Saúde Oral

Covid-19 pode ter grave impacto na saúde oral das crianças

Quase dez anos depois do lançamento do programa dos cheques-dentista para as crianças de sete, dez e 13 anos das escolas públicas, ainda existem muitos beneficiários que não utilizam estes vales

Claire Stevens, porta-voz da Sociedade Britânica de Odontopediatria (British Society of Paediatric Dentistry — BSPD), acredita que o impacto da pandemia na saúde oral das crianças poderá ser “catastrófico” no Reino Unido.

“Se não lidarmos bem com a situação, o impacto na saúde oral das crianças poderá ser catastrófico. Os já longos tempos de espera para as operações podem ficar fora de controlo e uma mão de obra sobrecarregada pode vir a enfrentar um esgotamento inevitável”, referiu a porta-voz da BSPD ao site Dentistry Online.

Apesar desta opinião, a médica dentista também defende que pode haver uma oportunidade nesta catástrofe para “criar um sistema de saúde oral que funcione e seja acessível a todos”. Segundo Stevens, este seria “um sistema que preste apoio aos mais vulneráveis, um sistema focado na prevenção e um sistema que funcione não só para as crianças, mas também para os profissionais”.

Também entrevistada pela publicação foi Roksolana Mykhalus, das clínicas odontopediátricas Happy Kids Dental, que acrescentou que “não há dúvida de que o encerramento está a afetar todas as áreas das nossas vidas e de que a saúde oral não é exceção”.

Para a codiretora da Happy Kids Dental, há “três coisas principais que significam que a pandemia pode ter um efeito prejudicial na saúde das crianças: lanches constantes, falta de higiene oral e acidentes traumáticos em casa”.

Mykhalus explica que os pais devem dar o exemplo, porque os filhos têm tendência a imitar as suas rotinas. Destacou ainda que “o mais importante é que os pais ajudem a manter uma boa saúde oral, uma dieta saudável e que cuidem bem dos seus próprios dentes”.

Quanto aos traumas, Mykhalus considera que é difícil para os pais tolerarem o mesmo nível de atividade física a que as crianças estão habituadas quando estão na escola a praticar desporto, o que pode fazer com que as crianças, enquanto estão em casa, tenham traumas com maior frequência, o que se confirma “através do número crescente de chamadas de emergência” que tem recebido na clínica.

Stevens, por sua vez, identifica um elevado “cancelamento de operações de rotina, uma vez que os hospitais utilizam mão de obra, equipamento e espaço para apoiar a resposta do NHS [serviço nacional de saúde britânico] a nível nacional”, uma situação semelhante à dos médicos dentistas portugueses, que tiveram dificuldades de acesso a equipamento de proteção individual.

“Para algumas crianças, uma fase de estabilização acompanhada de uma prevenção reforçada com a melhoria da saúde oral pode ajudar a manter uma criança livre de dores e infeções até ao momento em que os tratamentos de maior risco e que geram mais aerossóis possam ser realizados de forma mais generalizada”, conclui Stevens.

Mykhalus sugere ainda que devido às mentes inquisitivas e imaginações vivas das crianças, esta verão uma oportunidade para fazer perguntas, pelo que nas consultas procurará explicar aos pacientes os nossos novos equipamentos de proteção como viseiras, máscaras faciais e batas, dando ideia de que são fatos espaciais que “ajudam a reparar os bichos do açúcar (é a isto que chamamos cáries que causam bactérias)”.

Para os que têm mais receio, a médica explica que os consultórios estão equipados com a mais recente tecnologia para ajudar a tranquilizar os pacientes e que têm ambiente de “parque temático não ameaçador”, ecrãs de televisão no teto para manter os pacientes distraídos e também dispõem de anestesia indolor, controlada por computador.