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Investigação

Estudo avalia excesso de mortalidade durante a pandemia covid-19 – e há um profissional da medicina dentária na equipa de investigação

Saude oral excesso mortalidade covid

O investigador e diretor do departamento de investigação e desenvolvimento da Malo Clinic, Miguel de Araújo Nobre, integrou o estudo Excess Mortality Estimation During the COVID-19 Pandemic: Preliminary Data from Portugal, publicado na Acta Médica Portuguesa, a revista científica da Ordem dos Médicos. Entre os autores do estudo estão ainda Paulo Jorge Nogueira, Paulo Jorge Nicola, Cristina Furtado e António Vaz Carneiro, do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública e do Instituto de Saúde Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

À semelhança de outros países, Portugal tem enfrentado os efeitos da pandemia de covid-19. Para o investigador Paulo Jorge Nogueira, que trabalha há muito as questões da mortalidade associadas a fenómenos como o calor ou a influenza e que, até novembro de 2018, trabalhou na Direção-Geral da Saúde, esta foi a primeira vez em mais de 20 anos que não esteve diretamente envolvido num grande assunto de saúde do País, conta pelo telefone à SAÚDE ORAL, que contactou o investigador por recomendação do colega, Miguel de Araújo Nobre.

 

Nogueira, em conjunto com os restantes investigadores deste estudo, avaliou várias hipóteses sobre as quais se podiam debruçar: “Andámos de volta de várias ideias e pareceu-nos que havia um excesso de mortalidade não reportado. Foi um desafio dos colegas de epidemiologia e avançámos”, conta.

As conclusões a que chegaram destacam que, em Portugal, a mortalidade aumentou entre 3,5 a 5 vezes em março e abril de 2020, comparativamente aos anos anteriores. Contudo, este aumento não é explicado pelas mortes atribuídas à covid-19, e os investigadores também não compararam a mortalidade apenas com o período homólogo, mas, sim, com os meses de férias. O investigador explica porquê: “Todas estas ferramentas e resultados [fala de dados já publicados] relacionam-se com comparações com o que é habitual. Este não é um fenómeno estatístico habitual, o estarmos em casa fechados, sem andarmos de transportes”, nota.

 

“É a estatística pensada de um ponto de vista não estatístico. O que fizemos foi, usando as estratégias habituais, como o estudo da Escola Nacional de Saúde Pública, em que há evidência de um excesso de mortalidade, partir para ferramentas alternativas, em que vimos que o impacto foi maior. O que nos interessou foi marcar essa pequena diferença conceptual”, assinala.

Assim, o objetivo da investigação era analisar e considerar outros critérios para estimar a mortalidade excessiva por todas as causas durante o período inicial da pandemia da covid-19. Para tal, foram utilizados dados públicos para estimar o excesso de mortalidade por idade e região entre 1 de março e 22 de abril, período durante o qual morreram 785 pessoas por causa da covid-19.

 

Tal como referido por Paulo Jorge Nogueira, o trabalho dos investigadores destaca que a abordagem-padrão para calcular o número esperado de mortes utiliza os dados históricos do ano anterior para o mesmo período (média ou mediana) de referência.

Porém, perante a atual situação de confinamento, o estudo aponta que a comparação deverá ser realizada em relação aos meses de férias, devido à redução da atividade e circulação, verificando-se um menor número de população ativa, o menor risco de doenças infeciosas (devido à quarentena), menos tráfego urbano e acidentes rodoviários, além de se registar um menor número de consultas. Deste modo, a análise implicaria uma redução da mortalidade esperada para os números de um mês de férias de verão, devido ao “efeito protetor” do confinamento na mortalidade global.

 

Os resultados terão apontado para a observação de um excesso de mortalidade de entre 2400 a 4000 mortes, que foi associado a grupos etários mais velhos, maioritariamente acima dos 65 anos de idade.

De acordo com o estudo, “os dados sugerem uma explicação tripartida para o excesso de mortalidade precoce covid-19, covid-19 não identificada e diminuição do acesso aos cuidados de saúde”, sendo que “as estimativas efetuadas possuem implicações ao nível da comunicação de ações não farmacológicas, da investigação científica e dos profissionais de saúde”, constataram os investigadores.

A pesquisa identificou que o excesso de mortalidade entre o período de 1 de março e 22 de abril foi 3,5 a 5 vezes superior, e que não é explicado pelo número de mortes oficiais da covid-19 durante o mesmo período. Questionado sobre se este excesso de mortalidade em Portugal foi de facto “moderado” comparativamente a outros países, como já foi noticiado, o investigador afirma que sim: “Globalmente, parece ser verdade, o impacto em Portugal não foi tão grande como noutros países.”

Segundo o estudo, o excesso de mortalidade encontra-se assim associado aos grupos etários mais idosos, com idades superiores a 65 anos, e os números absolutos apontam para um maior número de mortes nos distritos de Aveiro, Porto e Lisboa, o que aponta para as áreas com maior número de contágios identificados por covid-19 e maior densidade populacional.

Numa análise dos números relativos, não são verificadas diferenças significativas a nível regional, apontando apenas para uma tendência de excesso de mortalidade nos distritos com mais idosos.

O estudo destacou ainda a redução das visitas diárias aos hospitais entre o período analisado, o que pode estar potencialmente associado a 1291 ou mais mortes.

Foram ainda registados diariamente menos 191 666 doentes com pulseira vermelha, menos 30 159 com pulseira laranja e menos 160 736 com pulseira amarela.

Para o investigador, a pesquisa pode agora abrir portas para outras análises, nomeadamente quando se souberem “as causas de morte”, explica. “É inequívoco que houve concentração da mortalidade nesta altura. Nunca vamos saber a 100% o que aconteceu, mas é evidente que houve uma quebra muito grande nos acessos aos serviços de urgência hospitalares.” O que importa agora, afirma Paulo Jorge Nogueira, é estudar porque é que ocorreu esta quebra de procura. “Isto é importante, porque se houver novas vagas da doença temos de nos lembrar que não nos podemos concentrar só numa coisa [covid-19] e esquecer as outras.”

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