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Médicos Dentistas

Dentistas Portugueses pelo Mundo: “Nos dias que correm, não basta apenas cumprir os requisitos mínimos”

Filipe Amante Saude Oral
Luís Filipe Amante, médico dentista em prática clínica privada em Londres e Cambridge, no Reino Unido

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área?
Desde a altura da faculdade que sempre fui fascinado pela cirurgia e reabilitação oral e o tremendo impacto que estas disciplinas podem ter no bem-estar e na qualidade de vida, particularmente em pacientes parcial ou totalmente edêntulos. À medida que a minha carreira foi avançando, tentei fazer formação pós-graduada nestas áreas e acabei por convergir na direção da implantologia oral que, hoje em dia, é a área clínica a que me dedico de forma mais afincada e que tende a ocupar grande parte do meu tempo. Nos últimos anos, tenho também adquirido um crescente fascínio pelas potencialidades que a tecnologia e a medicina dentária digital vêm oferecer à profissão.

Como e quando é que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro? Onde trabalha neste momento e qual é o seu cargo?
Em 2010 havia uma grande carência de médicos dentistas em Inglaterra e, inclusivamente, as empresas recrutadoras dirigiam-se aos diversos países da União Europeia para entrevistar potenciais candidatos. No meu caso em particular, tive oportunidade de ter uma entrevista no Porto, onde me foi oferecida uma posição no dia, juntamente com um pacote de incentivos para ajudar com as burocracias inerentes ao processo de deslocalização e facilitar os primeiros tempos em Inglaterra. Fui na altura para uma cidade perto de Londres, entretanto, acabei por ficar na pitoresca cidade universitária de Cambridge, onde resido atualmente. Trabalho em duas clínicas, uma delas em Londres, onde sou o responsável pelo Departamento de Implantologia de ambas, além de manter igualmente alguma prática clínica generalista. Nos últimos tempos, tenho também tido a oportunidade de ser mentor clínico de colegas com menos experiência que procuram embrenhar-se no universo da implantologia.

 

O que é que o fez tomar a decisão de ir para fora de Portugal?
As minhas circunstâncias profissionais eram similares e transversais a muitos outros colegas na altura: fracas condições remuneratórias, horários de trabalho pouco amistosos, muitos quilómetros percorridos e um sentimento de que o árduo trabalho e a laboriosa aprendizagem adquirida durante a minha formação não estavam a ter o reconhecimento, recompensa e satisfação que imaginara. Além disto, sempre fui fascinado pelo apelo de outras culturas, línguas e maneiras distintas de pensar, pelo que a decisão de ir trabalhar para fora do país surgiu de forma natural.

Como é que é um dia de trabalho normal para si?
A maioria dos meus dias clínicos estendem-se entre as 9 h e as 17 h. A agenda pode variar bastante consoante os pacientes e tratamentos que estão planeados, podendo ver três a quatro pacientes por dia, se for um dia de cirurgias, ou 20 ou mais, se for um dia de prática essencialmente generalista com muitos check-ups. É frequente também, ao fim do dia, participar em sessões formativas, muitas vezes com colegas locais, e este ano tive a oportunidade de, com outros quatro colegas da área da implantologia e reabilitação oral, fundar um grupo de trabalho intitulado CIS (Cambridge Implant Society) no qual debatemos casos clínicos, protocolos e partilhamos experiências.

 

Tem trabalhado sempre no Reino Unido. Houve alguma diferença em particular que o surpreendeu quando foi para lá?
A mudança inerente à deslocalização entre dois países distintos acarreta diferenças culturais, conceptuais e indubitavelmente profissionais. Existe um aspeto de ser médico dentista no Reino Unido que é sem dúvida marcante e que retive até hoje, que é a valorização profissional e o sistema meritocrático que aqui vinga.
Ainda assim, existem diferenças marcantes que têm muito que ver com o facto de a medicina dentária ser parte integrante do sistema nacional de saúde inglês (NHS) há largas décadas. Por um lado, isto garante um acesso generalizado aos tratamentos dentários. Por outro, existe um padrão de qualidade de tratamentos – quando realizados no NHS – nivelado por baixo. O sistema foi construído conceptualmente para permitir um acesso facilitado a toda a população, no entanto, com um objetivo de cumprir requisitos mínimos.

Equaciona regressar a Portugal?
Regressar a Portugal é sempre uma perspetiva interessante e tentadora que nunca coloquei completamente de lado.

 

Qual o trabalho/projeto que gostaria de desenvolver?
Teria de ser um projeto diferenciado dos demais, sério, com critério e com objetivos ambiciosos. A área da medicina dentária digital, como referi, cativa-me particularmente, e creio que existe um grande potencial ainda por aproveitar por terras lusas. Por outro lado, a perspetiva de uma carreira hospitalar para médicos dentistas, que já foi favoravelmente indiciada pelo poder político, e para qual a Ordem dos Médicos Dentistas tem vindo a trazer visibilidade e atenção, poderia ser outro projeto interessante e no qual me poderia rever, particularmente porque penso que poderia oferecer um contributo válido, devido a ter tido oportunidade de contactar ao longo de uma década com um sistema que consagra isso mesmo.

Que conselhos dá aos recém-licenciados que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?
Na minha opinião, mais importante do que aconselhar os recém-licenciados, é aconselhar os estudantes do ensino secundário que contemplam a possibilidade de enveredar pela medicina dentária. As circunstâncias atuais do mercado de trabalho não são de todo favoráveis e as dificuldades acumulam-se.
Nos dias que correm, não basta apenas cumprir os requisitos mínimos. Para se almejar vingar, é essencial que os jovens profissionais se procurem diferenciar dos demais, nomeadamente com uma forte e sustentada aposta na formação pós-graduada. Creio que o sentido evolutivo da medicina dentária terá de ser exatamente o da diferenciação, o da especialização e, cada vez mais, o curso de medicina dentária terá de ser encarado como um ponto de partida, uma abertura de horizontes. Por outro lado, é também motivo de orgulho constatar que ser formado em medicina dentária em Portugal nos permite enfrentar diversos tipos de desafios laborais em todos os cantos do mundo. É importante termos a noção de que a nossa formação superior e clínica é ímpar, reconhecida e sobejamente apreciada por todo o mundo.

 

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo?
Para que a medicina dentária possa ocupar o lugar que merece entre as demais vertentes da medicina, cabe-nos a nós, enquanto médicos dentistas, o papel de humilde e profissionalmente exultar a importância da saúde oral como elemento essencial e indissociável da saúde geral.  Ser médico dentista e poder ativa e positivamente contribuir para a saúde, bem-estar e qualidade de vida dos nossos doentes é um privilégio, que obtivemos depois de anos de trabalho, estudo e sacrifício, e um motivo de orgulho e de responsabilidade. A medicina dentária portuguesa está, como todos estamos bem cientes, pejada de circunstâncias que tendem a afetar a nossa reputação, estatuto e até a nossa independência clínica. O excesso de profissionais e de clínicas, a exploração e subemprego, e a despromoção e degradação do estatuto profissional e da própria importância e valência da profissão enquanto disciplina médica constituem verdadeiros flagelos que têm de ser combatidos. Ser médico dentista implica que, a cada minuto da nossa vida profissional, sejamos responsáveis, éticos e escrupulosos no nosso comportamento e que tenhamos o valor da vida humana e o melhor interesse dos nossos pacientes como fundamento essencial. É fulcral, para o futuro da nossa classe e para a maneira como a população nos encara e respeita, que não nos deixemos arrastar para uma espiral de facilitismo, desconto e desvirtuação, mas, sim, enfrentar os desafios e as adversidades com os quais nos deparamos com brio, orgulho e ética.
Tenho uma forte convicção que o futuro trará uma medicina dentária sólida, compreensiva e solidária por todo o mundo, em que as dificuldades do acesso aos cuidados de saúde oral se esmoreçam e as desigualdades laborais igualmente se esbatam e que os médicos dentistas portugueses tenham um lugar de destaque neste processo, cimentado  pela sua história rica e gloriosa e por um presente destemido e inovador, sem virar a cara adversidade, do qual nos possamos orgulhar.

*Este artigo foi publicado originalmente na edição 130 da SAÚDE ORAL, de janeiro/fevereiro de 2020.

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