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Conferências Saúde Oral: Repensar o caminho, digitalizar e revitalizar o negócio

Na segunda tarde das Conferências Saúde Oral, este ano, realizadas em formato de web conference, a digitalização foi o tema mais destacado. Nesta era de incerteza e perante uma crise decorrente da pandemia de Covid-19, as soluções passam por consultas virtuais, agilização de processos e o recurso a múltiplas ferramentas e plataformas.

Foi preciso desconfinar a digitalização. Ao mesmo tempo que a Covid-19 nos obrigou a ficar mais em casa, também as clínicas dentárias tiveram de se reinventar e continuar próximas dos clientes mesmo com portas fechadas.

O médico dentista Pedro-Costa Monteiro, com especializações na área da ortodontia, começou por confessar o desespero que sentiu a partir do momento em que foi preciso fechar a clínica.“Tenho despesas elevadíssimas e investimentos muito grandes em equipamentos e tecnologia, além da área da formação em que os cursos presenciais que estavam completamente lotados ficaram suspensos.” Mas rapidamente decidiu adaptar-se ao “novo normal” e criar em conjunto com a colega Isabel Flores Allen, a Master Aligner Online Academy como forma de responder à contingência atual. A aposta não poderia ter sido mais certeira. “Formámos a maior academia de alinhadores com 45 formadores e 600 alunos ativos”, confessou. E apesar de privilegiar o contacto com as pessoas, o olhar nos olhos, a verdade é que “o conceito de e-learning veio demonstrar-se muito mais económico para as empresas e para os formandos”.

Todos os consultórios já integravam, de alguma forma, alguma componente digital. “Mas como podemos adaptar as nossas clínicas numa vertente virtual?”, questionou, sublinhando que o seu caminho pela virtualização começou antes da pandemia. “Claro que a nossa profissão necessita de contacto presencial, mas uma parte do trabalho que fazemos pode ser realizada de forma virtual.”

Apesar da exigência destes novos tempos, Pedro Costa-Monteiro exemplificou algumas novidades integradas no seu negócio e deixou uma mensagem de esperança aos colegas: “A história diz-nos que as pandemias e as crises tornam mais fortes os sobreviventes e adaptam a nossa forma de viver com novas regras. Houve coisas positivas dentro da catástrofe que está a ser esta pandemia.” Ao ter de recriar a sua clínica, reinventou o caminho que o paciente decorre durante todo o seu tratamento. “As consultas virtuais permitem ao médico ajudar a selecionar o paciente que tem ou não disponibilidade financeira e que interessa – ou não – vir à clínica.” Ao realizar as primeiras consultas à distância permite fazer uma primeira triagem daquelas pessoas que poderão efetivamente tornar-se clientes. Assim, num segundo momento, a pessoa já está munida de muito mais informação e “mais predisposta a aceitar um futuro plano de tratamento”.

“As consultas virtuais permitem ao médico ajudar a selecionar o paciente que tem ou não disponibilidade financeira e que interessa – ou não – vir à clínica” – Pedro Costa-Monteiro, médico dentista, ortodontista

Neste momento, o médico dentista divide a sua semana com dias ou partes do dia específicos para formação, para consultas na clínica e para consultas virtuais. Ao partilhar com os colegas e a audiência, os três sistemas que aplicou na clínica, também confessou o tempo que investe “em todas as redes sociais”. E quando o afirma, são mesmo todas. “Estou no Twitter, no Linkedin, no TikTok, no Facebook, no Instagram, para ganhar seguidores e permitir que as pessoas saibam como podem aceder a uma consulta virtual”. Com o recurso à inteligência virtual, tem conseguido fazer alguns diagnósticos que acabam por ser depois confirmados numa consulta posterior na clínica e de forma presencial. “Depois do tratamento ortodôntico propriamente dito, é possível espaçar a vigilância e temos um plano de monitorização contínua da jornada do paciente.”

O médico aconselhou os colegas a insistirem na inovação digital. “Durante o período de pandemia, cheguei a fazer 40 consultas virtuais por dia e a conversão é de aproximadamente 5%” mas tem percebido que os clientes estão satisfeitos com esta nova forma de aceder aos médicos dentistas.

Clínicas com práticas inovadoras

Alexandra Marques, médica dentista e diretora clínica da MD Clínica apresentou as alterações que implementou durante a pandemia e partilhou o sentimento generalizado de colegas no que respeita à situação que esta pandemia trouxe. “Damos cerca de 300 consultas por dia e quando chegou o decreto-lei que nos obrigou a fechar, foi o caos. Imaginem o que foi desmarcar todos estes clientes”, começou por afirmar. Mas, como não consegue ficar de braços cruzados, juntou-se com à sua sócia Marina De Praetere e, na semana seguinte ao encerramento, decidiram que tinham de passar a disponibilizar uma consulta online. “Começámos de forma muito rudimentar, pelo Zoom, e ainda hoje funcionamos dessa forma.” Na primeira semana, chegaram às 120 consultas, o que foi significativo e permitiu dar o pontapé de saída para a necessidade de estudar mais sobre a transformação digital. “Apostámos em consultas online e em consultas com recurso a inteligência virtual”, explicou.

“Damos cerca de 300 consultas por dia e quando chegou o decreto-lei que nos obrigou a fechar, foi o caos. Imaginem o que foi desmarcar todos estes clientes”Alexandra Marques, MD Clínica

Os números são significativos e totalizam 400 consultas de primeira vez por mês. “As clínicas que não aderirem ao digital vão morrer na praia”, acrescentou, adiantando que o foco tem de estar nos 3 R’S: Review, Recharge e Reconect. O médico dentista Dárcio Fonseca partilha da opinião da colega. O diretor clínico da BeClinique explicou a forma como consegue acompanhar os pacientes à distância, de Portugal para o Dubai, por exemplo, e como é que tem aderido a este mundo cada vez mais global que permite resolver os problemas em tempo real. “Estamos num processo de expansão e vamos abrir uma clínica com centro de formação bastante grande próximo do Rio de Janeiro, no começo do ano de 2021”, adiantou.

Com a capacidade de ter o mesmo workflow em todas as suas clínicas e de tornar a comunicação, entre todas, como mais simplificada e user friendly, sublinha a independência em relação a tudo aquilo que fazem, desde o planeamento dos casos à execução dos tratamentos. Temos o nosso próprio laboratório e quando trabalhamos com clínicas do outro lado do mundo podemos orientar os nossos laboratórios parceiros, o que nos permite ter uma linguagem e uma forma de trabalhar relativamente próxima. Normalmente, vou uma a duas vezes por ano ao Dubai e, no decorrer dessas minhas viagens, conheci o meu sócio e a ideia de termos uma clínica em comum aconteceu uns anos depois de criarmos confiança mútua e criarmos laços de amizade.” Assim, Dárcio Fonseca e Ehab Rashed uniram a mesma vontade e forma de pensar relativamente à maneira como tratar os pacientes e abriram uma clínica no Dubai, em 2019. E, mais do que manter o logótipo, a imagem e o dress code da clínica, foi preciso formar equipas pois “é muito mais difícil passar a filosofia de trabalho da BeClinique aos funcionários”.

A tecnologia serve para facilitar a nossa prática clínica, mas sobretudo a vida do nosso paciente e para que o mesmo tenha a perceção que está a ser tratado num local que tem os equipamentos mais inovadores para responder às suas necessidades” – Dárcio Fonseca, BeClinique

O médico dentista apresentou alguns casos clínicos para demonstrar como é possível acompanhar os clientes de perto, mesmo à distância e deixou um conselho aos colegas. “A tecnologia serve para facilitar a nossa prática clínica, mas sobretudo a vida do nosso paciente e para que o mesmo tenha a perceção que está a ser tratado num local que tem os equipamentos mais inovadores para responder às suas necessidades. É muito difícil para alguns profissionais – de determinadas gerações – fazer esta mudança para a inovação digital e reaprender a nossa profissão, modificar todos os protocolos que já estavam oleados para entrar nesta nova era.” Assinalou ainda que o investimento é muitíssimo elevado e nem todos os médicos dentistas, nem todas as clínicas têm possibilidade de dar o salto digital de uma forma quase imediata.

Como recuperar?

As conferências da Saúde Oral terminaram com a apresentação de Rogério Ferreira do Ó, diretor e docente do Programa de Gestão para Empresários do INDEG-ISCTE que abordou o tema “A realidade da reabertura: pistas para a recuperação”. Disponibilizou algumas estratégias de recuperação das empresas perante a necessidade urgente de “sobreviver” e começou por identificar as causas do declínio em termos de gestão. Identificou os gestores turnaround e as características que os ajudam a revitalizar o negócio e a enfrentar a crise como a da pandemia que estamos a viver. “São orientados para os objetivos, persistentes, determinados, criativos e confiantes, aprendem com os insucessos e capitalizam-nos enquanto experiência de vida. É preciso serem capazes de motivar, de gerir conflitos, de construir consensos e importa claramente como gerem as crises.”

O docente identificou que “as medidas de controlo e de contenção de custos permitem ganhar tempo para permitir a introdução de ações com efetivo impacto na melhoria da situação da empresa” e traçou várias pistas para revitalizar os negócios. E quais são, afinal, os três EF’s de uma liderança capaz e eficaz para sobreviver à pressão? São a eficiência, a evolução e o empowerment. “Em todas as crises, há vencedores e perdedores. Em crises anteriores, vimos que apenas 9% das empresas prosperaram e que cerca de ¾ lutaram realmente para sobreviver. Para vencer, é preciso o empenho de todos os participantes da empresa: dos acionistas, dos gestores e dos colaboradores”, explicou.

“Em crises anteriores, vimos que apenas 9% das empresas prosperaram e que cerca de ¾ lutaram realmente para sobreviver. Para vencer, é preciso o empenho de todos os participantes da empresa: dos acionistas, dos gestores e dos colaboradores” – Rogério Ferreira do Ó, INDEG / ISCTE

O facto de ficarmos retidos em casa implicou uma profunda transformação digital dos nossos negócios ou mesmo a paragem absoluta. “Houve que repensar a experiência dos clientes e dos processos e tudo o que foi possível digitalizar foi feito. Houve a necessidade de fazer acontecer, de entregar o produto ao cliente, de incrementar a produtividade, aumentar a flexibilidade e acelerar a capacidade de solução dos problemas.” Mas também comunicar mais e melhor, construir confiança e procurar apoio. Em suma, repensar o caminho a seguir.

As Conferências Saúde Oral resultam de uma organização conjunta da revista Saúde Oral e da IFE Abilways e realizaram-se nos dias 2 e 3 de dezembro com transmissão simultânea na plataforma Zoom e na página de Facebook da revista e com um total de cerca de 75 participantes.

*Não perca a reportagem alargada das Conferências Saúde Oral na próxima edição da revista (de janeiro e fevereiro de 2021).

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