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Formação

Dirigir a FMDUL doseando “a ambição com sustentabilidade”

O professor João Caramês é o novo diretor da FMDUL. O plano de ação passa por continuar o processo de sustentabilidade financeira.

O professor João Caramês é o novo diretor da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa (FMDUL). O plano de ação para o próximo triénio passa por continuar o processo de sustentabilidade financeira da instituição, apostar na investigação e na tecnologia.

No início deste ano tomou posse como diretor da FMDUL, uma casa que conhece bem. Foi em 1986 que iniciou funções de docente na antiga Escola Superior de Medicina Dentária e anos depois Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa. Como tem sido o percurso da FMDUL ao longos destas décadas e quais as principais mudanças que verifica no ensino da medicina dentária?

Os 43 anos que compõem a história da FMDUL são efetivamente sinónimo de um percurso de excelência que muito tem contribuído não apenas para o enriquecimento da medicina dentária, mas também da saúde oral em Portugal. Desde a sua criação em 1975, que a Escola Superior de Medicina Dentária, e mais tarde a Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, assume um papel de referência na formação pré-graduada e pós-graduada de médicos dentistas. Foi também graças à visão pioneira do seu fundador, o professor doutor Simões dos Santos, que a FMDUL impulsionou uma perspetiva plural da saúde oral promovendo a formação e a diferenciação de higienistas orais e técnicos de prótese dentária. Este modelo, ainda único numa instituição pública portuguesa de ensino, tem sido tomado como exemplo mundialmente. Ao longo destes anos fomos assistindo a um trajeto de crescimento fomentado pelo potencial da comunidade académica que compõe a FMDUL. O surgimento e ampliação da oferta formativa atribuída por novos cursos pós-graduados de especialização, a consolidação da investigação científica financiada através de projetos patrocinados entre outros pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), a criação de novas unidades ou laboratórios como a Unidade DigiTech (Laboratório Tecnologias Digitais), ou a reabilitação de infraestruturas já existentes como a biblioteca ou à modernização de espaços clínicos, nomeadamente da clínica de pós-graduação, constituem importantes exemplos deste crescimento.

A linha cronológica que percorre este período é também marcada por períodos delicados e difíceis. Ora pela adaptação a um novo paradigma educativo gerado pelo processo de Bolonha, ora motivada por severas contingências orçamentais que ameaçaram o colapso financeiro da FMDUL. Em todos estes momentos, a comunidade académica assumiu uma importante resposta à adversidade. Pelo sentido de firme liderança promovido pelas anteriores direções, pela capacidade de realização dos docentes e do pessoal não docente, pela dinâmica de investigadores em crescente progressão académica ou, mas não menos importante, pela motivação e ambição dos “nossos” alunos. Ao longo dos últimos anos, o ensino da medicina dentária tem fomentado uma aprendizagem baseada no conceito de problem based learning. Os alunos têm hoje um maior acesso à informação e ao conhecimento. O ensino da medicina dentária deve também proporcionar ao aluno as melhores ferramentas que conduzam à sua autonomia, ao seu melhor sentido crítico e a uma maior capacidade de seleção da informação relevante. Paralelamente, a estanquicidade existente entre disciplinas deu lugar ao aparecimento de unidades curriculares mais completas propondo um ensino clínico mais integrado e abrangente das várias áreas da medicina dentária.

“O ensino da medicina dentária deve também proporcionar ao aluno as melhores ferramentas que conduzam à sua autonomia (…)”.

E como pensa que poderá ser o futuro do ensino da medicina dentária?

O futuro do ensino da medicina dentária contará com um papel crescente das ferramentas digitais, nomeadamente as que potenciam e otimizam o ensino à distância. O ensino digital, como hoje lhe chamamos, nunca poderá substituir verdadeiramente o processo de aprendizagem que decorre do contacto do aluno com o professor e os seus colegas no espaço da faculdade. Este será sempre mais enriquecedor e completo para todos. Contudo, e tal como a realidade pandémica veio tornar evidente, o ensino digital será um complemento cada vez mais importante. Simultaneamente, a integração e o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial no apoio à decisão clínica nos curricula pré e pós-graduado, preparando os alunos para responder aos grandes desafios do futuro da medicina dentária, poderá também ser uma realidade. Acrescento que será fundamental aperfeiçoarmos os modelos de simulação que melhoram o treino do aluno no ambiente pré-clínico antes do contacto com o paciente. Uma realidade já presente em algumas faculdades europeias e americanas.

“(…) a integração e o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial no apoio à decisão clínica (…) poderá também ser uma realidade (…)”.

Que impactos está a ter esta pandemia no ensino e que mudanças poderá introduzir no futuro?

Como referi na resposta à questão anterior parece-me inquestionável que o ensino digital adquiriu maior preponderância com a realidade pandémica. Refiro o exemplo da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa que, perante uma nova realidade do exercício clínico e do ensino, respondeu com determinação e resiliência. Num curto espaço de tempo procedemos à adaptação das metodologias de ensino para um modelo essencialmente não presencial, com os necessários ajustes das modalidades de avaliação e ensino presencial nas situações em que não é substituível pelo ensino à distância. A pandemia conduziu-nos à reestruturação dos modelos de ensino evidenciando a relevância dos modelos de b-learning que, previamente à pandemia, também já tinham sido testados pela FMDUL.

Assume agora a direção da FMDUL, qual o seu plano de ação? E o porquê dessas escolhas?

O programa de ação apresentado é proposto num panorama que se adivinha imprevisível e particularmente difícil. Acima de tudo será fundamental dar continuidade ao rigoroso processo de sustentabilidade financeira iniciado pelas anteriores direções. Para uma maior autonomia financeira da faculdade é crucial a geração de receitas próprias e a captação de financiamento externo, assim como a revisão da fórmula de financiamento por parte do orçamento geral do Estado. Entre outras propostas presentes no plano de ação estão contempladas: a criação de um gabinete de apoio à captação de financiamento para investigação científica e projetos de inovação pedagógica, nomeadamente através da candidatura a fundos da União Europeia e análogos; a promoção da investigação científica básica e clínica, criando as condições humanas e físicas para o surgimento de linhas de investigação translacional internas e integradas em consórcios com instituições públicas e privadas; a digitalização integral do extenso acervo clínico da FMDUL para melhor fluidez do funcionamento das clínicas da FMDUL e possível alavancagem de projetos de investigação nas áreas de data science e big data; a manutenção da estratégia de internacionalização do curso pré-graduado e dos cursos pós-graduados procurando o seu reconhecimento e acreditação no contexto europeu; a ampliação das parcerias no âmbito dos programas Erasmus e Erasmus+ com instituições de reconhecida excelência académica e científica. Daremos continuidade à estratégia de modernização dos equipamentos de diagnóstico e tratamento clínico por forma a assegurar a sua adaptação ao status tecnológico contemporâneo e continuaremos a garantir o funcionamento da consulta de pacientes com necessidades especiais, atendendo à sua relevância para a sociedade e ao facto de ser a única no país. Como referi no discurso de tomada de posse, procurarei encarar as dificuldades como desafios, dosear a ambição com sustentabilidade e congregar o esforço e o mérito de todos os que compõem a comunidade da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa.

“(…) será fundamental dar continuidade ao rigoroso processo de sustentabilidade financeira iniciado pelas anteriores direções.”

Que iniciativas prevê organizar para concretizar os objetivos que nos descreve em cima?

Importa mobilizar toda a comunidade académica e exercer um mandato próximo da mesma. Conto ser voz ativa, mas também conto com uma valiosa equipa capaz de transmitir e delegar este espírito de responsabilização e autonomia. O tempo presente não pode esperar senão um forte sentido de cooperação entre todos na FMDUL, sendo igualmente importante a partilha de um espírito de networking com outras faculdades da Universidade de Lisboa ou restantes faculdades de medicina dentária do País. A este respeito tudo farei para que a FMDUL possa ser uma Faculdade “aberta” a quem connosco estabeleça com confiança, uma justa simbiose de conhecimento.

“Importa mobilizar toda a comunidade académica e exercer um mandato próximo da mesma.”

Que significado tem para si este novo cargo como diretor da FMDUL?

Foi com o maior sentido de missão e honra que acolhi, por designação do Senhor Reitor da Universidade de Lisboa, o cargo de diretor da FMDUL. Foi em 1986 que, recebendo o exemplo inspirador e de excecional sapiência do professor doutor Simões dos Santos, iniciei a colaboração como assistente convidado da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa. Desde então, procurei sempre atribuir um importante e humilde contributo à consolidação do prestígio académico nacional e internacional da FMDUL. Tentarei que o mandato para este triénio 2021-2023 seja o corolário deste percurso e nele floresça um sentido altruísta de concretização e sucesso fundamental para o futuro da instituição.

No seu percurso profissional dá também especial atenção à investigação. Que peso quer imprimir a esta área na FMDUL?

Como já referi anteriormente, a autonomia financeira das faculdades de medicina dentária depende grandemente da geração de receitas próprias e da captação de financiamento externo através do seu vetor investigação. De acordo com os parâmetros de avaliação enunciados pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), a capacidade de desenvolver linhas de investigação financiadas é crucial. A este respeito destaco o reconhecimento de vários projetos com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) que muito contribuíram nos últimos dois anos para o desenvolvimento e alavancagem de laboratórios de investigação básica, potenciando a recém-criada unidade de investigação LibPhys. Igualmente, foi desenvolvido um importante laboratório de tecnologias digitais, a Unidade DigiTech. Para os próximos três anos consideramos como prioridade: a criação de um gabinete de apoio à captação de financiamento para investigação científica e a projetos de inovação pedagógica através da candidatura também a fundos da União Europeia; a promoção de linhas de investigação translacional internas e integradas em consórcios com outras instituições públicas e privadas e a digitalização integral do acervo clínico da FMDUL, tornando também possível a participação da FMDUL em projetos de investigação nas áreas de data science e big data ainda pouco explorados em Portugal.

Como vê a investigação na medicina dentária em Portugal?

O desenvolvimento nos últimos anos de uma massa crítica de docentes investigadores e a criação de grupos de trabalho com dimensão translacional (integrando inclusive investigadores de áreas complementares como da medicina, engenharia biomédica ou da engenharia de materiais) tem permitido mais e melhor investigação em medicina dentária em Portugal. Contudo, quando comparamos o nosso País a outros da Europa (como, por exemplo, Espanha, Itália, França, Reino Unido, ou Suíça) ao nível da produção científica, percebemos que estamos ainda a um nível abaixo. Não desmerecendo o que de bom se produz em Portugal, mas necessitamos de convocar mais recursos, de mobilizar mais jovens médicos dentistas para a investigação e de sermos mais acutilantes na captação de financiamento externo. Será certamente um desafio para os próximos anos.

“(…) necessitamos de convocar mais recursos, de mobilizar mais jovens médicos dentistas para a investigação e de sermos mais acutilantes na captação de financiamento externo.”

É professor visitante da New York University College of Dentistry, Continuing Education, nos Estados Unidos da América. Que principais diferenças verifica no ensino nacional e estrangeiro, nomeadamente nesta experiência que tem?

A New York University College of Dentistry é a terceira mais antiga e uma das maiores faculdades de medicina dentária dos Estados Unidos. O início da sua história funde-se com primórdios da medicina dentária, com início em meados do século XIX. Este legado histórico está também associado à presença nesta instituição de figuras incontornáveis da nossa profissão, muitas delas pioneiras em áreas como a biologia oral, a prostodontia ou a implantologia. Se a estes fatores considerarmos a sua enorme diversidade de recursos económicos, assente num contexto onde impera um singular sentido de iniciativa e mecenato, e o forte sentido de intercâmbio cultural motivado pelo acolhimento de alunos de todo o mundo reconhecemos na NYU um espaço ímpar na formação e diferenciação de médicos dentistas. Sem que haja uma escala de comparação com esta realidade, as instituições de ensino ao nível nacional podem colher destas universidades americanas os seus melhores exemplos.

Dos exemplos que vê lá fora, o que poderá ser transposto para Portugal?

De uma forma sumária, destacaria o sentido de empreendedorismo, que de resto é transversal a uma parte significativa da sociedade americana; o sentido pragmático de cumprimento de objetivos, simplificando a via burocrática de quem muitas assume um papel de iniciativa, a eficácia organizativa altamente responsável e competitiva; e o favorecimento do intercâmbio cultural.

Em 2006, recebeu o prémio Outstanding Alumni Award da New York University College of Dentistry. De que forma esta distinção catapultou o seu percurso profissional em Portugal?

Durante o meu período de formação na Universidade de Nova Iorque tive o privilégio de ser integrado numa equipa onde figuravam médicos como Dennis Tarnow, Farhad Vahidi, Steven Wallace e Stephen Chu, entre muitos outros. Estes fizeram-me crescer como clínico e também como professor. Não apenas pelo conhecimento adquirido, mas também pela forma como este era transmitido. Abertos a uma sã partilha de saber, procuravam em cada momento perpetuar um espírito divulgador da ciência. Regresso a Portugal ciente de que apenas a partilha de conhecimento numa área tão pouco desenvolvida em Portugal como a implantologia, é fonte geradora de progresso entre todos. Em sequência e nos anos posteriores através de várias edições em parceria com a Universidade de Nova Iorque empenhei-me em criar um congresso diferenciador, tendo possibilitado a presença em Portugal de vários notáveis clínicos e conferencistas internacionais. Richard Lazzara, Dennis Tarnow, Stephen Chu, Galip Gurel entre muitos outros foram contribuindo para uma visão mais alargada e atual da reabilitação oral. Paralelamente, pude ajudar, incentivar e assistir colegas mais novos a realizarem semelhante experiência de formação na NYU. Creio que a atribuição da distinção Outstanding Alumni Award da New York University College of Dentistry, tendo sido por primeira vez atribuído na história da instituição a um não americano, surge como reconhecimento deste percurso.

Como se consegue conciliar o ensino, a prática clínica e a investigação?

Acima de tudo porque gosto muito do que faço. Apesar de assistir ao passar dos anos, o espírito jovem e empreendedor mantém-se inabalável. Mas tudo quanto descreve é apenas possível com um grande espírito de trabalho em equipa e de sacrifício pessoal na maioria das vezes. Por isso, não posso deixar também de prestar um merecido tributo à equipa de trabalho que me rodeia, tanto na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, como no Instituto de Implantologia, fundado por mim há 25 anos. Por serem parte integrante do sucesso nesta caminhada e por representarem um exemplo de excelência e dedicação, devo-lhes um sincero obrigado.

Resumo curricular

– Professor Catedrático de Cirurgia Oral da Universidade de Lisboa, Faculdade de Medicina Dentária (FMDUL);

– Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa (FMDUL) entre 2018-2020;

– Presidente eleito da Assembleia Geral da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) entre 2014-2020;

– Professor visitante da New York University College of Dentistry, Continuing Education, USA;

– Fundador e diretor do Instituto de Implantologia em Lisboa;

– Autor de mais de 150 publicações em revistas indexadas com fator de impacto variável entre 1.088 e 4.305 e proferiu mais de duzentas conferências nacionais e internacionais.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 137 da revista SAÚDE ORAL, de março-abril de 2021.

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