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Congresso SPEMD: Especialização e referenciação – o futuro da medicina dentária

A reunião magna da estomatologia e da medicina dentária decorreu a 13 e 15 de outubro na Figueira da Foz. Ana Messias faz o balanço do encontro, que teve um programa dedicado à apresentação e discussão de casos clínicos extremos. O objetivo é delinear “uma linha bem clara” na atuação dos clínicos gerais e apostar cada vez mais na referenciação e na especialização dos profissionais.

Foram cerca de 450 os profissionais da área da saúde oral que passaram pelo Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz nos dois dias em que decorreu o XLII Congresso Anual da Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária (SPEMD).

O número de participantes, de trabalhos apresentados, os momentos de debate e a lista de convidados nacionais e internacionais levam a vice-presidente da SPEMD, Ana Messias, a fazer um “balanço muito positivo” neste regresso ao modelo de encontro presencial sem restrições, depois de dois anos difíceis decorrentes da pandemia.

O programa do congresso, conta Ana Messias à SAÚDE ORAL, foi especialmente pensado “no clínico geral e nos profissionais que estão a começar a prática clínica” com a apresentação de “casos clínicos extremos com o objetivo de dar a noção ao clínico geral do limite da sua atuação e da importância da referenciação para profissionais especializados”. Nas palavras da também presidente da comissão organizadora do encontro, tem de existir “uma linha bem clara e bem delimitada” entre as áreas de atuação dos médicos generalistas e dos médicos especialistas, de modo que os primeiros “não se aventurem por situações que possam estar para lá do seu domínio técnico e científico”.

Lembrando que os casos mais difíceis e extremos “não são insolúveis”, ao alertar e dar a conhecer aos médicos dentistas generalistas as soluções existentes para essas situações “estamos a dar mais portas aos pacientes, pois o clínico saberá exatamente para quem referenciar”, explica a especialista. Atualmente, começa a ser bastante comum o utente ser seguido por equipas multidisciplinares em clínicas, sendo os consultórios mais pequenos, a trabalhar com médicos isolados, os que sentem mais necessidade de procurar especialistas para a resolução de casos complexos. Aliás, Ana Messias acredita que “se tem vindo a gerar um ambiente de confiança entre estes dois níveis de cuidados, em que o doente é referenciado, resolve o problema [com o especialista], e, posteriormente, regressa à clínica de origem”.

Aliás, o futuro da medicina dentária, crê Ana Messias, passará por um cenário em tudo semelhante ao que hoje existe na medicina: um médico clínico geral para o acompanhamento de rotina e a referenciação para especialidades em caso de necessidade para a resolução de situações complexas.

Ser a reunião de todos os profissionais de saúde oral

Outros dos objetivos do encontro passou por conseguir ter um programa que fosse aliciante e abrangente nos temas de modo a cativar não só estomatologistas e médicos dentistas, mas também as outras profissões envolvidas na promoção da saúde oral.

O encontro foi aberto a higienistas orais, “que são peças fundamentais e deveriam ter maior destaque no Serviço Nacional de Saúde a assegurar a fase primária da educação para a higiene oral”, tendo tido lugar, paralelamente, a 7ª Reunião da Associação Portuguesa de Higienistas Orais.

Ana Messias acredita que “se tem vindo a gerar um ambiente de confiança entre estes dois níveis de cuidados, em que o doente é referenciado, resolve o problema [com o especialista], e, posteriormente, regressa à clínica de origem”.

Os técnicos de prótese dentária (ver caixa) com os quais, diz Ana Messias, é necessário “ter uma boa ligação e uma boa comunicação”, estiveram igualmente presentes, assim como assistentes dentários, ou seja, toda a equipa envolvida na promoção de uma boa saúde oral.

“De facto, não trabalhamos sozinhos, trabalhamos em conjunto com todas estas profissões e juntar todos no mesmo espaço foi uma mais-valia para se debater muito e se aprender muito em todos os âmbitos, apostando na interdisciplinaridade que temos de fomentar nos centros onde trabalhamos em conjunto”, acrescentou a responsável.

Casos difíceis e possíveis soluções

Situações frequentes, mas de difícil resolução e com necessidade de abordagens especializadas foram estas as principais características dos casos abordados no congresso da SPEMD, onde, no primeiro dia do encontro, na sala principal estiveram em debate situações difíceis de perdas dentárias totais e de reabilitações extremas, nomeadamente da mandíbula, e se abordou as diferentes opções de reabilitação nesses doentes.

No campo da cirurgia, estiveram em foco as grandes lesões císticas intermaxilares e intraósseas e na área da patologia oral o destaque foi para as grandes lesões e as osteonecroses, “lesões severas e extremamente difíceis do ponto de vista da patologia oral”, reconheceu Ana Messias.

Neste âmbito, António Mano Azul, especialista em Estomatologia e coordenador do Plano Nacional de Promoção da Saúde Oral da Direção-Geral da Saúde, conduziu a “Sessão de Medicina Oral Extrema – Doenças ulcerativas da cavidade oral”, que, segundo reconheceu à SAÚDE ORAL, são patologias que na consulta “representam somadas a maior parte dos doentes, cerca de 25%, sendo que o líquen plano oral – que não tem só lesões erosivas/ulcerativas – é a mais frequente e é também a patologia mucosa mais frequente na população dos países ocidentais”.

O especialista explicou que “estas doenças, muitas vezes com úlceras muito dolorosas, são de causas diversas e entre elas há situações de causa autoimune, crónicas e incuráveis – embora controláveis com medicação, permitindo dar qualidade de vida aos doentes – infeções virais autolimitadas, sobretudo por vírus do grupo Herpes, ou infeções bacterianas que até incluem as chamadas aftas, que no caso de serem recorrentes, frequentes e múltiplas têm de ser tratadas”.

António Mano Azul lembrou que, além desse incómodo, “algumas situações são de indispensável diagnóstico do ponto de vista da Saúde Pública ou da prevenção e diagnóstico precoce de cancro”. No caso de serem doenças transmissíveis, como são as úlceras orais associadas à sífilis, à tuberculose, ao impetigo, aos vírus do grupo Herpes – HSV1, HSV2, VZV, CMV, EBV, este último oncogénico – e existem ainda cancros da cavidade oral “que se apresentam inicialmente como úlceras que não cicatrizam e há doenças que são consideradas potencialmente malignas, como o líquen plano oral”, sublinhou.

Sobre a sessão, António Mano Azul deixou uma mensagem de alerta: “Sem diagnóstico não há tratamento”. “Para ajudar doentes com úlceras orais dolorosas e de aparecimento súbito, o diagnóstico clínico na fase inicial é indispensável, não podemos estar à espera do resultado de biópsias ou de análises demoradas e, por vezes, inconclusivas, e, felizmente, os quadros clínicos são relativamente óbvios”, explicou.

“Para ajudar doentes com úlceras orais dolorosas e de aparecimento súbito, o diagnóstico clínico na fase inicial é indispensável, não podemos estar à espera do resultado de biópsias ou de análises demoradas e, por vezes, inconclusivas, e, felizmente, os quadros clínicos são relativamente óbvios”, explicou António Mano Azul.

Uma vez estabelecido um diagnóstico clínico provisório de doença ulcerativa não maligna há dois grandes grupos de situações que se tratam umas com antivirais e outras com imunossupressores”. Contudo, sublinhou o clínico, para o correto diagnóstico e para a escolha do tratamento mais adequado “é necessário treino prático nas faculdades de medicina dentária e de medicina e, felizmente, a SPEMD tem tido sempre, nos seus congressos, o cuidado de proporcionar formação nesta área”.

Voltando à agenda, no pequeno auditório, o programa de sexta-feira passou por uma masterclass em odontopediatria sobre casos difíceis em crianças e também por uma sessão sobre novas tecnologias regeneradoras. Houve ainda lugar para uma sessão dedicada à periodontologia com a abordagem de casos extremos e do prognóstico de manutenção de dentes altamente comprometidos periodontalmente.

Neste dia, decorreu ainda um fórum coordenado por João Carlos Ramos sobre investigação científica na área da medicina dentária, no qual se procurou “abrir um horizonte sobre o que se pode fazer hoje no campo da investigação”, frisou a vice-presidente da SPEMD. Falou-se de metadados, de soluções de financiamento e do papel das faculdades de medicina dentária na procura de soluções para que se produza mais investigação em Portugal em medicina dentária e com mais qualidade.

No sábado, o pequeno auditório recebeu uma sessão de atualização em oclusão e um fórum sobre prótese dividido em dois momentos (ver caixa).

O grande auditório recebeu uma sessão sobre “grandes complicações mucogengivais de implantes e a complicação que é a reposição dessas situações”, explicou Ana Messias, e uma sessão sobre reabilitação oral adesiva e o limiar da reabilitação oral adesiva direta e indireta.

Não obstante, a “qualidade e excelência” dos oradores nacionais, os participantes tiveram a oportunidade de ouvir especialistas internacionais que trouxeram ao encontro realidades e perspetivas diferentes das praticadas em Portugal. Ana Messias destacou a presença de Júlio César Joly, coordenador do Instituto ImplantePerio, e de Oswaldo Scopin, coordenador de cursos de implantologia, que vieram do Brasil para dar “aulas excelentes” nas áreas de especialidade.

Esteve também presente Pietro Felice, coordenador do Master de Cirurgia da Universidade de Bolonha, e da Bélgica veio Nastaran Meschi, uma das mais pronunciadas investigadoras em regeneração endodôntica.

De Espanha vieram Eugénio Ortega, coordenador do Master em Implantologia da Universidade de Sevilha, Mariano Pingarrón, coordenador do Master de Cirurgia oral e Implantologia da Universidade de León, António Romero, especialista em disfunção temporomandibular, e para falar de odontopediatria veio a “incontornável” Patrícia Gatón.

Todos eles vieram “naturalmente enriquecer o congresso e estabelecer ligações importantes” com os especialistas nacionais, concluiu Ana Messias.

Modelo inovador para discutir próteses

O Fórum Prótese, que decorreu no segundo dia do encontro, dividiu-se em dois momentos: um dedicado à prótese fixa e outro à prótese removível. Luís Macieira, diretor técnico da DentalRéplica, foi um dos moderadores do momento dedicado à prótese fixa e contou à SAÚDE ORAL que o modelo destas sessões foi bastante inovador num fórum de discussão. Os moderadores não levavam apresentações preparadas e o fio condutor foram as perguntas anonimizadas feitas pela plateia através de uma App, o que trouxe “uma dinâmica muito interessante para debater os temas mais ou menos tabu”, contou o técnico de prótese.

Com cerca de 100 pessoas na assistência, os temas em destaque passaram muito por questões eminentemente técnicas, de fluxos de trabalho e de comunicação entre profissionais, sendo que, em alguns casos mais técnicos, os moderadores recorreram a material gráfico para exemplificar as possíveis soluções.

Juntar na mesma sala os vários grupos profissionais é, para Luís Macieira, “fundamental” e esta aposta da SPEMD de chamar os técnicos de prótese dentária para os seus encontros e fomentar a interação entre os dois grupos profissionais poderá manter-se nas direções futuras da Sociedade. Desta forma, acredita Luís Macieira, os técnicos de prótese dentária “deverão passar a considerar o congresso da SPEMD como um encontro que tem, de forma rotineira, temas do seu interesse profissional”.

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