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Em busca da estabilidade primária

A estabilidade primária é a base para o sucesso de um implante. Não sou médico dentista [1], refiro-o porque foi assim que me explicaram. E o conceito faz sentido em muitas outras áreas. Na gestão clínica, por exemplo.

Podemos recorrer ao ditado “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita” para caracterizar uma anomalia no arranque que se foi agravando, precisamente pela falta da estabilidade primária. A razão de ser quase impossível corrigir o que começa mal prende-se com as soluções de recurso em cadeia. São tentativas de correção para a ideia-base sobreviver, ao invés da desejável evolução de um resultado positivo.

 

Entre os médicos dentistas nas minhas formações e os que me convidam a fazer o diagnóstico das suas clínicas, há um denominador comum: falta estabilidade primária à gestão. Assenta em fundações frágeis, sobrecarregadas com pilhas de rotinas arbitrárias na resolução de problemas. É natural que o médico se sinta perdido e incapaz de conseguir resolver o desafio, olhando para a gestão clínica como um abismo negro que suga tudo o que lhe passe por perto. Não tem de ser assim.

A melhor forma de atacar um grande problema é fatiá-lo. A fórmula vem há anos nos mais básicos manuais de gestão e ainda resulta. Quando em novembro de 2020 a Incisivos deu um webinar para a OMD sobre gestão clínica, a apresentação dividia-a em quatro pilares: infraestrutura, recursos humanos, marketing e planeamento/supervisão. Volte agora a pensar nessas áreas.

 

Se sente que todas estão fragilizadas, escolha uma. Elabore o que considera serem os quatro problemas dessa área (menos, ok; mais, não). Priorize os itens da lista. Veja na equipa interna quem pode ajudar com soluções e comece a trabalhar – não precisa de tirar muito tempo, apenas tempo de qualidade (uma hora com foco vale oito dispersas). Enquanto não resolver um ponto, não avance para o outro.

Este caminho é uma sugestão de planificação, não uma fórmula mágica. Claro que poderá demorar e encontrará obstáculos desconhecidos, mas só assim será viável ambicionar um regresso às origens – à estabilidade primária. Quando resolver uma das áreas, passe para outra. Não ficará com a clínica gerida com o profissionalismo de um especialista a tempo inteiro, mas será profissional a querer resolver a gestão. O que importa é começar por algum lado.

 

Agarrar tudo ao mesmo tempo é impossível, como tão bem exemplificou Sundar Pichai, CEO da Google, num curto discurso ao seu staff que lhe deixo para terminar esta crónica. “Imagina que a vida é um jogo de cinco bolas que manipulas no ar, tentando não deixá-las cair. Uma é de borracha, as outras de vidro. As cinco simbolizam trabalho, família, saúde, amigos e alma. Não vai demorar muito para perceberes que o trabalho é a bola de borracha. Sempre que a deixares cair, subirá de novo. Se uma das outras cair, não voltará à forma anterior – ficará danificada, rachada ou até mesmo em estilhaços. Tens que estar ciente disso e esforçar-te para não deixar cair nenhuma bola de vidro. Gere o teu trabalho de forma eficiente durante o respetivo horário. Dá o tempo necessário para família e amigos, descansa adequadamente e cuida da tua saúde. Se tu caíres, será difícil voltares a ser como eras.”

*Presidente da Incisivos [2] – Associação dos Empresários da Medicina Dentária