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Dentistas portugueses pelo mundo

“Lá fora é que nos apercebemos da solidez e abrangência da nossa formação universitária”

Entrevista a João Miranda, médico dentista em Vlaardingen, Roterdão, Países Baixos. Rubrica Dentistas portugueses pelo mundo.

João Miranda, médico dentista em Vlaardingen, Roterdão, Países Baixos

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área? 

Trabalho como médico dentista generalista. Desde que concluí os meus estudos, os meus interesses pelas diferentes áreas da medicina dentária têm sofrido várias alterações ao longo dos anos. O meu interesse inicial abrangia maioritariamente a área cirúrgica: cirurgia oral minor e avançada, cirurgia maxilo-facial, implantologia e patologia oral.  A minha linha de pensamento acabou rapidamente por assentar numa carreira generalista, enquanto jovem médico dentista, de forma a embarcar neste barco multidisciplinar que é a nossa área, com o objetivo de tentar absorver o máximo de conhecimento teórico e experiência clínica. No fundo, palpar terreno, procurar alcançar um poder crítico mais firme, mesmo nas áreas de menor interesse, e não me deixar cair na diferenciação prematura. Hoje, com quatro anos de experiência, com uma imagem bem mais nítida da nossa realidade enquanto profissionais, e com a inspiração de colegas que se tornam nosso mestres/mentores, encontro-me mais próximo e revejo-me mais no campo da reabilitação oral estética.

Como e quando é que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro?

Sempre tencionei trabalhar fora do País, mergulhar noutra cultura. Acrescentando a este desejo pessoal o cenário pouco otimista da medicina dentária em Portugal, dei por mim a estudar possibilidades de trabalho fora do País vários meses antes do término do curso. Na altura, início do ano 2016, no meu ano de finalista, os Países Baixos estavam na lista de opções e despertou-me um interesse acrescido por ser um país que nunca tinha visitado, não conhecia ninguém que lá vivesse, desconhecia o idioma e a cultura. Um certo espírito de desafio/mistério começou a desenvolver-se. Entrei em contacto com uma empresa recrutadora, fiz uma entrevista ainda em Portugal com um recrutador português e no verão desse mesmo ano, já enquanto profissional, fiz uma segunda entrevista em Amesterdão, na sede da empresa. Viria a ser selecionado, juntamente com outros médicos dentistas de outras latitudes, para ingressarmos numa aventura que nos trouxe até ao cenário atual.

Como é que foi essa experiência e que desafios enfrentou?

Após constituir-se um grupo de candidatos aptos, integrámos um programa complexo que nos levou até aos Alpes, na Áustria, onde dedicámos três meses à aprendizagem do idioma holandês. Durante o curso linguístico, toda a parte burocrática foi sendo processada para possibilitar o nosso registo legal, inscrição na Ordem, procura de emprego, etc. Até que, em janeiro de 2017, cheguei aos Países Baixos, cumpri um mês de estágio clínico e assinei o meu primeiro contrato de trabalho em fevereiro desse ano numa cidade no interior do país, Hengelo.

Enquanto português, as maiores adversidades que senti tiveram a ver com a complexidade burocrática em que o país se move, a frieza caracteristicamente nórdica, a ultra-diferenciação profissional que choca inevitavelmente com a cultura de trabalho “todo-terreno” latina e, por vezes, alguma falta de aceitação. Adoro o desafio/teste, a deslocação geográfica da nossa zona de conforto. Tudo isto faz parte do processo, contribuiu para uma introspeção e redescoberta. E o resultado final é crescimento deontológico-profissional, polivalência e munição das nossas habilidades, de uma forma que dificilmente seria exequível em Portugal.

“Enquanto português, as maiores adversidades que senti tiveram a ver com a complexidade burocrática em que o país se move, a frieza caracteristicamente nórdica, a ultra-diferenciação profissional que choca inevitavelmente com a cultura de trabalho “todo-terreno” latina e, por vezes, alguma falta de aceitação”

Temos as clássicas diferenças climáticas, gastronómicas, sociais, comportamentais, etc, que sinceramente, após quatro anos, deixam de ter tanto impacto na nossa vida. No entanto, a maior dificuldade é estar longe dos que amo. Apesar da distância, o amor deles faz-se sentir e reflete-se diariamente no meu trabalho.

O que é que o fez tomar a decisão de ir para fora de Portugal?

A falta de oportunidade e exploração principalmente do setor recém-licenciado, que se vê imediatamente pressionado a especializar-se para poder escapar a condições e remunerações laborais indignas. Isso faz-nos desrespeitar o processo de crescimento profissional e saltar passos que eu não queria saltar, tal como o de trabalhar inicialmente como generalista, englobar o espetro completo da medicina dentária. Há quase que um sentimento de castração do jovem médico dentista aquando do ingresso no mundo clínico, desde a filtragem muito fina do vasto leque de atos clínicos à injustiça salarial. Numa área tão competitiva, científica, artística e nobre como a nossa, Portugal obrigar-me-ia a construir uma casa começando pelo telhado. Os Países Baixos dão-me a oportunidade de a construir começando pelos pilares e o pelo chão. O défice de médicos dentistas holandeses cria oportunidades para nós, profissionais estrangeiros, de delinearmos a nossa carreira de forma livre. É das áreas mais respeitadas e mais bem remuneradas dos Países Baixos, oferece condições de trabalho excecionais e, após completarmos o período de adaptação, facilmente conseguimos planear/estabilizar todos os três vértices da nossa vida: o profissional, o pessoal e o social.

“[A medicina dentária] É das áreas mais respeitadas e mais bem remuneradas dos Países Baixos, oferece condições de trabalho excecionais e, após completarmos o período de adaptação, facilmente conseguimos planear/estabilizar todos os três vértices da nossa vida: o profissional, o pessoal e o social”

Como é que é um dia de trabalho normal para si? O que faz? 

Vivo em Roterdão desde maio de 2019 e trabalho numa cidade na periferia. A primeira consulta é às 8h da manhã e começo maioritariamente com controlos e elaboração de planos de tratamento. A meio da manhã dou início aos primeiros tratamentos, estendendo-se até às 16h30 /17h. Neste período posso ter restaurações, tratamentos endodônticos, cirurgia minor, ou reabilitação oral de prótese fixa ou removível. Frequentemente discuto casos clínicos ou reencaminhamento de pacientes com colegas de outras especialidades por telefone ou email. Partes da agenda ficam reservadas para consultas de urgência. A pausa de almoço é das 12h às 12h30.

De que forma é que a pandemia de covid-19 tem afetado a prática da medicina dentária nos Países Baixos?

Na segunda quinzena de março de 2020, por ser tudo ainda tão recente e “fora de controlo”, decidiu-se encerrar todas as clínicas de medicina dentária em todo o país. Apenas me dirigia à clínica no âmbito de urgência. Estas medidas duraram até à primeira semana de maio de 2020. Desde então, albergaram-se medidas e práticas que têm vindo a perdurar até hoje, e penso que não serão muito distintas das que as clínicas portuguesas adotaram. Máscaras FFP2, viseiras, toucas, fardas descartáveis, esterilização aérea, triagem telefónica e presencial, bochechos com H2O2, controlo da temperatura corporal, etc. Há um impacto notório na afluência de pacientes. Quaisquer sintomas de constipação, gripe, sinusites alérgicas, possíveis contatos próximos com pacientes covid-19 impedem os pacientes de comparecer à consulta.

Equaciona regressar a Portugal?

Sempre! Sou português em tudo o que faço e sinto-me sempre tentado a voltar porque amo o meu País. Pena ele não me criar condições para construir carreira e querer ficar. Para já não tenho um plano elaborado, mas estando nós a atravessar um período pandémico, e sem saber o que o amanhã nos reserva, prefiro planear a curto-prazo. E a curto-prazo escolho estabilidade. Algo que facilmente se adquire cá. Assim que entremos num novo capítulo, e o mundo que viemos a construir ao longo de décadas volte a ser dominado por nós e não por um pedaço de informação genética flutuante que tem a capacidade de sequestrar o nosso mecanismo celular, aí sim, estudarei a hipótese de voltar a Portugal. Além disso, também tenho, assim como qualquer profissional que venha trabalhar para os Países Baixos, benefícios fiscais que se estendem por mais um ano.

Que conselhos dá aos recém-licenciados que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?

Eu sugiro que não ponham de parte a opção de trabalhar fora do País. Estudem, consultem, falem com colegas que possam partilhar convosco a sua experiência fora de Portugal. Hoje em dia, os processos de integração de profissionais da nossa área são bastante simplificados e existem empresas recrutadoras que facilitam ainda mais este processo.

“Lá fora” é que nos apercebemos da solidez e abrangência da nossa formação universitária, e juntando a isso o jogo de cintura e capacidade de adaptação do cidadão português, torna-se mais fácil brilharmos. Deixa-me de alguma forma entristecido que não vejamos o nosso valor só porque não saímos da realidade em que fomos formatados. Saiam e desformatem. Procurem outras perspetivas, “gotta see the bigger picture”. Assim que o fizerem, vão perceber que somos dos melhores do mundo e o reconhecimento inevitavelmente chegará porque apostam em nós. Em Portugal, nem todos os colegas são abençoados com essa epifania.

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo?

Hoje sou mais realista do que sonhador e penso que a realidade da nossa medicina dentária não apresenta uma margem de progressão muito animadora. No entanto, sinto-me otimista com o potencial do nosso novo bastonário e presidente do Conselho Diretivo, Dr. Miguel Pavão.

A medicina dentária tem de ser prudentemente cuidada com os valores da sua conceção: ciência, ética, moral, compromisso médico-social, transparência e busca contínua da excelência. A nossa atenção impreterivelmente voltada para o interesse do paciente e não para o interesse pessoal, comercial ou empreendedor. Temos tudo para singrar, precisamos de organização, seriedade, menos hierarquias e mais colaboração.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 139 da revista SAÚDE ORAL, de julho-agosto de 2021.

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