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Formação

Especialização e aprendizagem contínua são a chave da distinção

A especialização, aprendizagem ao longo da vida e a formação à distância são duas grandes tendências do futuro da medicina dentária.

A especialização, aprendizagem ao longo da vida e a formação à distância são duas grandes tendências do futuro da medicina dentária, profissão que, em Portugal, atravessa alguns desafios, nomeadamente pela falta de oportunidades e condições precárias.

A Ordem dos Médicos Dentistas revelou que a emigração continua a crescer entre estes profissionais porque há “uma saturação muito grande no mercado de trabalho em Portugal”. A OMD tem 11.640 profissionais com inscrição ativa, o que significa que existe um médico dentista por cada 884 habitantes quando a recomendação da Organização Mundial de Saúde é de um dentista por 2.000 habitantes.

O médico estomatologista, Tiago Fonseca, comenta que “face à ausência de oportunidades de emprego imediato ou à colocação no mercado de trabalho com condições consideradas precárias, a alternativa para muitos recém-formados tem vindo a ser a saída do País. Inglaterra e a França têm sido dos locais mais procurados”. O mesmo especialista comenta que este excesso de profissionais “poderia até refletir-se numa melhor saúde oral da população”, mas “nem é o caso, pois, na saúde oral como na saúde em geral, questões de literacia e de acesso estão sempre a montante da oferta”. Tiago Fonseca considera que “a eventual relação entre o ensino pré-graduado e a retenção dos recém-médicos dentistas talvez possa fazer-se ao nível de uma melhor adequação no acesso às faculdades”.

O ensino é uma chave para o sucesso e na medicina dentária não é exceção. Neste campo, há algumas tendências que se verificam e que devem permanecer nos próximos anos. Por um lado, continuar a formação ao longo da carreira profissional, começando desde logo com uma especialização, terminada a licenciatura geral, e continuando com formações ao longo dos anos. Para Joaquim Ferreira Moreira, coordenador pedagógico da Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário (CESPU) Europa “a medida que melhor ajudaria para uma formação mais robusta seria o retorno aos seis anos de formação como era antes de Bolonha. Esta medida permitiria cimentar os conhecimentos dos estudantes, bem como a aquisição de uma maior maturidade, essenciais para o exercício da profissão”. A alteração do número de anos de licenciatura é uma das mudanças registadas no ensino, mas há outras. O também diretor do Departamento de Ciências Dentárias do  Instituto Universitário de Ciências da Saúde (IUCS) explica que “além das formações pós-graduadas que conferem maiores competências numa determinada área da medicina dentária, que têm vindo a aumentar muito nos últimos anos, assistimos simultaneamente a um aumento do número de especialidades com reconhecimento obrigatório por parte dos colégios de especialidade da Ordem dos Médicos Dentistas”.

Dentistas também se especializam

À semelhança do que acontece na medicina em geral, também na dentária cada vez mais os profissionais querem ser reconhecidos pelas suas áreas de especialização. Joaquim Ferreira Moreira descreve que “temos assistido a uma tendência de especializações dentro da profissão de médico-dentista de forma a poder dar resposta às expectativas dos pacientes na resolução dos diferentes problemas que poderão apresentar”. Assim, acrescenta, “além da formação de base de cinco anos, no final dos quais será obtido o grau de mestre, existe uma cada vez mais acentuada procura de formações de pós-graduação na busca de maiores competências nas diferentes áreas”. Estas são, por exemplo, a implantologia, a endodontia e a periodontologia.

“Temos assistido a uma tendência de especializações dentro da profissão de médico-dentista de forma a poder dar resposta às expectativas dos pacientes na resolução dos diferentes problemas que poderão apresentar.” – Joaquim Ferreira Moreira

Também em Espanha a especialização numa determinada área da medicina dentária ganha terreno. “A especialização numa determinada área é um fator distintivo que permite estar a par das últimas técnicas e exigências do mercado”, afirma José María Molina Rodríguez. O diretor de comunicação da Ortoplus aponta ainda a ortodontia e odontologia estética como as áreas de maior futuro, atualmente. O mesmo responsável sublinha que “os doentes são cada vez mais conscientes da importância da saúde oral e ter um sorriso alinhado ajuda”.

O estomatologista Tiago Fonseca comenta que “não vê porque é que a especialização em medicina dentária não possa ser encarada do mesmo modo que o é em medicina”, mais acrescentando que “uma especialização, tida em sentido lato como uma diferenciação, é sempre uma mais-valia para os doentes. E não necessariamente em nichos menos explorados, como as glândulas salivares por exemplo, mas em áreas já bem estabelecidas, como a cirurgia oral ou a patologia oral”.

“Uma especialização, tida em sentido lato como uma diferenciação, é sempre uma mais-valia para os doentes.” – Tiago Fonseca

Formar à distância

Tiago Fonseca considera que a “tecnologia condiciona a mudança”, registando-se um crescimento exponencial no último ano devido à pandemia de SARS-CoV-2. A tecnologia é também apontada por José Maria Molina Rodríguez, diretor de comunicação da Ortoplus, laboratório espanhol de ortodontia. “A ortodontia vive atualmente uma grande revolução tecnológica. Graças à aplicação da tecnologia no dia-a-dia é possível oferecer um serviço de maior qualidade, pois os profissionais de saúde conseguem obter resultados mais precisos. O conjunto de ferramentas ao dispor permite obter diagnósticos mais precisos e em menor tempo. Assim, os profissionais devem agora, mais do que nunca, estar preparados para enfrentar a nova realidade mais digital”.

A era digital como auxiliar de diagnóstico e tratamento na medicina dentária alarga-se também às questões da formação. A aceleração de cursos online foi enorme e parece ter chegado para ficar. “Penso que o impacto que a pandemia teve na área da formação se refletiu – e ainda se reflete – sobretudo na forma, e não tanto no conteúdo. Depois de uma fase inicial em que quase tudo estagnou, a retoma começou a fazer-se, precisamente, com recurso ao digital, à tecnologia, às videoconferências, aos ditos webinars ou similares. Claro que em cursos em que existe componente prática/técnica, a câmara e o microfone não conseguem resolver”, afirma Tiago Fonseca. O estomatologista, inclusive, promove de sua iniciativa algumas formações como foi o curso de “Cirurgia de Terceiros Molares e Regeneração Tecidual Guiada”. “Está em mente continuarmos com o aprimoramento deste curso. Ainda na área da cirurgia oral, pretendemos desenvolver uma formação paralela, que está a ser cozinhada em lume brando e que brevemente entrará em ebulição”. A capacidade de adaptação foi destacada por Joaquim Ferreira Moreira que diz que a “pandemia por inesperada que foi trouxe a necessidade de adaptação a uma nova realidade e estamos certos de que a formação não voltará a ser como até então. Sem dúvidas de que a formação online terá continuidade, mesmo findo este momento que vivemos, José María Molina Rodríguez estima que esta forma de ensino “poderá gerar aproximadamente 200 mil milhões de euros em todo o mundo. O mesmo responsável salienta ainda que “a ortodontia invisível é uma área de crescimento. Em 2019, esta área em Espanha cresceu 40%, sendo líder no mercado europeu juntamente com a França”. José María Molina Rodríguez explica que por esse motivo “na Alineadent têm desenvolvido um programa de formação em ortodontia invisível, que pode ser realizado quer de forma presencial quer online”.

Ensino online “poderá gerar aproximadamente 200 mil milhões de euros em todo o mundo.” – José María Molina Rodríguez

Aprendizagem contínua

Especializados ou não numa área de conhecimento dentro da medicina dentária, estes profissionais têm também no seu ADN profissional o gosto e necessidade de aprender ao longo do percurso profissional. As formações que em cima falámos, presenciais ou à distância, fazem parte desse caminho. Joaquim Ferreira Moreira, coordenador pedagógico na CESPU Europa, comenta que “quando desenvolvemos uma profissão médica temos sempre alguém fragilizado que precisa da nossa ajuda e que deve merecer da parte do profissional um tratamento adequado e eficiente. Para isso o médico-dentista tem de se preocupar com as suas capacidades e competências recorrendo à formação contínua ao longo da vida”. O mesmo responsável deixa ainda um apelo: “com o crescimento da profissão e do número de profissionais a tendência pode levar a uma certa desatenção e desvalorização do ato médico praticado e do sentido de ética profissional, pelo que deixamos um apelo à dignificação do ato médico-dentário no sentido de evitar que a profissão deixe de ser antes de mais uma vocação ao serviço do outro e seja apenas uma atividade mais ou menos rentável”. Também no país vizinho este tema é relevante, José María Molina Rodríguez diz que “a formação contínua é uma ferramenta imprescindível para fortalecer e manter as competências profissionais do dia-a-dia. Normalmente, são cursos muito práticos que têm como principal objetivo que o profissional possa exercer e pôr em prática os conhecimentos adquiridos”.

Tiago Fonseca não tem dúvidas da importância da formação contínua e explica o seu ponto de vista. “A formação pré-graduada, no cômputo geral, será sempre generalista. Diria mais: necessariamente generalista e, quiçá, cada vez mais generalista. Se cada especialidade/subespecialidade é vastíssima, na teoria e na prática, então o que as sustenta mais vasto será. Logo, tem-se uma equação simples: muito, em tempo limitado de formação, é igual a superficial. Mas o superficial não é mau; o superficial é o imprescindível, o basilar, é o sustento do edifício. Acontece que, sobretudo hoje em dia – e cada vez mais, como aliás acredito e defendo – o superficial é insuficiente. É necessário, mas não suficiente. E se o vingar pela quantidade já será pouco praticável, tendo em conta o ratio profissional de saúde oral/população, a saída invariavelmente terá de se fazer pela via da especialização/subespecialização. Entram aqui, então, as formações ao nível pós-graduado”.

A medicina dentária portuguesa em números

  • No ano passado a taxa de feminização da profissão atingiu os 61%;
  • A média de idades subiu ligeiramente para os 40 anos;
  • Perto de 90% dos inscritos na OMD têm nacionalidade portuguesa. O Brasil tem o maior contingente de médicos dentistas (583) a exercer em Portugal, seguido de Itália (242) e Espanha (171);
  • Os locais com menos médicos dentistas com inscrição ativa por habitante são o Baixo Alentejo e o Alentejo Litoral, com um rácio população/médico dentista superior a 2 000.
  • As regiões com um menor rácio de número de habitantes por médico dentista com inscrição ativa são a Área Metropolitana do Porto (615), seguida das regiões de Viseu Dão-Lafões, Coimbra, Terras de Trás-os-Montes, Cávado e Área Metropolitana de Lisboa, regiões que ficam aquém do rácio de média nacional.
  • Há 3 771 estudantes inscritos nos sete mestrados integrados de medicina dentária existentes em Portugal e, destes, 1 454 (39%) são estrangeiros.
  • O número de alunos estrangeiros mais do que triplicou desde 2015. Os estudantes oriundos de França são os mais numerosos (733), seguidos dos italianos (255) e dos espanhóis (188).

Fonte: OMD

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 139 da revista SAÚDE ORAL, de julho-agosto de 2021.

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