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Dentistas portugueses pelo mundo

“É necessário que a saúde oral passe a integrar as políticas de saúde pública”

Entrevista a Leonor Marinho, médica dentista voluntária da Mundo a Sorrir, que esteve em missão em São Tomé e Príncipe.

Leonor Marinho – Médica dentista voluntária da Mundo a Sorrir, que esteve em missão em São Tomé e Príncipe

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área? 

Neste momento estou a tirar a Especialização em Periodontologia na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa. Trata-se de uma especialidade muito rica, com uma forte componente humana, uma vez que envolve um acompanhamento prolongado do doente. Além disso, tem um elemento de cirurgia, do qual também gosto muito.

Como é que começou a sua colaboração com a Mundo A Sorrir?

A minha colaboração com a Mundo A Sorrir começou após ter terminado o curso. Já tinha feito voluntariado internacional, mas não na minha área e tinha ficado sempre o ‘bichinho’. Sabia que queria trabalhar em medicina dentária e procurava uma Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) que me desse confiança relativamente ao trabalho realizado no terreno. Queria participar em projetos com continuidade e com um impacto na vida das pessoas com quem e para quem ia trabalhar. A Mundo A Sorrir é uma ONGD de referência em medicina dentária, tanto pelos seus projetos nacionais e internacionais. Assim, inscrevi-me numa formação e foi nessa altura que tudo começou.

Quando é que surgiu a oportunidade de iniciar o voluntariado em São Tomé e Príncipe?

Depois da formação ficou claro que faria os possíveis para realizar uma missão com a Mundo A Sorrir e, após completar todos os passos necessários à integração nos projetos, propuseram-me voluntariado em São Tomé e Príncipe. Nessa altura estava convencida que queria ir para outro lugar, mas achei que faria mais sentido confiar em quem tem mais anos de experiência e ir para o sítio em que mais precisavam do meu trabalho. Foi assim que acabei em São Tomé e Príncipe e ainda bem!

Fale-nos do projeto em que esteve inserida…

Estive inserida num projeto chamado “Saúde A Sorrir – São Tomé e Príncipe”. Trata-se de um projeto que tem como foco melhorar os conhecimentos da população escolar sobre saúde oral e nutrição, trabalhando para a prevenção das doenças orais e dando ferramentas para que as crianças possam tornar-se agentes ativos na manutenção da sua própria saúde. Neste projeto trabalhamos principalmente com crianças do primeiro ciclo e com os seus professores com o objetivo de criar desde cedo estilos de vida mais saudáveis.

Ao mesmo tempo o projeto tem também uma vertente de intervenção clínica, com a realização de tratamentos dentários à população abrangida pelo projeto.

Através das atividades de prevenção nas escolas, a Mundo A Sorrir consegue identificar as crianças que necessitam de tratamentos e encaminhá-las para os postos de saúde onde estes são realizados. Trabalho este que é feito sempre com os profissionais de saúde locais e, sempre que possível, com os médicos dentistas existentes na zona. Todas as crianças tratadas pela Mundo A Sorrir têm autorização dos pais, o que nos permite algum contacto com os encarregados de educação para assim lhes tirar dúvidas ou dar sugestões.

O que é que a motivou a querer fazer parte deste projeto como voluntária?

As doenças da cavidade oral são das doenças comunicantes mais prevalentes no mundo e apresentam um enorme impacto no dia-a-dia de uma pessoa. A dor de dentes é forte e debilitante, dificultando a alimentação, o descanso e a produtividade (tanto escolar, como profissional). Por outro lado, tem um enorme impacto na autoestima e bem-estar geral. Por fim, os fatores de risco das doenças orais são muito semelhantes aos fatores de risco das principais doenças crónicas, como é o caso de doenças cardiovasculares, diabetes e cancro (especialmente cancro oral).

Além disso, era muito importante estar num projeto que apresentasse continuidade. Infelizmente, durante estas estadias, muitas vezes não é possível tratar todos os casos com que nos deparamos, uma vez que temos que dar prioridade aos mais graves – coisa que também me aconteceu a mim. Mas, sabendo que outros voluntários se seguirão, é possível deixar identificados casos para posterior tratamento. Assegurei assim que os próximos voluntários pudessem continuar o meu trabalho, assim como eu continuei o trabalho que outros voluntários tinham começado antes de mim.

Havia também a vontade de trabalhar junto com os profissionais de saúde de outros países e aprender diferentes formas de abordar certas questões. Como é a relação médico-doente no país? Quais são os temas mais sensíveis e como os interpelar? Como abordar os pais e encarregados de educação durante as consultas? Aprendi imenso sobre estes e outros assuntos com os profissionais de saúde locais e sinto que me tornei uma melhor profissional por causa disso.

Como é que foi essa experiência e que desafios enfrentou?

Foi extremamente enriquecedora. Enfrentei os desafios que todos enfrentamos quando saímos da nossa zona de conforto. Aprendi a viver numa cultura com aspetos diferentes da minha. Com o tempo percebi como fazer as perguntas certas, como fazer as pessoas confiar em mim e a confiar eu própria nas pessoas com quem convivia. Criei rotinas de trabalho no hospital e nas escolas. Partilhei as mesmas frustrações que outros dentistas, como por exemplo tratamentos a crianças mais desafiantes ou faltas às consultas. Conheci imensas pessoas novas e fiz bons amigos. Tive de me habituar a outros horários, a outros sabores e a partilhar o meu espaço com outros voluntários. A verdade é que voltei de São Tomé e Príncipe em 2019 e quando penso nesses seis meses tão felizes, não me lembro de grandes desafios, mas sim de uma vida bem vivida e fico sempre com um sentimento muito grande de gratidão.

Esteve em São Tomé e Príncipe durante seis meses… Como é que era o seu dia-a-dia lá?

Sinceramente os meus dias em São Tomé e Príncipe foram, a partir de certa altura, extraordinariamente ‘normais’. O que que achei fantástico! Todos nós gostamos de experimentar e viver coisas novas, mas no fim do dia queremos também o conforto e a segurança da nossa casa. E é isso que acaba por acontecer quando nos acostumamos a um sítio, por mais estranho que este nos seja no início. Fazemos dele a nossa ‘nova casa’ quando nos habituamos às suas rotinas. Acordava de manhã, vestia-me e ia ‘matabichar’ (ou tomar o pequeno-almoço). Depois verificava que tinha tudo o que precisava para aquele dia de trabalho, tal como faço todos os dias em Lisboa, onde vivo. Passava o dia nas escolas ou no centro de saúde, e fazia sempre uma pausa para o almoço. O dia começava cedo, pelas 6h da manhã, mas também acabava cedo, pelo que às 17h/17h30 normalmente estava de volta a casa. Muitas vezes nessa altura aproveitávamos para dar um mergulhinho rápido, ler, conversar com família e amigos em Portugal ou aproveitar algum tempo com as pessoas que viviam na nossa comunidade. Antes do jantar aproveitava para preencher relatórios e preparar o dia seguinte. Nos fins-de-semana tínhamos sempre tempo para explorar o país em que passámos a viver, tínhamos as famosas praias e os trilhos pela natureza, mas também restaurantes deliciosos e alguns museus interessantes.

Quais foram as maiores lacunas que encontrou no que diz respeito à saúde oral?

Os serviços de saúde oral são escassos e o acesso da população aos mesmos é difícil.

Estão localizados maioritariamente na capital do país, o que torna muito difícil o acesso das comunidades mais distantes. Pela minha experiência, São Tomé e Príncipe tem bons médicos dentistas, o problema é que são poucos. Não há faculdade de medicina ou de medicina dentária. Quem se quiser formar nestas áreas tem obrigatoriamente de emigrar, mas os recursos para bolsas de estudo são limitados.

Nem todas as pessoas têm conhecimentos sobre a importância dos dentes e da sua manutenção. Muitos ainda não usam escova de dentes, sendo a pasta mais rara ainda. Existem populações muitos isoladas e com dificuldade em adquirir estes instrumentos básicos.

A dor de dentes é uma realidade comum em São Tomé e Príncipe. Existem muitas pessoas a conviver com ela diariamente e sem forma de a controlar. Muitas crianças faltam à escola por causa de dor de dentes e é comum que aos 20 anos existam já inúmeras peças dentárias perdidas.

Existe uma grande desinformação nutricional, o que resulta em consumo excessivo de certos grupos alimentares, que depois são prejudiciais à saúde geral e oral. Por exemplo, ainda não existe uma política de combate aos doces, que são vendidos nas escolas a preços muito baixos. As crianças passam grande parte do seu dia na escola e durante esse tempo comem quantidades exorbitantes de açúcares.

 

Sente que cumpriu a sua missão?

Acabamos sempre a querer ter feito mais e melhor. Mas, juntamente com os voluntários que estiveram comigo no terreno, com a ajuda dos parceiros locais e com a coordenadora que nos apoiava à distância, sinto que cumprimos os objetivos da missão que nos foi entregue pela Mundo A Sorrir.

O que mais sentiu falta durante a sua estadia em São Tomé e Príncipe?

É uma pergunta muito difícil de responder. Foram seis meses cheios de vida e muito, muito trabalho. Por isso trago imensas recordações que guardo com muito carinho e me deixam cheia de saudades. Conheci pessoas fantásticas, verdadeiramente empenhadas em tornar o seu país um lugar melhor todos os dias e é com muito orgulho que digo que muitos deles são nossos parceiros. Ganhei uma casa nas Irmãs Franciscanas de Neves. Experimentei frutos novos, como a jaca, o sape sape, a cajamanga. Aprendi jogos com as crianças e agora posso dizer que já sei pescar com linha, graças a uma rapariga chamada Marisa.

Acho que é um país abençoado. Tem um clima fantástico, embora por vezes o calor apresentasse os seus desafios, e paisagens lindas em todo o lado. As pessoas são amáveis e têm um sorriso fácil. A gastronomia é ótima! Muito peixe e frutos deliciosos. Além disso, senti-me sempre muito segura e bem recebida.

Tenciona voltar a fazer parte de um projeto com as mesmas ambições?

Tenho a sorte de me manter ligada à Mundo A Sorrir e a este país! Graças a isso tenho conseguido continuar a colaborar com os projetos que estão a ser realizados no país. Se tudo correr bem, ainda volto este ano!

Que conselhos dá a quem também queira passar pela mesma experiência?

Antes de partirem para uma aventura destas informem-se muito bem da ONGD com quem decidam realizá-la. É importante ouvir a experiência de outros voluntários, mas principalmente saber qual é o trabalho que é feito no terreno e quais são os valores e missão da organização que vão integrar. Ir numa missão de voluntariado é um trabalho de grande responsabilidade. E trabalha-se mesmo muito. Principalmente quando não se vai a título individual, tem de se estar muito consciente de que as nossas ações podem comprometer missões futuras ou abrir-lhes ainda mais portas. Saber também que é preciso alguma capacidade de improviso. Às vezes existem imprevistos ou as situações não correm tal como esperávamos. É importante saber dar a volta nestas alturas de forma a não afetar o trabalho. Por fim, acho que é dar um salto de fé e ir de coração aberto. Ganhamos sempre muito mais do que damos…

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo?

A medicina dentária é uma área de saúde que nem sempre é considerada prioritária, uma vez que, normalmente, não se encontra diretamente ligada à mortalidade. No entanto, tem uma influência profunda no bem-estar e na saúde geral das pessoas. Além das consequências que pode ter na saúde, afeta a autoestima, a produtividade e até a capacidade de arranjar trabalho. Apesar de continuar a ser uma área de saúde negligenciada, tem sido feito um esforço crescente para a educação para a saúde oral.

A OMS classificou as doenças da cavidade oral como pertencentes ao grupo das doenças não comunicantes. Um documento relativamente recente convida à abordagem da saúde oral como parte integrante do combate às doenças crónicas, juntamente com o combate ao tabaco e o estímulo à adoção de estilos de vida mais saudáveis.

Existe ainda um grande trabalho a ser feito: é necessário que a saúde oral passe a integrar as políticas de saúde pública dos países e que existam planos e linhas concretas de combate às doenças orais, que são das mais prevalentes no mundo. Os cheques dentista, por exemplo, tentam criar um maior acesso da população mais vulnerável à saúde oral e, embora ainda insuficiente, é um começo. Trata-se de uma área com imensos desafios, o que penso ser transversal a todas as especialidades médicas.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 136 da revista SAÚDE ORAL, de janeiro-fevereiro de 2021.

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