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Tecnologia

É hora de dar o salto para o workflow digital?

É um conceito que traduz a utilização de ferramentas digitais com o objetivo de otimizar o fluxo de trabalho e prestar serviços de saúde mais eficazes e seguros. Com claros benefícios para os médicos dentistas e para os pacientes, os desafios que se colocam a quem quer “dar o salto” não são simples. Por onde começar? Como contrariar, adicionar ou melhorar as práticas dentárias convencionais? Em que equipamentos se deve investir? No final, existe uma certeza: quem experimenta, dificilmente volta atrás.

 

A evolução digital tem influenciado praticamente todas as áreas de atividade e a medicina dentária não é exceção. E se há clínicas que optam por acompanhar o progresso, investem e pautam a prática clínica pelo workflow digital, outras ainda funcionam de forma tradicional. O primeiro passo, segundo o médico dentista João Mouzinho, é “ter coragem para mudar o chip”.

3Vai ainda mais longe: quem ficar de fora desta tendência, estará longe de alcançar a medicina dentária de excelência. “O maior exemplo que eu posso dar é que olhem para o vosso dia a dia, e vejam o quanto a era digital mudou a vossa vida. Faz sentido, nos dias de hoje, pensar em usar pombos correio? Faz sentido ir do Porto ao Algarve pela Estrada Nacional com um mapa na mão ou chegar a casa e acender uma vela para poder ver? Se, no nosso dia a dia, a tecnologia veio para nos ajudar e melhorar as nossas condições de vida, o workflow digital veio para permitir que o paciente tenha um tratamento médico dentário mais previsível, confortável e de maior sucesso”, defende.

Dárcio Fonseca

Uma vez alcançada a coragem, há que “delinear qual o objetivo em converter os protocolos para protocolos digitais e também certificar-se que tem o conhecimento necessário para começar este investimento”, explica Dárcio Luís Fonseca, diretor clínico da BeClinique. O caminho a seguir depende das necessidades de cada médico e de cada clínica. “É diferente se o médico pretende revolucionar toda a prática clínica ou se apenas quer melhorar uma especialidade, como por exemplo, passar a realizar ortodontia invisível, ou cirurgia guiada, ou fazer alguns trabalhos de prótese fixa com um workflow digital. E se tem intenção, ou não, de ter um laboratório próprio”, acrescenta. Tudo isto vai condicionar o primeiro passo.

Para o arranque, o médico dentista Gustavo Peres Alves, da mesma clínica, aconselha a aquisição de uma máquina fotográfica, de um CBCT e de um scanner intraoral. “A grande vantagem destas novas tecnologias, do ponto vista mais clínico, é a recolha e processamento de dados dos pacientes”, defende.

Não valerá a pena querer mudar de tudo de uma só vez. É provável que seja ambicioso e que se perca rapidamente o foco. Poderá facilitar definir quais os equipamentos que mais utiliza no dia a dia e que podem ser melhorados. “Mas, por incrível que pareça, o equipamento mais importante para quase todas as áreas é o computador. Permite estudar a posição ideal de colocar um implante dentário, qual o movimento ortodôntico que um dente tem de fazer, qual a forma ideal de uma prótese fixa para um dente específico, etc. A partir daqui os equipamentos têm de ser os adequados a cada área dentária porque existem milhares de tecnologias digitais nos dias de hoje”, salienta João Mouzinho. O médico dentista considera tão importante o programa de gestão de pacientes que tem – e que avisa os seus pacientes que não fazem uma consulta de rotina há mais de seis meses –, como o aparelho de CBCT que permite avaliar a condição radiológica de um paciente.

Para Hossam Dawa, médico dentista e coordenador da pós-graduação de Medicina Dentária Digital da Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário (CESPU), no Porto, é clara a recomendação em tornar um consultório convencional num digital com o mínimo de equipamentos necessários, como por exemplo, um scanner intraoral e uma impressora 3D. “São dois equipamentos que ajudam o médico  a integrar  os  seus tratamentos nos conceitos digitais atuais  como também na possibilidade em produzir alguns dispositivos necessários no âmbito do consultório sob o controlo do mesmo”, garante.

Investir na formação

Não menos relevante é a aposta na formação. “Qualquer colega interessado em adquirir meios digitais e independentemente de trabalhar ‘à antiga’ ou de ser recém-licenciado, o conselho que posso dar é de que deve começar pela aquisição dos conhecimentos adequados sobre os conceitos e os instrumentos digitais”, sublinha o médico dentista da CESPU. Além de perceber o que é que vão efetivamente precisar e comprar, há que saber utilizar os equipamentos “de uma forma segura e previsível”.

Relativamente à formação, o médico dentista João Mouzinho lamenta a inexistência de oferta de qualidade nesta área. “Lembro-me que, nos últimos anos, passei horas a tentar explorar alguns dos equipamentos, sem encontrar formação que me ajudasse nessa área. Era moda dizer que se fazia um workflow totalmente digital, mas sempre que falava com a indústria sobre isto, muitos dos processos não estavam otimizados e muitos dos produtos lançados tinham erros que não permitiam ter o processo completo. A formação na área digital mudou muito no último ano e existem ainda muitas evoluções para acontecer nesta área”, defende.

João Mouzinho

Uma forma de obter novos conhecimentos pode estar à distância de uma simples visita a consultórios de colegas que já tenham dado este passo. Assim, podem entender a melhoria dos processos e aquilo que está a ser feito. A partir daí, a decisão fica facilitada. “Muitos colegas com que falo nem sequer acreditam na quantidade de coisas que hoje fazemos de forma digital. Isto faz parte do presente, e não se esqueçam que a maior empresa de rolo fotográfico, a Kodak, entrou em período de falência depois de ser sido a empresa mais importante do mundo na área da fotografia e câmaras fotográficas durante mais de 120 anos. Tudo isto, por falta de inovação tecnológica e de acompanhamento das tendências do mercado”, exemplifica João Mouzinho.

Dárcio Luís Fonseca considera que a formação é um investimento importante “mesmo antes” da aquisição de novos equipamentos e softwares, “nem que seja para perceber se os mesmos vão ao encontro das necessidades e objetivos de cada clínica”. Aliás, este é um dos médicos que fomenta a realização de cursos no seu Centro de Formação Dentária com principal incidência na área de cirurgia oral e de implantologia, reabilitação oral e planeamento digital do sorriso. No site www.beclinique.pt, é possível aceder às formações especializadas já programadas para o decorrer deste ano.

A CESPU acaba de lançar uma pós-graduação em Medicina Dentária Digital. “A lacuna da não existência desta resposta levou a que sentíssemos urgência em introduzir a inovação pioneira da medicina dentária de uma forma integral e no âmbito universitário”, explica Hossam Dawa. “A curva de aprendizagem de quem trabalha de forma convencional é um desafio e, quanto mais anos de experiência, maior este desafio será”, acrescenta. A cooperativa de ensino está, entretanto, a explorar outras áreas formativas para tornar o conhecimento como uma prioridade “importante e disponível para todos os médicos dentistas”.

Maiores desafios

O médico dentista João Mouzinho não tem qualquer dúvida de que o workflow digital mudou a sua vida. “Hoje, não sou capaz de construir um sorriso sem pensar primeiro no computador, sem imprimir em 3D e permitir ao meu paciente que o aprove antes de começar. Não sou capaz de ‘errar’ na posição de um implante por falta de uma guia cirúrgica desse mesmo sorriso ou errar na carga imediata porque não a fiz digital”, afirma. Apesar de já ter realizado todos estes processos, no passado, de forma analógica, atualmente consegue assegurar o tratamento mais rápido, previsível e com maior taxa de aceitação e sucesso para o paciente, garante. “E, para mim, a medicina dentária deve ser sempre baseada no paciente.”

João Mouzinho considera que existe alguma resistência à mudança ou, simplesmente, falta de informação. “Muitos pensam que sempre tiveram sucesso a trabalhar de forma analógica e, por isso, não consideram que existam razões para atuar de forma digital. Lanço a seguinte pergunta: não seria interessante colocar um processo digital num determinado procedimento com o único objetivo de diminuir o tempo do tratamento, ou ‘de cadeira’? Muitos dos processos para os mais conservadores não são explícitos, porque, se fossem, seguramente já tinha havido uma mudança”, defende.

Dárcio Luís Fonseca tem uma opinião muito semelhante ao colega. “Por norma, somos seres resistentes e adversos à mudança. Quando estamos, há muitos anos, habituados a trabalhar de uma certa forma, com uma certa ideologia e vendo resultados positivos, mais entraves colocamos na alteração dos nossos protocolos.” Enquanto houver espaço para melhorar, garante que irá promover melhores soluções e práticas. “É essa a minha filosofia e tem sido isso que a tecnologia digital me tem permitido.”

Não vai ser sempre fácil nem simples, garante o diretor clínico da BeClinique, mas o trabalho em equipa pode ajudar a fazer a diferença. “Deleguem tarefas. Sozinhos não vamos a lado nenhum. Há uma curva de aprendizagem, como em qualquer ferramenta nova, que pode ser mais curta se todos ajudarem. A partir do momento em que se dá o salto, há que não desistir e tentar estar sempre bem informado. Vão existir alturas em que as coisas não vão correr tão bem, mas assim que os protocolos fiquem bem delineados e bem oleados, será tudo mais fácil e previsível”, deixa como sugestões a colegas mais inseguros com a mudança. E esta transição tem de ser realizada com calma, afirma. “Há que passar de um fluxo de trabalho analógico para um fluxo híbrido (analógico e digital) e, por fim, um fluxo digital completo. É esse o caminho.”

Nesta edição, a SAÚDE ORAL dá a conhecer um pouco melhor a Clínica Cyrne, na Amadora, um claro exemplo de aposta na vanguarda tecnológica desde o arranque, em 2005. Uma vez que a clínica já se encontra estável e consolidada, o grande projeto para 2020 é a aposta na formação através da abertura de um centro especializado para o efeito. “Existe uma lacuna muito grande nas faculdades no que respeita à medicina dentária digital”, adianta o médico dentista, que considera que os estudantes universitários saem das faculdades sem saber manusear alguns softwares, sem saber fazer cirurgia guiada ou aplicar outro tipo de procedimentos digitais. “É incrível a velocidade com que o mundo digital evolui. Todos os meses surgem técnicas, equipamentos novos e temos de estar sempre atualizados relativamente aos avanços que são galopantes”, defende.

Clínica Cyrne

Consciente de que uma das principais barreiras à transição para o digital se prende com os custos associados, considera também que o tempo e a própria formação (necessária, mas também ela, onerosa) podem dificultar a vida dos profissionais que “tencionem dar o salto”. A medicina dentária digital não é o futuro, já é o presente. “É impossível olhar para o lado e fingir que esta evolução não está a acontecer. Ultrapassados os obstáculos, conseguimos fazer mais e melhor em prol do bem-estar dos pacientes.” No final, eles notam a diferença e ficam impressionados com a “rapidez e qualidade dos tratamentos”, destaca.

O conservadorismo também é útil…

Apesar de todas as vantagens do digital, de nada vale pensar que o conservadorismo é coisa do passado. Pelo contrário. Esta postura pode ser até útil para tomar decisões ponderadas. Como em tudo na vida, o equilíbrio é o segredo. “Infelizmente, muita da tecnologia que as empresas lançam não está devidamente estudada e testada, sendo nós, muitas vezes, os testers desta mesma tecnologia. Ser conservador permite não comprar toda a tecnologia por impulso e perceber quais os equipamentos tecnológicos ideais para a nossa prática clínica e quais os dispensáveis”, explica João Mouzinho.

Para Gustavo Peres Alves, médico dentista da BeClinique, o conservadorismo é a base de tudo. “A inovação digital não faz milagres e não substitui nenhum elemento da equipa. Quem utiliza a ferramenta ou a máquina é sempre o médico ou o técnico de prótese. A medicina dentária digital não tem piloto automático. A forma como se executa e planeia as decisões a tomar e os botões a clicar será sempre realizada pela mente humana”, afirma.

Hossam Dawa

Hossam Dawa prefere usar a terminologia “convencional”, sugerindo que “existem muitos procedimentos intitulados de híbridos que funcionam na perfeição quando se junta o melhor de dois mundos. Também a mudança que o digital traz não é relativa aos conceitos científicos já existentes, mas sim, à forma como lidar com os mesmos e com o objetivo de torná-los mais previsíveis”. O médico dentista não tem uma opinião radical quando pensa nas mais-valias das novas tecnologias, pois considera que “quem não optar pelo mundo digital nunca estará condenado ao fracasso, pois um bom médico é sempre bom, independentemente da forma como trabalha”.

Resposta por parte das empresas

“Ao longo dos anos, o software de gestão – Newsoft DS – tem transformado o workflow digital de centenas de clínicas dentárias”, garante Rui Silveira, diretor-geral da Imaginasoft – Dolphin Margin. No final do ano passado, a empresa lançou a App NewSoft DS, para Android e IOS, para “permitir a mobilidade dos dados sobre o agendamento de consultas e da informação clínica para os médicos”. Rui Silveira avança ainda que estão em curso importantes desenvolvimentos “na área do cloud computing que terão reflexo na geração de aplicações para a gestão de clínicas dentárias, não só no plano da área clínica, como também do acesso às imagens digitais e interação com o paciente”.

A Tactis, empresa responsável pelo desenvolvimento e manutenção do software de gestão clínica Novigest, apresentou recentemente uma novidade relacionada com a integração e processamento de consentimentos informados. O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGDP) define um conjunto de princípios e regras que vão ao encontro de um direito fundamental das pessoas singulares: a proteção de dados. “Quando estas obrigatoriedades foram lançadas, a Tactis traçou como estratégia a simplificação de todo o processo de recolha e processamento de dados, otimizando o trabalho das clínicas”, explica Francisco Jesus, sócio-gerente da empresa. Sendo a Novigest acessível por diversos meios (SMS, e-mail) e para diversos âmbitos (confirmação de consultas, aniversários, marketing, etc.), “a Tactis decidiu minimizar qualquer constrangimento por parte da clínica e a probabilidade de comunicações a pacientes que não o tenham previamente autorizado”. Uma vez recolhido o consentimento, as respostas são tratadas em função de configurações definidas pela clínica e qualquer comunicação através dos meios e âmbitos indicados é “travada” pelo Novigest.

O responsável garante que “os médicos dentistas valorizam toda e qualquer funcionalidade que lhes permita colocar o foco na medicina dentária, minimizando toda a atenção que teriam de colocar nas atividades paralelas que são obrigatórias para o bom funcionamento das suas clínicas.  Como vantagem, identificamos o processamento inteligente da informação que confere uma maior acuidade na tomada de decisão e garante uma boa prática dentro das obrigatoriedades impostas pela sociedade, que é cada vez mais exigente em múltiplos temas”.

Nos últimos três meses, o Grupo Straumann Portugal “lançou uma nova geração de impressoras 3D com alta precisão para uma produção profissional no local de trabalho de qualidade premium, oferecendo integração com os nossos fluxos de trabalho CARES®, coDiagnostiX®, e também com softwares externos, tendo acesso a uma solução completa que o utilizador pode confiar, desde a impressão até à lavagem e polimerização”, explica André Nascimento, territory manager digital sul da empresa. O grupo tem no seu portefólio algumas soluções de impressão, bem como novas estações de pós-processamento: “A CARES® Série P Wash, que aumenta a eficiência ao automatizar o ciclo de limpeza, não necessita de nenhum contacto com resinas adesivas e líquidos de limpeza. O utilizador pode controlar todo o processo no visor touch e pode controlar a máquina usando programas no computador. A CARES® Série P cure é uma solução automatizada de polimerização e garante um acabamento otimizado, tem bastante precisão no controlo de temperatura e também no comprimento de onda através da fonte de luz integrada”, refere o responsável.

Como grande novidade para 2020, João Lacerda, territory manager digital norte refere a Ceramill Matik® da Aman Girrbach, “que abre um segmento único dentro do universo da medicina dentária digital, sendo quase imprescindível a sua presença num laboratório de grande produção. A Matik combina três máquinas numa só. Além da estação de processamento atual, o sistema executa as funções de um sistema de gestão de stock, totalmente automatizado, como também de um dispositivo de limpeza”. Segundo a empresa, o suporte em carregamento, limpeza e gestão de materiais permite uma grande economia de tempo nas rotinas diárias do laboratório.

*Artigo publicado originalmente na edição de janeiro-fevereiro de 2020 da revista SAÚDE ORAL.

Os pacientes valorizam a inovação

Gustavo Pereira Alves

O médico dentista Gustavo Peres Alves defende que a comunicação com os pacientes melhorou substancialmente com os avanços tecnológicos. “Sentem-se mais envolvidos no plano de tratamento e, durante os procedimentos, compreendem muito melhor aquilo que está acontecer”, afirma, garantindo que médicos e pacientes conseguem assim “falar a mesma linguagem”. No final, o esforço e o investimento que a clínica faz em benefício dos clientes é valorizado, “não só a nível de conforto, mas também de qualidade”.

João Mouzinho vai mais longe e conta que, os pacientes, feliz ou infelizmente, fazem muitas comparações e acabam por expressar alguma surpresa com os procedimentos que permitem “utilizar uma câmara para visualizar a boca e simular o sorriso final em 3D”, só para dar alguns exemplos dos comentários que o médico dentista recebe nas suas consultas. “Tenho a certeza de que serão os pacientes a ‘obrigar’ os médicos dentistas mais conservadores a evoluir para o mundo digital para não ficarem fora do mercado.”