, frisa, acrescentando que discutiu publicamente o assunto com outros colegas durante o Congresso da Ordem dos Médicos Dentistas, em 2019.

Assim, mais do que a criação de uma especialização dentro da medicina dentária, o médico defende que é necessário maior volume de investigação e “com qualidade melhor do que a que tem sido feita na generalidade até aqui”.

Artur Simões concorda com o colega: “É crucial o desenvolvimento de mais estudos que gerem evidência científica que relacione a saúde oral e o rendimento desportivo.”

Para isso, defende Luís Redinha, o interesse tem de partir não só dos médicos dentistas, mas também das federações e comités olímpicos. Como exemplo, menciona a federação italiana de esqui alpino, que tem um médico dentista de serviço que faz as goteiras de proteção dos atletas.

O futuro da medicina dentária desportiva

Sem especialização à vista, o futuro da medicina dentária desportiva pode, como sugere o médico dentista Gustavo Cuco, passar por uma mudança de paradigma na investigação. “O que continuamos a avaliar para atletas de elite, muitos deles com características financeiras muito diferentes do resto da população, é o mesmo que avaliamos para a população em geral”, defende.

“A exigência e o rigor que devemos ter do ponto de vista das necessidades destes atletas nos estudos deveria ser superior”, conclui. Para tal, o profissional de saúde menciona um estudo de 2017, que já aponta diferenças na saúde oral de atletas de modalidades coletivas e individuais. “Há diferenças em termos de ausência de peças dentárias e de índices de placa bacteriana que podem levar a doença periodontal”, aponta.

Uma explicação plausível, diz, é a própria capacidade financeira dos atletas que praticam modalidades individuais — que é geralmente superior. “É uma correlação simplista que poderíamos criar, mas temos de a investigar.”

Gustavo Cuco acredita também que a medicina dentária desportiva do futuro vai recorrer a novos avanços tecnológicos, como o machine learning e a inteligência artificial. Tal como os nossos telemóveis e relógios digitais já contam hoje o número de passos que damos ao longo do dia, é possível que a investigação vá munir futuramente os atletas de dispositivos intraorais para verificar os seus parâmetros fisiológicos durante a atividade desportiva.

O médico dentista espera também que estes dispositivos sejam utilizados para avaliar algumas patologias que são da sua área clínica específica, como o bruxismo noturno (o ranger de dentes durante o sono), e que podem afetar a recuperação física do atleta e o seu descanso.

“Outra área que pode ser investigada é a importância que a estética oral tem no desempenho do atleta no sentido de este se sentir confortável estética e psicologicamente”, salienta o médico dentista, comentando que esta é uma questão de desempenho muitas vezes subvalorizada.

A medicina dentária desportiva no mundo

Se o médico dentista Paulo Lopes não está enganado quando diz que a medicina dentária desportiva é uma área mais avançada nos Estados Unidos da América, o retrato traçado pelo presidente da Academy for Sports Dentistry (ASD), que representa os médicos dentistas com interesse pela área desportiva desde 1983, revela um ramo que está destinado a manter-se de nicho.

Segundo o presidente da ASD, Hans Stasiuk, um dos objetivos da associação é aumentar o número de membros — são apenas cerca de 450 num país com a dimensão dos Estados Unidos, incluindo já associados de outras nações.

Tal como em Portugal, a área não é considerada uma especialidade da medicina dentária. “Há vários cursos nas universidades, alguns de horas e outros até com a duração de um semestre, mas não é uma especialidade, é algo que faz parte da prática clínica diária”, explica o médico dentista canadiano por videochamada.

Uma destas formações é prestada nos simpósios da própria associação, que decorrem anualmente. O curso tem a duração de três dias e confere o título de “team dentist”, ou médico dentista da equipa, numa tradução literal. A certificação, acrescenta o presidente da ASD, é composta por várias palestras e inclui também um workshop de fabrico de goteiras à medida, bem como outras oficinas complementares, como sobre o tema das suturas, por exemplo.

Apesar de as equipas desportivas profissionais nos Estados Unidos terem um plantel médico do qual faz parte um médico dentista (nem que seja apenas nos jogos, para responder a traumatismos), explica Hans Stasiuk, nada as obriga a que este seja membro da ASD ou que tenha a certificação dada pela associação. “Não os podemos obrigar, mas o nosso objetivo é que a nível profissional ou universitário estes dentistas tenham o nosso curso.”

“A exigência e o rigor que devemos ter do ponto de vista das necessidades destes atletas nos estudos deveria ser superior”, conclui. Para tal, o profissional de saúde menciona um estudo de 2017, que já aponta diferenças na saúde oral de atletas de modalidades coletivas e individuais. “Há diferenças em termos de ausência de peças dentárias e de índices de placa bacteriana que podem levar a doença periodontal” − Gustavo Cuco

Gustavo Cuco

Gustavo Cuco

Por outro lado, o presidente da ASD sublinha ainda que não existem dentistas que vivam exclusivamente desta atividade, mesmo quando trabalham com atletas de elite. “Mesmo que sejamos dentistas de uma equipa profissional, não vamos fazer dinheiro suficiente para viver disso. Fazemo-lo porque adoramos o desporto, a profissão da medicina dentária e porque queremos ajudar as pessoas.”

Em alguns casos, acrescenta Hans Stasiuk, o médico dentista chega a pagar às equipas para “ter a honra” de ser o dentista oficial da equipa. Em troca, recebe publicidade gratuita durante os jogos. O reembolso pelo valor que paga por tal “distinção” chega muitas vezes, explica o presidente da ASD, por via dos clientes e atletas que acabam depois por visitar o consultório.

À semelhança dos colegas portugueses, Stasiuk aconselha o uso pelos desportistas de goteiras à medida, feitas por dentistas — “Daquelas que não “voam” da boca dos atletas como tantas vezes vemos nos jogos”, frisa. Chama também a atenção para a questão da hidratação, defendendo que a maioria dos atletas não precisa de consumir bebidas energéticas, apenas água. “Os únicos atletas que precisam de restabelecer muito rapidamente os seus eletrólitos são os atletas de elite, isto é, das universidades, olímpicos e profissionais. Os jovens não as devem consumir, são muito ácidas, cheias de açúcar, não fazem bem aos dentes.”

Mas não é só a América que tem referências nesta área. Na Europa, há também uma associação que reúne os médicos dentistas dedicados ao desporto — a European Association for Sports Dentistry (EA4SD), afiliada da sua congénere norte-americana.

O médico dentista grego e vice-presidente executivo da EA4SD, Thanos Stamos, diz que o principal objetivo desta associação, fundada em 2014, em França, é criar uma equipa de médicos dentistas desportivos que possam trabalhar em projetos comuns. “É por isso que fico muito contente por ver os nossos dentistas a participar em investigações nas universidades e nas suas clínicas”, afirma.

Uma das grandes conquistas da associação foi o reconhecimento da parte da Federação Dentária Internacional (FDI), a maior autoridade mundial em medicina dentária. “Há quase dois anos, a FDI reconheceu que a medicina dentária desportiva não é uma especialidade, mas é um novo campo da medicina dentária moderna”, explica Thanos Stamos.

Como parte deste reconhecimento, a EA4SD participou na elaboração de recomendações sobre a medicina dentária desportiva, que foram depois promovidas e publicadas pela FDI, o que permite que sejam consultadas por médicos dentistas de todo o mundo.

Um dos objetivos da associação — ver a medicina dentária desportiva evoluir como especialidade académica — já se concretizou, com a criação de um mestrado nesta área na universidade britânica University College of London.

Mas, a principal meta da associação, que vai organizar o seu segundo simpósio em novembro do próximo ano, em Atenas, era também a integração na medicina desportiva, objetivo alcançado com a recente afiliação no European College of Sports and Exercise Physicians (ECOSEP). “Nos últimos 30 anos, a medicina desportiva desenvolveu-me muito porque houve investimento em organização e investigação”, diz Thanos Stamos.

“Podemos ver hoje os resultados: menos lesões, mais proteção, mais prevenção. Temos atletas mais saudáveis por todo o mundo. O nosso objetivo é integrarmo-nos eficientemente para que a medicina desportiva se torne multidisciplinar”, revela o médico dentista, que trabalha com a equipa de futebol da primeira divisão grega Atromitos F.C.

No futebol, a EA4SD estabeleceu um canal de comunicação aberto com a FIFA para promover a importância de ter médicos dentistas como parte das equipas clínicas.

Mais otimista, o vice-presidente executivo da EA4SD diz que “a cada ano há mais clubes a integrarem dentistas nos seus quadros”, seja oficialmente ou em part-time. “Este é um dos desafios para os próximos anos”, explica a partir do seu consultório, em Atenas, “impor a presença do dentista como parte da equipa médica desportiva”.

Estudo no União Desportiva Ponte de Frielas

“Eu não sabia que uma simples cárie podia afetar os nossos músculos”

 Com o seu projeto-piloto no União Desportiva Ponte de Frielas, em Loures, o médico dentista Paulo Lopes ganhou pelo menos um cliente assíduo — o treinador e mestrado em Ensino da Educação Física, Ivo Domingues.

O treinador de futebol do escalão sub-17 não poupa elogios à iniciativa que o médico dentista realizou no clube entre 2018 e 2020. “Foi uma parceria muito importante e com resultados nítidos”, resume Ivo Domingues.

Com o objetivo de recolha de dados e promoção da saúde geral, Paulo Lopes e quatro especialistas da sua rede de clínicas fizeram rastreios gratuitos aos atletas do clube. Primeiro, só com juvenis, do escalão de sub-17, alargando no ano seguinte a iniciativa a mais atletas. Para o projeto, os profissionais de saúde deslocaram-se até ao clube, nos seus tempos livres, em regime de voluntariado.

“Mais do que os miúdos, acho que os pais perceberam que isto era importante”, conta o treinador. “Receber um relatório final com os pareceres de cinco áreas — eu, se fosse pai e tivesse alguém a fazer isto pelo meu filho, sem qualquer custo, ia sempre gostar e agradecer o trabalho”, nota.

Após receberem os pareceres, alguns dos encarregados de educação dos atletas procuraram tratamento para os filhos. Segundo Ivo Domingues, a evolução física de alguns destes jovens desportistas após os tratamentos, nomeadamente dentários, foi “notória”.

Este foi o caso de Orlindo Sérgio, de 17 anos, de Santo António dos Cavaleiros, que frequenta o 11.º ano.

O avançado, que joga no União Ponte Desportiva de Frielas há cinco anos, tinha dores musculares fortes na zona da virilha, que chegaram a impedi-lo de jogar. “Fiquei três meses a tentar tratar o problema. Fazia massagens, gelo, máquinas e exercícios na fisioterapia. Ficava bem e depois piorava”, conta.

O futebolista já tinha ouvido falar de como os problemas dentários podiam levar a algumas lesões, mas diz que só começou a acreditar depois do rastreio que fez com Paulo Lopes. O médico dentista diagnosticou-lhe várias cáries dentárias e acabou por restaurar um dos dentes do atleta, que acabou depois por ser seguido na sua clínica. “Acho que fui à primeira consulta no final de novembro ou dezembro”, conta Orlindo Sérgio. “Melhorei logo na segunda semana de dezembro, na última semana antes do jogo do campeonato. Fiz uma restauração a um dente e comecei a sentir-me mais disponível, podia levar o esforço “mais à frente”, explica o atleta.

Orlindo ainda tem tratamentos por completar, que foram interrompidos pela pandemia, mas diz que o mais importante foi ter deixado de sentir dor durante os treinos. “Nunca desconfiei [que fosse pelos dentes], pensava que era por esforço, mau andamento.”

Francisco Simões, guarda-redes e colega de Orlindo no plantel do Ponte de Frielas, também com 17 anos e a frequentar o 11.º ano, em Loures, diz que a experiência foi “uma coisa extraordinária que [lhes] proporcionaram”.

“Eu não sabia que uma simples cárie podia afetar os nossos músculos. Deu-nos uma nova perspetiva sobre o nosso corpo.”

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 137 da revista SAÚDE ORAL, de março-abril de 2021.

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