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Saúde Oral

Literacia em Saúde – O impacto do trabalho da Mundo A Sorrir no Arquipélago dos Bijagós

Marta Marques da Silva

Em 2015 foi adotada a Agenda 2030 onde se estabeleceram 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Entre estas metas, o terceiro objetivo pretende “garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos e em todas as idades”. A base do acesso à saúde de forma equitativa deveria começar pela implementação de estratégias e medidas em literacia em saúde.

A Literacia em Saúde compreende um conjunto de competências cognitivas e sociais adquiridas pelos cidadãos de uma determinada sociedade com o objetivo de os fazer aceder e compreender informação que promova e mantenha a sua própria saúde. Refere-se ao entendimento por parte de um indivíduo do seu estado de saúde e de que forma se pode manter são, assim como promover e prevenir o aparecimento de doenças.  Desta forma, a literacia em saúde obriga à interação entre os sistemas de saúde e educacionais da sociedade albergando também os fatores sociais em que esse indivíduo viva, de forma que adote comportamentos protetores e preventivos no seu autocuidado. Esses fatores são também importantes para que possa adquirir o total conhecimento do seu estado de saúde e se consiga orientar e selecionar, perante a oferta de serviços de saúde dentro do sistema de saúde que tem no seu país, o serviço mais indicado às suas necessidades.

 

Parece difícil e complexo, mas a forma simples e eficaz de chegar até esse resultado poderá estar na educação para a saúde e na forma como o terceiro setor tem vindo a promover projetos e atividades neste sentido.  Por norma, os projetos sociais são desenvolvidos de forma estreita e em parceria com o sistema educativo e de saúde do país onde é implementado. Isto permite criar numa porta de entrada para levar saúde a todos, contribuindo para a sustentabilidade das atividades de promoção de saúde desenvolvidas posteriormente.

No caso específico da saúde oral, poderá ainda ser mais fácil, visto que a maioria das doenças orais são facilmente prevenidas com medidas simples implementadas desde tenra idade. Isto é aplicável mesmo numa sociedade com poucos recursos.

 

Na Mundo A Sorrir temos vindo a desenvolver, desde 2005, projetos de promoção de saúde oral na Guiné-Bissau, um país que apresenta diversas dificuldades devido ao baixo nível de literacia educacional e de um sistema de saúde precário com carência de profissionais de saúde e dispositivos e materiais médicos. Então, de que forma um projeto de literacia fez e continua a fazer a diferença nas vidas de pessoas como nós?

Em 2012 a Mundo A Sorrir chegou à Ilha de Uno, no arquipélago dos Bijagós, uma ilha rural, que nunca antes tinha recebido um médico dentista. O único acesso a cuidados de saúde geral era facultado por um missionário estrangeiro com formação em enfermagem.  A resposta a necessidades de tratamento era limitada levando ao aparecimento de problemas de saúde crónica e complicações no estado de saúde inicial dos habitantes da ilha. Não poucas vezes, membros desta comunidade tinham de ser evacuados da ilha com destino à capital em busca de uma solução de carácter urgente.

 

Em 2012, quando o primeiro médico dentista deixou a ilha de Uno, um jovem professor chamado Iano, disse-lhe: “os alunos precisam de ser ensinados mais vezes a lavar os dentes. Preciso que me ensines para que todos os dias sejam lembrados da importância de lavar os dentes.”  O Iano tinha razão, mesmo sem ter estudado medicina dentária ou qualquer outro curso de saúde. O Iano sabia que os seus alunos só iriam adotar um comportamento novo e gerar a mudança se fosse criada uma rotina e continuidade sobre o trabalho começado em dezembro de 2012.

Por esse motivo, e pelo facto de sabermos que o acesso a cuidados de saúde é um direito de todos, nos anos seguintes organizou-se um programa de prevenção oral nas escolas locais, de forma a permitir a prevenção de doenças orais no futuro da comunidade. Foi implementada uma ação de educação para a saúde, com recurso a meios visuais e transmitida em forma de palestra, para todas as crianças da ilha. Esta atividade foi realizada semestralmente, com recurso a um tradutor local. Sempre que aconteceu uma palestra foi também realizada aplicação tópica de fluoretos e distribuída uma escova e pasta dentífrica por criança. Ao fim de 3 anos os resultados comparativos do Índice CPOD/cpod demonstraram uma redução de 73,2% no Índice CPOD e de 56,6% no Índice cpod. (para mais informações ver artigo em https://www.jvejournals.com/article/22045/pdf )

 

Nos anos seguintes, medidas adicionais (simples e de reduzido investimento) foram implementadas: a formação dos professores enquanto promotores de saúde oral dos alunos e implementação de escovagem acompanhada, na escola, logo após a refeição diária.  O projeto encontra-se a funcionar até hoje, de forma sustentável e com visitas pontuais de médicos dentistas expatriados que levam o material necessário que de outra forma não chegaria à ilha. O mesmo programa foi alargado a mais 4 ilhas do arquipélago.

Sabemos que baixo níveis em literacia em saúde equivalem a um aumento e intervenções e acesso a consultas em regime de urgência, sendo estes problemas de saúde traduzidos numa diminuição de qualidade de vida.  Em particular nas crianças, a existência de dor crónica e diminuição a qualidade de vida traduz-se em baixo rendimento escolar e comprometimento do seu desenvolvimento cognitivo e estrutural.

A mudança de comportamentos só poderá acontecer quando a mensagem transmitida for compreendida e desejada pelos recetores, ou seja, os utentes. Essa mensagem tem que ser integrada com os serviços de saúde e educação da comunidade onde os indivíduos estão inseridos.

A literacia em saúde é uma medida prioritária na sociedade civil e que deverá ser integrada no plano de saúde, promovendo assim uma simetria no diálogo e do conhecimento médico, permitindo ganhos em saúde dos utentes, melhor gestão de recursos dos sistemas de saúde locais e permitindo a sustentabilidade de projeto na saúde comunitária.

*Médica dentista com prática exclusiva em Odontopediatria

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