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Dentistas portugueses pelo mundo

“Estamos a viver uma situação nova e difícil que nos obriga a uma mudança”

Carla Sousa
Médica dentista generalista, em Paris, França

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área?

Neste momento trabalho como médica dentista generalista, pelo que faço um pouco de tudo ao longo do meu dia, embora tenha formação em endodontia e reabilitação oral, e esteja neste momento a fazer formação em implantologia.

Como e quando é que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro? Onde trabalha neste momento e qual é o seu cargo?

Sempre tive interesse na medicina dentária além-fronteiras, principalmente depois de ter feito Erasmus em Madrid. Juntando a isso o crescente contacto de clínicas estrangeiras no sentido de fazerem recrutamento, com o facto de já ter colegas a trabalhar aqui com feedback positivo, acabei por aceitar este desafio.

Neste momento, encontro-me a trabalhar num centro dentário nos arredores de Paris como médica dentista generalista.

O que é que a fez tomar a decisão de ir para fora de Portugal? 

A vontade de ir para fora começou ainda em 2017 quando entrei no mercado de trabalho e comecei a exercer medicina dentária em Portugal. Nessa altura, apercebi-me do atual panorama da medicina dentária portuguesa e da quase impossibilidade que os jovens médicos dentistas têm em entrar no mercado de trabalho sem ser em situações precárias. Além disso, acresce ainda a falta de pacientes, que nos leva a trabalhar em inúmeras clínicas na mesma semana para completar a nossa agenda, juntando-se ainda a publicidade e concorrência desleal que existe na nossa área. São situações incompatíveis, a meu ver, e como tal, optei por exercer no exterior.

Como é que é um dia de trabalho normal para si? O que faz? 

O meu dia de trabalho aqui começa às 9h30 e termina às 19h, de segunda a quinta-feira, o que me permite ter um fim de semana prolongado, encontrar um maior equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, e investir em formação. Durante a semana e como aqui as pessoas vão muito ao dentista, temos várias consultas de controlo, check-ups gratuitos para crianças e grávidas, ambas comparticipadas pela segurança social francesa, a CPAM. Além de consultas de urgência e das diferentes especialidades, existe uma maior incidência sobre a endodontia e a prótese fixa.

Como é que se têm adaptado a esta situação de pandemia de covid-19 no país em que trabalha? As clínicas encontram-se fechadas ou continuam a exercer?

A minha clínica fechou dia 17 de março por falta de material de proteção, e por imposição da ordem dos médicos dentistas francesa, tal como em Portugal.

Neste momento encontro-me a fazer a gestão dos meus pacientes por chamada telefónica e e-mail, devendo esta ser a abordagem inicial. Caso não seja possível solucionar o problema do paciente através de recomendações ou receita médica, este será reencaminhado para um colega regulador que se encontra de guarda (e que os próprios pacientes podem contactar diretamente caso o seu médico dentista não se encontre disponível). Este colega vai então fazer a triagem segundo a gravidade da situação, e reencaminhar o paciente ou para o hospital ou para um outro colega que se encontre de guarda numa clínica com todos os materiais de proteção adequados.

Equaciona regressar um dia a Portugal?

Equaciono voltar a Portugal sim, mas não me imagino a trabalhar como médica dentista nas atuais condições oferecidas.

Que conselhos dá aos recém-licenciados que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?

Não desistam do sonho de poder exercer medicina dentária. Se não têm oportunidades em Portugal procurem-nas fora, porque lá vão ser reconhecidos e ter pacientes para poderem atender, praticar e sentirem-se realizados!

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo?

Estamos a viver uma situação nova e difícil que nos obriga a uma mudança! São necessários esforços redobrados de organização, novos protocolos, maior proteção e planeamento quer seja no nosso dia a dia, quer seja nas nossas clínicas.  É um tempo de aprendizagem e superação para todos.

Artigo publicado originalmente na edição n.º 132 da revista SAÚDE ORAL, de maio-junho de 2020.

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