Saúde Oral

Hoje é o Dia Mundial da Saúde Oral

Alunos do concelho da Chamusca recebem kit de saúde oral
Em plena pandemia de Covid-19, a SAÚDE ORAL perguntou à OMD e a alguns médicos dentistas porque é que a saúde oral continua a ser uma prioridade.
Hoje, dia 20 de março, celebra-se o Dia Mundial da Saúde Oral, uma iniciativa da Federação Dentária Internacional (FDI). De acordo com dados revelados por esta Federação, 3,9 mil milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de doença oral, e quase 100% da população mundial adulta e entre 60% a 90% das crianças em idade escolar já sofreram de cárie dentária.

Impossibilitado de responder às questões enviadas pela SAÚDE ORAL, Orlando Monteiro da Silva, bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), não quis deixar de reforçar a importância da saúde oral, mesmo em tempos de pandemia, num comunicado enviado a propósito desta data. Segundo o bastonário, há que “reforçar os cuidados de higiene oral e promover uma alimentação saudável”. Remetendo para a situação de emergência nacional que Portugal atravessa, o bastonário deixa ainda o conselho: “Agora que passamos mais tempo em casa, podemos controlar melhor as nossas refeições, evitar alimentos açucarados e excesso de gorduras, também por causa da obesidade e de outras doenças.” 

Contactada pela SAÚDE ORAL, a médica dentista Eunice Virgínia Carrilho, professora catedrática da Universidade de Coimbra e membro do Conselho Diretivo da OMD, relembra também que “a saúde oral deve ser preservada em todos os momentos da vida” e que “nesta ‘guerra’ em que todos estamos envolvidos e suscetíveis de ser ‘atingidos’, não deve ser esquecida”.

“Os cuidados devem ser mantidos e até reforçados, prevenindo o aparecimento de lesões no momento, retardando as existentes e prevenindo o seu aparecimento no futuro. Escovagem dentária com uma pasta fluoretada pelo menos duas vezes ao dia (agora com mais tempo, poderão escovar mais vezes), uso de fita dentária pelo menos uma vez ao dia e cuidados alimentares (não ingerir excesso de bebidas açucaradas e guloseimas) devem ter atenção especial”, sugere a médica dentista.

A médica dentista Alexandra Marques concorda: “Agora mais do que nunca, [a saúde oral] tem extrema importância, se calhar a esmagadora maioria das pessoas não concorda, mas durante este período de quarentena devemos insistir ainda mais na higiene oral para que não surjam novos problemas ou agravem os que se encontram em estado inicial.”

“Tal como sabemos, um alto índice cariogénico ou doença periodontal não controlada pode levar a outros problemas de saúde geral, o que de momento é o menos desejado. Depois, temos outro problema, que é: estando as pessoas em casa, a tendência é para algum descuido com a saúde oral e o aumento de ingestão de alimentos com alto índice cariogénico. Por fim, toda a situação se agrava porque todas as clínicas dentárias estão encerradas, só abrindo em exceção para resolução de urgências”, acrescenta.

Paulo Ribeiro de Melo, presidente do Conselho-Geral da OMD, subscreve também esta mensagem: “Atentos às necessidades da população, e de acordo com a decisão governamental, os médicos dentistas continuam a dar o seu apoio, sendo importante esclarecer que as clínicas e consultórios de medicina dentária não estão fechados para casos de urgência, têm atendimento para situações como dores, abcessos, feridas na boca, entre outros”, relembrou.

O profissional sublinhou ainda a relação da boa saúde oral com o controlo de outras patologias: “É essencial manter uma boa higiene oral sempre, porque a saúde oral tem impacto, por exemplo, na diabetes e nas doenças cardiovasculares. Os mais pequenos devem ser incentivados a manter os seus hábitos de higiene oral e é importante que a alimentação seja saudável, sem cair na tentação dos doces que tanto prejudicam a saúde oral e a saúde em geral”, afirmou.

RECOMENDAÇÕES DA OMD

Para os mais novos, a OMD recomenda:

  • Escovar os dentes após as refeições e de manhã e à noite antes de deitar.
  • Quando as crianças ainda não têm dentes, os pais devem passar uma gaze nas gengivas.
  • Até aos dois anos os pais devem fazer a escovagem dos dentes dos filhos.
  • Dos dois aos seis anos, os pais devem escovar os dentes com os filhos.
  • Dos seis anos em diante, os pais devem monitorizar a escovagem dos dentes dos filhos.

Para os adolescentes, a OMD recomenda:

  • Escovar os dentes após as refeições e de manhã e à noite antes de deitar.
  • Ensaiar o uso da fita dentária pelo menos uma vez por dia.
  • Para quem percebe inglês, a Federação Dentária Internacional tem um conjunto de atividades disponíveis no site: https://www.fdiworlddental.org/mouth-heroes

Para os adultos, a OMD recomenda:

  • Escovar os dentes após as refeições e de manhã e à noite antes de deitar.
  • Usar a fita dentária pelo menos uma vez por dia.
  • Os mais idosos ou adultos com espaços maiores entre os dentes devem usar a fita dentária e/ou escovilhão dentário pelo menos uma vez por dia.

Para quem utiliza prótese ou aparelho removível, a OMD recomenda:

  • Higienizar a sua prótese ou aparelho removível após as refeições e escovar os dentes.

 

Saúde oral em tempos de pandemia

Raquel Zita Gomes, médica dentista especialista em cirurgia oral e líder internacional do projeto Divas in Dentistry, deixou também algumas recomendações de higiene a adotar em alturas como a que experienciamos: “Nesta altura de pandemia, a boca é igualmente um dos principais pontos de entrada (em conjunto com os olhos e o nariz) para este novo patogênico chamado coronavírus. Portanto, é deveras importante manter uma higiene oral (nasal e ocular) mais cuidada e evitar colocar as mãos ou outros instrumentos potencialmente contaminados  em contacto com estas mucosas. Nesta fase, medidas extras de precaução diárias na higiene oral, nomeadamente o bochecho com uma solução antissética antes e depois da escovarem com limpeza interdentária, serão especialmente relevantes de forma a reduzir os contágios com este vírus. Será de especial importância o bochecho (idealmente gargarejo) antes da lavagem, para evitar potenciais contaminações das mucosas da orofaringe, assim como da corrente sanguínea, caso exista sangramento durante a escovagem/limpeza interdentária com escova/fio dentário ou escovilhões. São exemplos de soluções antisséticas a clorohexidina, a iodopovidona oral (vulgo betadine), a hexitina, etc. Estas poderão ainda ser misturadas com água oxigenada para uma acção mais eficaz de destruição da parede do vírus (e de outros patogênicos orais). A própria pasta dentária também funcionará como “detergente”, destruindo a parede lipídica do vírus. Estas normas serão de especial importância em idosos e pacientes de risco. As soluções antisséticas comerciais caso não existam, poderão ser substituídas por soluções mais caseiras, como água quente com borato de sódio ou mesmo água saturada com sal. Também será igualmente importante a utilização de água quente para a lavagem dentária e bebidas quentes de forma sistemática ao longo do dia, não só para hidratação mas também para limpeza e inativação dos vírus das mucosas da orofaringe pelo calor.”

O médico dentista João Pimenta, fundador da clínica com o mesmo nome, em Barcelos, e vencedor do Prémio Carreira nos Prémios Saúde Oral do ano passado, reiterou que a “saúde oral é sempre importante e, nestes tempos difíceis de pandemia, não pode ser negligenciada”, explicando que é esperado que “o estado geral da saúde dentária dos portugueses se agrave, já que os consultórios estão encerrados, só atendendo urgências”, sendo que “os normais tratamentos, não sendo realizados, vão seguramente levar a esse agravamento”.
“Mesmo depois da pandemia, a situação será muito complicada; os pacientes ou por medo ou por dificuldades financeiras desmarcarão consultas de uma forma sistemática, adiarão tratamentos e darão prioridade a outras ‘coisas'”, salientou.
“Como médico dentista e proprietário de uma pequena clínica, o que mais me preocupa é o estado de saúde da minha equipa, das suas famílias e da comunidade barcelense e portuguesa…mas, em segundo lugar, é seguramente o day-after… Quem sobreviverá, não só fisicamente, mas também como entidade de saúde? Ninguém sabe…”

* com Ana Tavares.

Notícia atualizada a 24 de março.