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Associação Mundo a Sorrir

Dentistas voluntários pelo mundo: “Melhorar a vida das pessoas é o verdadeiro propósito da medicina”

José Ferrão, estomatologista e voluntário da Mundo A Sorrir

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área? 

Escolhi a especialidade de estomatologia pela ampla e diferenciada patologia que trata diariamente e pelos vários métodos de tratamento que oferece, desde o médico ao cirúrgico, passando também por diversos tipos de procedimentos.

Como é que começou a sua colaboração com a Mundo A Sorrir?

Já há muito que sentia que o voluntariado era algo que gostaria de fazer na vida. Depois de uma pesquisa online e de ler vários artigos e testemunhos, entrei em contacto com a Mundo A Sorrir que tão bem me recebeu e preparou para o desafio que se adivinhava.

Quando é que surgiu a oportunidade de iniciar a sua missão na Guiné-Bissau?

Após a formação promovida pela Mundo A Sorrir, fui selecionado para esta missão. Todos os detalhes da missão foram-me explicados, incluindo a sua organização e logística, pelo que logo quis fazer parte dela.

“A vontade de querer melhorar a vida das pessoas, porque esse é o verdadeiro propósito da medicina. Principalmente nesta população tão necessitada e com tão poucos acessos a cuidados de saúde oral.”

Fale-nos do projeto em que esteve inserido… O que o motivou a querer fazer parte deste projeto como voluntário? 

A vontade de querer melhorar a vida das pessoas, porque esse é o verdadeiro propósito da medicina. Principalmente nesta população tão necessitada e com tão poucos acessos a cuidados de saúde oral.

Este projeto teve como objetivo rastrear e tratar lesões potencialmente malignas e fornecer tratamentos dentários generalistas à população de Bissau. Além da atividade desenvolvida na Clínica Social da Mundo A Sorrir, também participámos em ações de promoção de saúde oral junto a escolas e outras instituições.

Como correu a experiência e quais foram os principais desafios que enfrentou?

A experiência correu muito bem, mas sinto que nunca estamos mentalmente preparados para o que vamos encontrar. É uma realidade dura, com vidas muito difíceis e problemas inimagináveis e isso foi o que mais me afetou. Falando de desafios físicos, julgo que o calor foi o que mais me afetou, apesar da clínica ter boas condições de trabalho.

Fale-me da sua rotina na Guiné-Bissau. Como decorriam os seus dias?

Durante a minha missão, estive hospedado num centro religioso que me oferecia as refeições e dormidas. Assim, acordava cedo, tomava o pequeno-almoço com as pessoas do centro, e dirigia-me para a clínica, que se encontrava num edifício dentro desse complexo.
Trabalhei sozinho, com um assistente dentário local – o Domingos – com consultas previamente agendadas de hora em hora, até às 17h. No entanto, todos os dias surgiam casos de urgência, pelo que muitas vezes terminava após essa hora.

Por vezes, ao final da tarde, tal como ao fim-de-semana, aproveitava para conhecer melhor Bissau ou para socializar com os membros do centro.

“Este projeto teve como objetivo rastrear e tratar lesões potencialmente malignas e fornecer tratamentos dentários generalistas à população de Bissau. Além da atividade desenvolvida na Clínica Social da Mundo A Sorrir, também participámos em ações de promoção de saúde oral junto a escolas e outras instituições.”

Quais foram as maiores lacunas que encontrou no que diz respeito à saúde oral?

Lacunas básicas, desde a ausência de escovas e pastas de dentes numa grande parte da população, até à escovagem com um pedaço de madeira e carvão.

Assim, julgo que o aumento de ações de promoção acerca da importância dos cuidados de higiene oral é fundamental.

Que importância têm este tipo de ações para os locais? Que feedback teve das pessoas?

Têm uma importância extrema porque há uma enorme necessidade. Os cuidados de saúde oral prestados não são suficientes para toda a população daquele país.

As pessoas atendidas na Clínica Social da Mundo A Sorrir de Bissau ficavam extremamente satisfeitas, acabando por trazer familiares e amigos para também eles serem avaliados e tratados.

Tenciona voltar a fazer parte de um projeto com as mesmas ambições?

Sim, sem dúvida. Sinto que ficou muito trabalho por fazer na Guiné-Bissau.

No entanto, no futuro, gostaria de me juntar a um novo projeto noutro país.

Que conselhos dá a quem também queira passar pela mesma experiência? 

Simplesmente, vão. Não há nada mais enriquecedor e gratificante que possamos fazer na vida do que ajudar alguém que necessita. Ainda para mais, construindo sorrisos.

Estarei ao dispor para servir de testemunho para quem quiser entrar em contacto comigo.

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo? 

Na minha realidade, que é a hospitalar, continuo a observar diariamente uma grande necessidade de tratamentos do foro dentário, com lacunas graves da população portuguesa quanto à importância da saúde oral na saúde individual. Infelizmente, a saúde oral acompanha em paralelo o nível económico do nosso País, pelo que antevejo dificuldade na melhoria deste panorama.

Assim, tudo aponta para a necessidade de reforço cada vez mais precoce da importância dos cuidados de higiene oral e de prevenção de doença, através do reforço da intervenção ao nível dos cuidados primários.

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição n.º 144 da revista SAÚDE ORAL, de maio-junho de 2022

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