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Médicos Dentistas

Empatia e compaixão em medicina dentária

Manuela Rodrigues minfulness

Imaginem-se com um paciente que chega à consulta com uma coroa descimentada. O trabalho não é vosso, e o paciente quer que voltem a “colar” a coroa. No exame clínico percebem que a coroa é antiga e está mal-adaptada, a gengiva inflamada, e quando perguntam se é a primeira vez que acontece, o paciente responde “está sempre a acontecer”.

Têm uma decisão a tomar: podem voltar a cimentar a coroa, com o aviso de que vai acontecer novamente, mas imediatamente aliviar a preocupação do paciente e mandá-lo embora com esperança de que ele volte a marcar consulta para refazer o trabalho (até porque ele elogiou a vossa simpatia). Ou podem não cimentar a coroa e ter uma conversa difícil, mas importante, sobre o porquê de não o fazerem, o que vai acontecer se o fizerem, qual a melhor solução e custos. O que escolheriam fazer? E qual a opção que exibe empatia?

 

Eu diria que a melhor opção é a segunda, embora não seja a que demonstra empatia. A opção empática é a primeira.

O dilema da empatia reside na própria definição. O dicionário define empatia como “capacidade de se identificar com outra pessoa e de partilhar os seus sentimentos e motivações”. A compaixão, por outro lado, é “compreender o estado emocional do outro e o desejo de minorar ou aliviar o seu sofrimento”. A empatia permite-nos estar em sintonia com a forma como os outros estão a sentir-se e pode ajudar a melhorar as nossas interações sociais em muitos níveis, como comunicação e conexão. Compaixão é empatia em ação. O desejo e a capacidade de ajudar.

 

Se eu atendo um paciente com dores e assumo a sua dor e angústia, isso é empatia. E se isto acontece, pode mesmo obscurecer a minha capacidade de fornecer o melhor tratamento para o paciente. Se, em vez disso, eu ao atender o mesmo paciente, compreender o tipo de dor que ele está a sentir (mesmo que eu nunca tenha sentido a mesma dor) e trabalhar para aliviar a dor da maneira mais apropriada e benéfica a longo prazo, eu mostro compaixão. Por meio da compaixão, vou ser capaz de me distanciar adequadamente da sua dor, pensar racionalmente sobre o que é melhor para o seu caso (já que não estou atolado pela angústia que assume a situação) e agir para ajudar o paciente a tornar-se mais saudável.

À medida que a compaixão e a empatia são confirmadas como respostas aos desafios do trabalho moderno, as definições das duas começaram a confundir-se. É importante para o médico dentista perceber a diferença entre estes conceitos e saber utilizá-los corretamente. Além disso, estudos descobriram que líderes compassivos são percebidos como mais fortes e competentes, e que a compaixão melhora a colaboração e aumenta os níveis de confiança. No caso do paciente da situação inicial, se a opção tomada for a segunda (com base em compaixão), o paciente vai compreender e aceitar o que o profissional lhe disser. E se isto não acontecer, o médico dentista vai na mesma sentir que tomou a decisão mais acertada para a saúde do seu paciente, e no final do dia não terá o peso de ter efetuado um ato clínico que sabe não ser o mais correto.

 

A empatia constante leva ao que as pesquisas chamam de “fadiga por empatia”, definido como “um estado extremo de tensão e preocupação com o sofrimento daqueles que estão a ser ajudados na medida em que é traumatizante para o profissional”. Como é que os médicos dentistas podem passar o dia inteiro a absorver ansiedade e dor, e sair ilesos?

A aprendizagem sobre estas duas formas distintas de relação com o paciente e a sua utilização adequada é o primeiro passo. A próxima etapa envolve tornarmo-nos mais atentos durante o dia de trabalho. A atenção plena (mindfulness) faz com que reconheçamos facilmente a rota que normalmente seguimos e permitirá que estejamos mais atentos ao escolher a compaixão versus a empatia com os pacientes. Por último, devemos ser assertivos nas nossas decisões com os pacientes e fazer com que percebam o benefício de longo prazo do plano de tratamento sugerido.

 

Acredito que a compaixão fornece uma maneira para que os médicos dentistas cuidem dos seus pacientes e façam o que é melhor para eles a longo prazo, sem absorver a sua ansiedade, medo, insegurança, angústia, dor e/ou preocupação. Da próxima vez que ouvirem um paciente dar-vos os parabéns pela vossa simpatia, pensem para vocês mesmos: este tipo de empatia é realmente o que meus pacientes precisam?

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 141 da revista SAÚDE ORAL, de novembro-dezembro de 2021.

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