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Saúde Oral

Clínica de Glândulas Salivares celebra amanhã quarto aniversário

A Clínica de Glândulas Salivares da Casa de Saúde da Boavista, no Porto, celebra amanhã, dia 3 de outubro, o seu quarto aniversário. A SAÚDE ORAL esteve à conversa com Tiago Fonseca, o médico estomatologista por detrás deste projeto, para um balanço destes quatro anos de atividade.

Como é que vão celebrar este quarto aniversário na Clínica de Glândulas Salivares?

No final de quatro anos de atividade da Clínica de Glândulas Salivares, a efeméride vai ser lembrada com o anúncio de um conjunto de melhorias que se têm vindo a realizar, ou que o foram ultimamente. Estas constarão de uma notícia da newsletter mensal da Casa de Saúde da Boavista (que pode ser consultada em www.csaudeboavista.com/csb360) e de uma publicação em redes sociais. Mas, porventura para os mais curiosos, é possível adiantar que nelas se incluem o alargamento do período da consulta e a aquisição de instrumental de bloco. De resto, já são quatro anos… mas são só quatro anos! Há muito a aprender e existirão sempre aspetos de melhoria e, espera-se, que seja sempre assim.

Tiago Fonseca

Que balanço faz destes quatro anos de atividade? Há algum feito do qual se orgulhe particularmente?

A caminhada não tem vindo a ser propriamente fácil… Mas, não é premissa sine qua non para um maior regozijo pelo caminho já percorrido? Acredito que a base para um crescimento sustentável é um crescimento sustentado. A implementação de uma estrutura nova e inovadora no País requeria dedicação, implicava ultrapassar resistências. Mas isso, ao fim e ao cabo, já se sabia de início. Portanto, o primeiro e principal feito que me satisfaz é o de ter conseguido – sem qualquer tipo de ajuda, importa frisar – montar esta atividade assistencial diferenciada que, como se tem vindo a constatar, preencheu uma lacuna fulcral na oferta de cuidados de saúde a um grupo importante de doentes: aqueles com patologia salivar.

Sendo mais específico, salvo muitas glândulas salivares, por exemplo. Literalmente, sem aspas!

A glândula submandibular é, sem dúvida, a mais atingida pela desinformação, pela não atualização dos conhecimentos e das técnicas dos cirurgiões. E a causa (também ela quase exclusiva)? Litíase, ou seja, um cálculo, uma “pedra”. Vejamos… Ninguém pensa na exérese de um rim por nefrolitíase, pois não? Então porquê fazê-lo numa glândula salivar? Apenas porque é uma “mera” glândula salivar? Se o princípio da patologia – e do tratamento! – é o mesmo, porquê ter atitudes diferentes? Na Clínica de Glândulas Salivares, tratam-se as glândulas salivares: nem se vão seguindo os problemas, sem qualquer tipo de atuação, nem se removem as glândulas, como se não houvesse mais nada a oferecer.

Mas a glândula parótida também é alvo da tradição, do que se costuma fazer desde há 50 anos. Aqui já ninguém pensa em extirpar a glândula por um mero cálculo; todos têm respeito pelo nervo facial. Mas, no que diz respeito a tumores benignos, a conservação da glândula é remetida para último plano. E porquê? Porque não se conhece a história da cirurgia de tumores da parótida, porque se está preso ao passado, porque não se acompanha o desenvolvimento da medicina. Uma vez mais, na Clínica de Glândulas Salivares as glândulas salivares são tratadas: nem se acompanha apenas o curso natural da doença, com uma mera atitude expectante, nem se agridem as glândulas, retirando apenas o que é necessário.

Ao longo deste período, quais foram os principais desafios e quais são aqueles que enfrentam neste momento?

No seguimento da pergunta/resposta anterior, um dos principais desafios, e também um dos principais objetivos, é a sensibilização para a existência das doenças que atingem as glândulas salivares. De outro modo, para a incidência e para a prevalência das entidades nosológicas, locais ou sistémicas, que afetam as glândulas salivares. Os problemas das glândulas salivares não são raros: encontram-se, sim, dispersos e subdiagnosticados. Ora, essa sensibilização deve começar pelos profissionais de saúde, especificamente por dois grupos: os que, potencialmente, mais podem identificar – médicos de família e médicos dentistas; e os que, concretamente, melhor podem tratar – médicos da área da cabeça e pescoço.

Para tal, têm-se vindo desenvolver algumas ações de formação focadas na temática. Em 2016, a Conferência em Glândulas Salivares foi direcionada para os médicos hospitalares; em 2018, a Atualização em Glândulas Salivares foi construída de e para os estomatologistas; e em 2020, a Patologia Salivar e Medicina Geral e Familiar, como o próprio nome indica, foi formulada para os médicos de família. E em 2022? Sim, está a ser pensado evento análogo para os dentistas. É, claro, qualquer formação é aberta a quem tenha interesse na área. Como já aconteceu, mesmo doentes! Em última instância, é para os doentes, potenciais ou atuais, que esta sensibilização faz sentido: é para diagnosticar e tratar mais e melhor.

Outro desafio, que se mantém, está relacionado com a técnica de sialoendoscopia. Desde logo, pela compreensão que mais não é do que a visualização do interior dos canais salivares; e pela interiorização que, no princípio e no fim, não é diferente de uma uretro/cisto/ureteroscopia, de uma naso/broncofibroscopia ou de uma endoscopia digestiva alta/colonoscopia. A endoscopia salivar já tem décadas em certos centros europeus, embora em Portugal ainda seja relativamente recente. E isso cria dificuldades de aceitação, de indicação e de realização. Com afinco e perseverança, a mudança de mentalidades para aquilo que sempre foi a medicina – fazer mais e melhor – acabará por vingar. A bem dos doentes!

De que forma é que têm sido afetados pela pandemia?

A pandemia foi responsável por uma quebra na procura. Aliás, como em qualquer outro serviço de saúde. Mas também pelas alterações levadas a cabo pela Casa de Saúde da Boavista, a retoma fez-se gradualmente. A pandemia veio alavancar a teleconsulta. A disponibilização deste serviço, como em outras áreas de atividade, possibilitou a manutenção de um nível basal de consultas. E como existem doentes da Clínica de Glândulas Salivares que são de longe (de Viseu, da Guarda, de Castelo Branco, de Lisboa, de Évora), alguns do estrangeiro até (de Angola, de Moçambique, da Irlanda, do Brasil e do Dubai), a hipótese de realização de consulta à distância, por vídeoconferência, acabou por potenciar o serviço que é prestado.

Seja na facilitação de uma primeira avaliação, seja na agilização de um seguimento clínico, a teleconsulta passou a ser uma mais-valia para vários doentes. Mas como a atividade nesta área do conhecimento é específica e a estrutura que a suporta é diferenciada, as pessoas continuaram – e continuam – a procurar a Clínica de Glândulas Salivares… e a vir de longe. Portanto, a pandemia veio trazer uma oportunidade, bem aproveitada. De resto, imperam todos os protocolos transversais a uma qualquer consulta ou cirurgia, aos quais se somam os equipamentos de proteção individual específicos para quem a sua atividade de rotina é o local de maior risco de infeção: a cavidade oral.

Que objetivos esperam alcançar a curto-médio prazo?

Em tempos disse: “Se souberem que existimos, passamos a ser opção.” Essa frase tinha implícita a necessidade de divulgação da atividade que é desenvolvida na Clínica de Glândulas Salivares. E esse era um dos objetivos a curto prazo, um objetivo a cinco anos. Mantém-se, e manter-se-á sempre, esse objetivo.

Mas, pensando num horizonte temporal mais distante, há também certos objetivos. Esperamos consolidar-nos como opção no âmbito: da litíase (i.e., cálculos) e do seu tratamento conservador, por sialoendoscopia; das neoplasias benignas (ex.: adenoma pleomórfico, tumor de Whartin) e da sua abordagem minimamente invasiva, através de dissecção extracapsular; da síndrome parotídeo-masseterina (dismotilidade masseterino-bucinadora) e da parotidite juvenil recorrente, integradas com as áreas da disfunção temporo-mandibular e das alterações da oclusão dentária; da síndrome de Sjögren (síndrome sicca) e de outras doenças sistémicas que afetam as glândulas salivares, também em articulação com os saberes da reumatologia e da medicina interna e, por fim, da xerostomia (boca seca) “geral”, a maioria por alterações qualitativas – e não quantitativas – da saliva, muitas vezes associadas a sialodoquite, com ou sem alterações conformacionais dos canais salivares.

E há que pensar sempre nos doentes “perdidos”, ou seja, nas pessoas que há anos andam sem diagnóstico ou problema controlado, que já recorreram a “n” especialidades ou já experimentaram “n” tratamentos. É também para estes que o pensamento de melhoria constante faz avançar o projeto.

De que forma é que a perceção destas patologias está a mudar tanto na comunidade médica como entre os pacientes?

Vivemos num mundo em que o acesso à informação nunca esteve tão facilitado. Praticamente em qualquer lugar, com algo que quase todos têm, é possível procurar virtualmente tudo. Isso aplica-se aos profissionais de saúde, mas também à população em geral. E aplica-se à patologia salivar. As glândulas salivares estão, a pouco e pouco, a tornar-se cada vez mais visíveis. Seja através da sensibilização da comunidade científica, por ações de formação ou informação dirigida, seja pela disponibilização de conteúdos temáticos, acessíveis por qualquer pessoa que os procure na Internet e/ou redes sociais.

Sabe-se que os utilizadores das várias redes sociais têm perfis diferentes. Daí apostar-se na utilização simultânea de algumas delas, fornecendo, para já, o mesmo tipo de matéria. De momento, marcamos presença no Facebook (facebook.com/tiagofonseca.estomatologia e facebook.com/glandulas.salivares), no LinkedIn (linkedin.com/in/gl%C3%A2ndulas-salivares-42a436b8) e no Instagram (instagram.com/tiagofonseca.estomatologia). No futuro, pretende-se abraçar também o YouTube e dar a conhecer a atividade com ligeiras variações, tentando uma melhor adequação aos vários usuários.

Ainda assim, a aposta na divulgação centra-se nas especialidades que, pelo número de profissionais, mais contacto têm com a boca e com as glândulas salivares: a medicina dentária e a medicina geral e familiar. Os médicos dentistas e os médicos de família estão na linha da frente na prevenção e identificação das doenças salivares e na gestão de episódios agudos e ulterior referenciação dos problemas destes órgãos. Desempenham, por isso, um papel fulcral também na perceção que a população em geral tem destas patologias. Sobretudo para eles, podem também visitar a página tiagofonsecaestomatologia.pt.

Que novidades podemos esperar da Clínica de Glândulas Salivares no futuro?

A Clínica de Glândulas Salivares irá manter-se sempre fiel ao princípio que para bem tratar há que melhor diagnosticar. Para tal, esperamos melhorar a transdisciplinaridade com áreas da medicina (medicina interna, reumatologia e oncologia), da medicina dentária (disfunção temporo-mandibular, ortodontia e periodontologia), dos exames complementares (imagiologia, anatomia patológica e patologia clínica) e paramédicas (nutrição, psicologia e fisioterapia). Em algumas já se encontram profissionais sensibilizados e motivados; em outras… para lá se caminha e lá se chegará.

Pensa, é grátis! é o título de um livro que, de vez em quando, é refolheado. Outras ideias não faltam, mas, para já, porque o fruto ainda é verde, é preferível um caminhar passo a passo. Divulgações, formações, publicações… serão considerações a seu tempo. A fasquia será colocada sempre onde se sabe a priori que o obstáculo será inultrapassável: assim, simultaneamente, se cultivará a exigência e se compreenderão as falhas. É particularmente feliz a afirmação de Aristóteles: «Somos aquilo que fazemos consistentemente; assim, a excelência não é um ato, mas um hábito.”

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