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Opinião

Como surfar a onda da crise sem se afogar

Primeiro a má notícia: vamos enfrentar uma crise séria. Agora a boa: como já sabemos, podemos preparar-nos para minimizar o impacto. E nem vale a pena entrar em considerações sobre otimismo ou pessimismo, já que a negação da realidade é tão grave como achar que vem aí (outra vez) o fim do mundo. Vamos lá então traçar o plano para fazer frente ao que está a chegar.

A onda que levará à depressão económica já teve início. Ainda o ocidente estava a levantar-se da pandemia quando se deu a invasão da Ucrânia e, remoinho sobre remoinho, não há macroeconomia que aguente. Quando abana, os destroços caem sobre todos, em particular empresas, sejam grandes, médias, pequenas ou micro. Sabendo isso, empresários magnatas como Elon Musk, Jeff Bezos e Warren Buffett já começaram a divulgar como estão a preparar os seus negócios para o embate.

 

Warren Buffett, presidente e CEO da Berkshire Hathaway, tem 91 anos, mas a idade só lhe traz vantagens neste contexto, porque já passou por várias crises financeiras. É por isso que tem a frase-chave para a nossa abordagem: “As recessões são perfeitamente naturais na macroeconomia, sempre existiram e sempre existirão, por isso o melhor é adiantamo-nos na estratégia para lhes fazer face”. Não se trata, portanto, “se” chegará, mas “quando” chegará aos nossos ecossistemas financeiros.

Idade e experiência à parte, convém recordar que os grandes empresários aplicam boas práticas simples de gestão, comprovadamente eficazes, o que significa que também podem ser utilizadas nas nossas clínicas dentárias. Não é o tamanho ou o setor que decide o sucesso, é a correta gestão do negócio. O resto é escala.

 

Tanto Musk como Bezos parecem sugerir o mesmo plano que Buffett: a estratégia PPP – Prever, Preparar e Preservar. Um plano de ação virado sobretudo para o cash-flow, ou seja, o dinheiro existente na tesouraria para a empresa se manter à tona.

  • PREVER: reúna informação para que possa compreender o nível de agressividade da recessão, tipo escala de Richter nos sismos. Exemplo: se a inflação está neste momento em 10%, faça uma simulação do que seria pagar mais 10% de custos operacionais, tendo menos 10% de faturação. É um exercício conservador e severo, mas o resultado ditará se a empresa está preparada para o pior dos cenários.
  • PREPARAR: reforce os alicerces financeiros. Como? Não os fragilizando. Pode, por exemplo, seguir estes dois caminhos: a) planos prestacionais dos pacientes devem ser evitados, uma vez que correm o risco de não ser cumpridos mais à frente, em plena recessão; b) se paga a fornecedores a 30 dias, negoceie 60 ou 90. O objetivo é ter verba a entrar com janela temporal segura face ao momento em que essa mesma verba tiver de sair. É também neste “P” que deve evitar fazer investimentos que lhe provoquem endividamento no próximo ano. Não é o momento.
  • PRESERVAR: garanta que o seu património operacional está preparado para funcionar sem problemas, pois a última coisa que desejará é ter avarias em plena recessão, muito menos das grandes. Este pode ser o momento em que deve fazer um check-up às cadeiras de tratamento, aos autoclaves, aos compressores e a todo o equipamento mais utilizado. Uma revisão custará sempre menos do que uma avaria e previne que pare mais à frente, numa altura em que não pode fazê-lo. Por outro lado, é também neste “P” que se sugere dar mais atenção e acompanhamento às contas, falar mais com o contabilista, pois se as coisas começarem a falhar vai precisar de balancetes com contas fortes para, por exemplo, recorrer a empréstimos.

Cada item da estratégia PPP pode conter o que entenda, desde que se enquadre na rubrica e que seja exequível. A estratégia pode ser a aconselhada por três magnatas, mas a empresa é sua.

 

Imagine que um sismólogo conseguia prever com considerável antecedência os terramotos com a mesma certeza que hoje se conseguem prever recessões. Muitas vidas se salvariam. Neste caso, se já estamos certos que haverá um abalo financeiro, tratemos de implementar medidas que protejam a vida da nossa empresa e, por consequência, do nosso emprego, do emprego dos nossos funcionários e da qualidade do serviço de saúde que proporcionamos aos pacientes que confiam na clínica. E se o impacto do que está para chegar se revelar menos agressivo, não perdeu nada. Pelo contrário, adotou técnicas de defesa que são de otimização e reforço da vida financeira do negócio. Será sempre um ganha-ganha, em tempos de perde-perde.

*Presidente da Incisivos – Associação dos Empresários da Medicina Dentária

 
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