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“É importante investir na vocação e maximizar as possibilidades de oferta de trabalho internacionais”

Pedro de Oliveira Neves, médico dentista no Colosseum Dental [1], em Londres, Reino Unido

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área?

Não me dedico a nenhuma área de especialidade.

Como e quando surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro?
 

Já tencionava morar no estrangeiro, particularmente em Londres. Logo que terminei o curso, em 2005, e após completar todo o necessário processo burocrático, vim para o Reino Unido.

 Como é que foi essa experiência e que desafios enfrentou?

Foi uma transição fácil a nível pessoal, porque era o que realmente pretendia, talvez a habituação ao já conhecido clima do Reino Unido tenha requerido um exercício mental de adaptação extra. Em termos profissionais, a multiculturalidade dos pacientes foi o maior desafio.

O que o fez tomar a decisão de ir trabalhar para fora de Portugal?
 

Uma decisão meramente pessoal, a necessidade de uma estimulação intelectual constante e complexa. Londres, como se sabe, reúne uma infindável oferta cultural!

Como é que é um dia de trabalho normal para si? O que faz?

O meu horário clínico é das 10h às 18h. Como GDP (general dental practitioner) faço maioritariamente tratamentos nas áreas de dentisteria, periodontologia, endodontia, cirurgia e prótese. Tratamentos de maior complexidade ou de outras áreas de especialidade são normalmente encaminhados.

De que forma é que a pandemia de covid-19 tem afetado a prática da medicina dentária no Reino Unido?
 

Durante os três primeiros meses da pandemia foram canceladas todas as consultas presenciais, sendo substituídas por consultas telefónicas de emergência. Seguiu-se uma fase sem tratamentos que gerassem aerossóis e, posteriormente, foi permitido todo o tipo de tratamentos, mas com intervalos entre consultas. Neste momento, as consultas retomaram a normalidade, mas é ainda aconselhável o uso do equipamento de proteção pessoal. Mais que a prática clínica, a pandemia afetou profundamente os médicos dentistas. O Reino Unido teve longos períodos de lockdown e foi muito difícil lidar com meses de trabalho diário árduo, seguido de isolamento domiciliário.

“O acesso universal dos portugueses a este cuidado de saúde primário, está ainda comprometido por insuficientes políticas públicas e a ausência de uma verdadeira estratégia nacional de saúde oral que permita, por exemplo, a integração da medicina dentária no Serviço Nacional de Saúde.

Que conselhos dá aos recém-licenciados que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?
 

Um percurso de excelência inicia-se com a escolha e dedicação às áreas − ou à área − que realmente se goste. Penso ser mais importante investir na vocação e maximizar as possibilidades de oferta de trabalho internacionalmente, do que limitar as opções ao contexto profissional.

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo?

Globalmente o lema ambíguo “Delivering Optimal Oral Health for All” traduz a vontade de uma cobertura universal de cuidados de saúde oral. A FDI com o relatório “Vision 2030” identifica os desafios que enfrentarão a medicina dentária e a comunidade cuidadora da saúde oral na próxima década e propõe estratégias para reduzir as desigualdades no acesso aos cuidados de saúde oral, contribuindo para a redução da carga global de doenças orais. O relatório tem por base três pilares: Cobertura universal da saúde oral; integração da saúde oral na agenda geral de saúde e desenvolvimento; e reforçar a resiliência dos profissionais de saúde oral para um desenvolvimento sustentável. O “Vision 2030” não é uma estratégia one size fits all e como não poderia deixar de ser variará de acordo com o contexto de cada país e região. Em Portugal, a atual Ordem dos Médicos Dentistas tem vindo também a bater-se pela adoção de uma estratégia nacional de saúde oral, a qual permita alterar a realidade de uma parte considerável de portugueses que não tem acesso a qualquer cuidado de medicina dentária. Contudo, o acesso universal dos portugueses a este cuidado de saúde primário, está ainda comprometido por insuficientes políticas públicas e a ausência de uma verdadeira estratégia nacional de saúde oral que permita, por exemplo, a integração da medicina dentária no Serviço Nacional de Saúde.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 143 da revista SAÚDE ORAL [2], de março-abril de 2021.