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Médicos Dentistas

“Dentistas verdes”: Medicina dentária no caminho da sustentabilidade

Os médicos dentistas estão mais conscientes do impacto ambiental da sua atividade e empreendem medidas que os tornam mais “verdes”.

Os médicos dentistas estão cada vez mais conscientes do impacto da sua atividade no ambiente e, por isso, empreendem um conjunto de medidas que os tornam mais “verdes”.

A atividade humana tem impacto na natureza. Temos cada vez mais consciência disso, notando agora as consequências dessa pressão que exercemos sobre o planeta. Não podemos parar, mas sabemos que as nossas ações podem ser diferentes e assim diminuimos a nossa pegada.

 

A medicina dentária está neste caminho, o de se tornar mais sustentável. A médica dentista Ana Rita Cardoso cedo se interessou por estas questões e criou um projeto inclusivo que pretende alertar os colegas para o impacto desta atividade no ambiente. Chama-se MDS Community (www.mdscommunity.com) e alia a medicina dentária e a sustentabilidade ambiental. “Tem a missão de informar e consciencializar os médicos dentistas sobre a medicina dentária sustentável, tornando-os capazes de criar e gerir uma equipa motivada à mudança, num consultório mais sustentável, mas também ajudar os pacientes ambientalistas, fornecendo-lhes informação fidedigna, uma vez que existem cada vez mais opções de higiene oral ditas ecológicas, que, por vezes, nem são ecológicas nem são recomendadas para a sua saúde oral”, explica Ana Rita Cardoso.

A médica dentista começou esta jornada pela sustentabilidade na medicina dentária na sua monografia de mestrado. Na pesquisa efetuada, verificou que “já em 1989 se documentavam os riscos ambientais e a toxicidade de substâncias usadas em consultório e foi em 1999 que começou a emergir o conceito da medicina dentária amiga do ambiente, inspirada na pesquisa e ativismo do dentista norte-americano Darryl Diefes”, revela.

Organizar para poupar
 

As medidas que os médicos dentistas podem empreender são muito variadas e vão desde a prática clínica à gestão do consultório. Uma primeira tarefa poderá passar por organizar com antecedência os procedimentos a realizar na consulta. Deste modo, explica Ana Rita Cardoso “personalizamos o campo de trabalho de modo a usar menos barreiras de proteção, evitando o desperdício. Este exercício de reflexão pode parecer insignificante, mas ao longo do tempo contribuirá para uma diminuição do consumo de consumíveis, água e energia e, consequentemente, trará um benefício económico à clínica, além do ambiental”.

“(…) personalizamos o campo de trabalho de modo a usar menos barreiras de proteção, evitando o desperdício. (…)” – Ana Rita Cardoso

 

Tratar sem poluir

Maria Valentim tem a sustentabilidade presente na sua vida há já algum tempo. Quando começou a trabalhar como médica dentista viu a oportunidade de transpor esta forma de estar para a prática profissional. Ao integrar o Instituto de Implantologia apercebeu-se que já estavam a ser dados alguns passos neste sentido. “Depois de ter começado a trabalhar no Instituto e de passar também a ter contacto com práticas mais sustentáveis, ao mesmo tempo que aumentei a minha pesquisa por produtos mais sustentáveis, fui descobrindo novas opções e ações que podia adquirir, não só ao nível pessoal, como ao nível profissional. Todos os dias faço várias recomendações e prefiro sempre optar por produtos e marcas conscientes”, comenta.

 

No Instituto de Implantologia são empreendidas mais de 96 medidas que tornam a prática mais amiga do ambiente, tais como “evitar o uso de ambientadores com COV ou a utilização de câmaras de corte e
desgaste de gesso, acrílicos ou metais fechados e com sucção ou ainda uma reciclagem assídua”. Os gabinetes do Instituto estão equipados com recuperadores de amálgamas que impedem assim que estes resíduos sejam drenados para a rede de água comum, altamente tóxicos quando presentes em água potável.

“(…) evitar o uso de ambientadores com COV ou a utilização de câmaras de corte e desgaste de gesso, acrílicos ou metais fechados e com sucção ou ainda uma reciclagem assídua, são tudo ações que já foram implementadas.” – Maria Valentim

Pedro Desport, sub-diretor clínico da Clínica João Desport Dentistas, em entrevista à SAÚDE ORAL enumera algumas medidas aplicadas diariamente na sua clínica e que passam pela substituição de alguns dos materiais descartáveis como, por exemplo, os copos de plástico por alternativas mais
sustentáveis de papel. “Começámos também a separar as mangas de esterilização antes de as descartar. Conseguimos assim reciclar separadamente a folha de plástico da folha de papel”.

Clara Panão, da Dental Care Lisboa, pensou o seu consultório médico tendo a sustentabilidade por base. Aqui, os equipamentos radiológicos são digitais, não havendo utilização de películas, nem líquidos de revelação que são altamente poluentes. “Adquirimos um ortopantomógrafo usado, e certificado, favorecendo assim a economia circular e o reaproveitamento de equipamentos, ainda em vida útil e perfeitamente funcionais. Mais recentemente adquirimos um Scanner Intra-Oral – com o intuito de entrar na era digital da medicina dentária e, assim, evitar o procedimento de moldagem para obtenção de réplica das estruturas orais do utente. Com este equipamento é obtido um ficheiro 3D que é enviado informaticamente para o laboratório (poupando assim material de impressão, moldeiras, água, pontas de mistura de plástico, tempo e combustível de transporte dos moldes entre a clínica e o laboratório, e evitando também a poluição causada pelo transporte automóvel ou motorizado).”

A clínica Dental Care Lisboa implementa ainda ações para diminuir o uso de material descartável. “Nesta fase ainda afetada pela pandemia não conseguimos pôr em prática o planeamento que tínhamos, pois os utentes sentem-se mais seguros com material descartável, de uso único. Mas ainda este ano gostaríamos de implementar medidas como o uso de copos de aço inoxidável para substituir os copos utilizados para o utente bochechar”. De acordo com Clara Panão, esta medida permite uma economia financeira muito significativa. “A redução destes resíduos poderá ser de 80% anualmente”. Atualmente, utilizam copos de papel reciclável, reduzindo a pegada de carbono, ainda que, com isso, se produza maior quantidade de resíduos sólidos. Clara Panão explica ainda que têm o objetivo de “utilizar panos cirúrgicos laváveis, medida na qual a Áustria é pioneira, tendo estudos que demonstram uma redução de 90% dos resíduos, aquando do uso de têxteis hospitalares reutilizáveis em substituição dos descartáveis. Nestes estão incluídos batas, toucas, e panos cirúrgicos bem como campos operatórios. Apesar de algum potencial de eutrofização que advém dos nutrientes descarregados nos lençóis de água, continua a ser muito mais ecológico que o uso de materiais descartáveis de uso único”.

A redução da pegada de carbono é feita também com o uso de babetes ecológicos feitos de fibras de celulose e fibras resultantes do processamento de restos de café. “O processo de fabrico permite uma redução de 20% na pegada de carbono, o que faz deste produto uma excelente opção. Existem também aspiradores de saliva de plástico proveniente da cana-de-açúcar que permitem reduzir a pegada de carbono, pois a cana-de-açúcar tem um ciclo de renovação muito mais curto (cerca de seis anos). Utilizamos ainda Bandejas Biodegradáveis em ácido poliláctico, um polímero de origem vegetal (derivado do amido de milho) totalmente biodegradável: 90% em 60 dias e completamente em 90 dias, representa um impacto zero quanto a emissão de CO2”.

Entre muitas outras medidas, Clara Panão recorre ainda a materiais biocompatíveis, utilizando o mínimo possível as tradicionais amálgamas de prata (com mercúrio na sua constituição) e outros metais pesados, altamente poluentes.

A pandemia de covid-19 obrigou a tomada de decisões para assegurar a segurança dos pacientes, mas algumas iniciativas revelaram-se ser mais eficazes e amigas do ambiente. “Tivemos a necessidade de reduzir a mobilidade dos pacientes devido à pandemia e passámos a fazer consultas mais longas e espaçadas onde propomos a realização de vários procedimentos na mesma consulta. Foi uma medida que acabou por ser ecológica na medida em que reduz a produção de resíduos e a poluição provocada pelo maior número de deslocações dos doentes”.

Ana Rita Cardoso considera ainda que “devemos destinar uma superfície limpa para mangas de esterilização e invólucros de materiais e limitar a sua abertura à assistente, para posterior reciclagem, uma vez que, para esta ser possível, não podem ter contacto com fluídos corporais. Quanto aos materiais descartáveis substituí por reutilizáveis todos os que consegui, realizo procedimentos restauradores dentários livres de amálgama e consequentemente de mercúrio, reduzi o consumo de papel ao estritamente necessário”.

Conceito de “dentista verde”

Um “dentista verde” é um dentista que segue uma abordagem alternativa à medicina dentária convencional na medida em que a sua prática clínica reduz os riscos ambientais e a escassez ecológica e consequentemente será mais segura para os pacientes.

“A literatura que suporta a Medicina Dentária Sustentável está bem sustentada e mesmo que esta apresente um maior risco de contágio e contaminação do que uma prática exclusivamente descartável, se forem tidos todos os cuidados necessários para a devida esterilização dos dispositivos médicos reutilizáveis e para a correta desinfeção de equipamentos de proteção individual e materiais dentários, também reutilizáveis, podemos afirmar que, além de ser mais segura para a saúde dos pacientes e da equipa médico-dentária, é também mais segura para o planeta”, pormenoriza Ana Rita Cardoso, uma “dentista verde”.

Digitalização

As novas tecnologias melhoram a atividade de médico dentista e dão também um contributo para tornar a prática mais sustentável. Pedro Desport explica que na sua clínica “temos implementado medidas como diminuição da quantidade de papel utilizado em processos como a entrega de consentimentos informados ou planos de tratamento, utilizando alternativas digitais”. Também no Instituto de Implantologia se opta por “digitalizar todos os documentos que dizem respeito aos nossos pacientes. Hoje em dia só disponibilizamos um documento em papel caso seja o próprio paciente a solicitá-lo. O mesmo acontece com os nossos ficheiros clínicos, todos eles em formato virtual. Utilizamos também raio-x digitais, deixando assim de parte a velha tradição da utilização dos líquidos
reveladores, igualmente tóxicos para o meio ambiente”. Clara Panão recorda que, no caso da digitalização, “uma das grandes vantagens, após o avultado investimento inicial, é a drástica diminuição do uso de papel, bem como tinteiros (altamente poluentes) ainda que os usemos reciclados”.

“(…) temos implementado medidas como diminuição da quantidade de papel utilizado em processos como a entrega de consentimentos informados ou planos de tratamento, utilizando alternativas digitais.” – Pedro Desport

As novas tecnologias podem ter muitas aplicações na clínica dentária, tais como faturas, planos de tratamento e orçamentos, documentação que é enviada por email para o cliente. Consentimentos informados, anamnese e RGPD são preenchidos e assinados digitalmente. Pode ainda ser feita a prescrição eletrónica de medicação e o livro de reclamações pode também ser eletrónico.

No consultório

Os consultórios podem também tornar-se mais sustentáveis, com medidas além daquelas que vimos serem aplicadas à prática clínica. Clara Panão inaugurou a sua clínica recentemente e teve em atenção desde o início os cuidados com o ambiente. “Na conceção e construção da clínica dentária, houve consciência ambiental na escolha dos materiais utilizados. Quisemos utilizar elementos naturais no design e decoração aplicandos princípios de Design Biofílico de espaços (incorporação de elementos naturais como madeira, pedra e outros) o que traz muitos benefícios − como a redução do stresse associado a uma ida ao dentista − e aumenta a atividade cognitiva. Induz também a eco consciência, a atenção ao pormenor do conceito da clínica eco sustentável e permite despertar a consciência ambiental dos utentes”. Recorreu a luzes leds, tinta ecológica para revestir as paredes, nas paredes resistentes à radiação foram utilizadas folha de chumbo (que é um material pesado) reciclada e reciclável. Há também sensores de luzes e de torneiras, reaproveitamento de água cinzenta para o autoclismo das sanitas e limpezas, entre outras medidas.

Estes “dentistas verdes” tomam decisões conscientes a pensar no ambiente e sempre com atenção à segurança dos seus clientes a quem também tentam transmitir conceitos de higiene oral sustentável [ver caixa].

Ter um consultório ambientalmente sustentável por parecer, num primeiro olhar, mais dispendioso. Mas quem tem investido neste conceito assegura que há poupanças económicas e são rapidamente visíveis. Clara Panão explica que, antes da abertura do seu consultório, “decidiu fazer um estudo financeiro para perceber quanto maior seria o investimento e quanto tempo demoraríamos a ter o turnover destas medidas. A verdade é que, para meu grande espanto, o investimento inicial seria apenas cerca de 20% superior e o retorno viria cerca de um a dois anos após a implementação das medidas. A conclusão a que cheguei é que realmente, além de sermos ativos na proteção do ambiente temos também um retorno financeiro rápido, passando efetivamente a ter uma poupança significativa. Depois de analisarmos as conclusões, tornou-se óbvio que vale mesmo a pena fazer esta transformação na nossa prática clínica”.

“A conclusão a que cheguei é que, realmente, além de sermos ativos na proteção do ambiente temos também um retorno financeiro rápido. (…)” – Clara Panão

Dicas para os utentes

Os “dentistas verdes” tentam ser mais sustentáveis na sua prática clínica e, ao mesmo tempo, tentam motivar os seus pacientes a terem uma saúde oral mais amiga do ambiente, partilhando algumas dicas:

– Fechar a água enquanto escovamos os dentes ou utilizar um copo com água;

– Quando terminamos a escovagem, não bochechar com água: desta forma o flúor presente na pasta de dentes vai ajudar a remineralizar o esmalte;

– Já existem pastas de dentes (pastilhas, diferentes embalagens), bastante interessantes, mas é de realçar que se deve sempre ter em atenção o flúor presente nas mesmas;

– além das escovas de bambu – que estão mais na moda − existem outras escovas feitas a partir de materiais reciclados, bioplástico, cerdas de materiais sustentáveis, ou até mesmo as escovas elétricas, que geram menos desperdício que uma escova de plástico convencional. Também temos as que permitem remover a “cabeça da escova” (a parte que colocamos na boca);

– A utilização do fio dentário e/ou escovilhão deve fazer parte do nosso dia a dia em conjunto com a escovagem para mantermos uma boa saúde oral. Podemos utilizar a fita dentária biodegradável ou feita a partir de materiais reciclados. Além disso, hoje em dia as embalagens também já são mais ecológicas e exemplo disso são as que são feitas de cartão (que depois podem serem recicladas ou compostadas) ou ainda as que permitem voltar a encher: um frasco de vidro onde se adiciona mais fio/fita. Os escovilhões ou flossers devem ser escolhidos em conjunto com o higienista quando o fio dentário não é opção viável ou fazível, e devem ser feitos a partir de materiais mais ecológicos;

– Também já existem raspadores de língua que podem durar uma vida toda;
– Qualquer que seja a nossa escolha, há outro fator bastante importante a ter em consideração: a origem dos produtos. Podemos estar a comprar produtos sustentáveis, mas se os mesmos chegam até nós oriundos de outra parte do mundo, a pegada será enorme (por exemplo, ao nível dos transportes ou da mão de obra utilizada). Comprarmos produtos cuja origem seja o mais perto possível de cada um de nós, é também uma forma de estarmos a contribuir para um mundo mais ecológico.

– Ler os rótulos de tudo o que consumimos e conhecer as políticas das marcas. Felizmente já há uma grande diversidade de opções no mercado e muitas marcas começam a reinventar os seus produtos.

– Escolher profissionais de saúde que estejam empenhados em modificar a sua prática clínica para que esta seja mais amiga do ambiente.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 143 da revista SAÚDE ORAL, de março-abril de 2021.

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