Clínicas Dentárias

Assistente dentário: uma profissão para mulheres?

Assistente dentário: uma profissão para mulheres?

E se entrasse no consultório do seu dentista e a assistente fosse, afinal, um homem? A profissão de assistente dentário não é exclusiva das mulheres, mas são sobretudo elas que vemos nas consultas, nos anúncios dos cursos existentes no mercado e que celebramos…no Dia da Assistente Dentária (28 de julho). Em antevisão do dia em que se celebra a Mulher, fomos falar com os homens que trabalham num mundo que é dominado por elas. 

São eles que garantem a preparação prévia do material a utilizar nas consultas dentárias, que acompanham o paciente e que auxiliam o médico dentista durante os procedimentos médicos. Mas, apesar de a profissão não ser vedada aos homens, é raro encontrar algum a desempenhá-la. A SAÚDE ORAL conheceu três que nos contaram como é ser homem numa profissão associada a mulheres. 

Cristóvão Leal Couto tem 29 anos e é assistente dentário na Clínica Cristina Marinhas, em Pombal. Criou o blogue O Assistente Dentário para partilhar dicas e informações relacionadas com a saúde oral e as funções de assistente dentário, mas há um tema que ainda carece de esclarecimento: ser assistente dentário não é coisa só de mulheres. 

Cristóvão Leal Couto

A área da saúde nunca esteve nos seus planos profissionais e, na altura em que a ideia de se tornar assistente dentário surgiu, estava a frequentar uma licenciatura em Engenharia da Energia e do Ambiente. 

“Vinha da área da engenharia, mas surgiu uma oportunidade de emprego na clínica onde era seguido e decidi experimentar. Foi uma forma de ajudar a combater a minha fobia de dentistas. No entanto, à medida que fui conhecendo a área fui-me interessando cada vez mais e acabei por me envolver tanto que, neste momento, não penso em mudar”, recorda. 

“Desde que seja um bom profissional, é indiferente que seja homem ou mulher”
Iniciou-se na profissão em 2014 e desde então tem vindo a investir na sua formação, mas conta que nas várias formações e congressos em que participa é, quase sempre, o único homem. “Em formações sempre fui o único homem presente, mas em congressos, nomeadamente, da Ordem dos Médicos Dentistas, vou encontrando um ou outro colega.”

Não consegue justificar o facto de a profissão estar tão associada às mulheres e existirem poucos homens a exercer, mas aponta o conservadorismo da sociedade como uma das possíveis razões. “Talvez a nossa sociedade ainda continue um pouco conservadora e, por isso, ainda se sintam alguns estereótipos ligados a algumas profissões. Sendo uma profissão com história e tradição assumida pelo género feminino, penso que seja esse o fator que influencia o género tanto na procura como na oferta de novos profissionais”, afirma. Por outro lado, acha que há homens “que ainda têm receio em assumir a profissão.” 

Basta uma pequena pesquisa na Internet para perceber que as ofertas de trabalho na área dizem, na sua maioria, “Procura-se Assistente Dentária”, mas Cristóvão Leal Couto não acredita que seja isso que exclua os homens. 

“Não creio que isso coloque logo de parte os homens. Nós ainda temos tendências conservadoras e tradicionais. Portanto será por tradição que a procura e a oferta tenda para o género feminino, mas não significa que a oportunidade se exclua para o género masculino”, defende. 

O assistente dentário diz também nunca ter sentido qualquer tipo de discriminação por ser homem numa profissão muito associada às mulheres. “Pelo contrário! Sempre me senti bastante integrado e apoiado, não só pela minha equipa de trabalho, à qual devo agradecer imenso a forma como me acolheram, mas por todos os colegas de profissão que fui conhecendo ao longo destes anos. Quanto aos pacientes, talvez no início tenha sentido algum desconforto, por não ser habitual serem assistidos por um homem. No entanto, nunca senti discriminação ou preconceito e, com o tempo, esse desconforto foi ultrapassado”, conta. 

“Gostava que as pessoas não se importassem com isso [género] porque, para mim, desde que seja um bom profissional, é indiferente que seja homem ou mulher”, conclui. 

André Policarpo, com 29 anos, também é assistente dentário. Depois de terminar o ensino secundário passou por um call center e por um armazém de medicamentos, onde despertou pela primeira vez o seu interesse pela área da saúde. 

André Policarpo

“Quando estava a trabalhar no armazém tive a oportunidade de tirar um curso de técnico de farmácia, comecei a estagiar numa farmácia e gostei bastante. Acho que é uma excelente profissão, mas comecei a sentir que podia ser mais ativo e ajudar as pessoas de outra forma. Na escola onde tirei o curso de farmácia havia também o curso de assistente de medicina dentária e pensei: ‘Porque não?’. E arrisquei”, conta. No curso, com um total de 20 formandos, apenas dois eram homens. 

Em 2015 abraçou pela primeira vez a nova profissão e em 2016 começou a trabalhar na White Clinic, onde diz ter sido sempre bem recebido pelas colegas, todas mulheres. “Com os pacientes sempre que os chamava para o consultório começavam a olhar com desconfiança […]. Sempre levei isso com boa disposição e às vezes brincava com a situação.”

“De facto não existem muitos homens a trabalhar como assistentes dentários. Há alguns médicos dentistas, técnicos de prótese, mas assistentes não. Acho que tem que ver um pouco com o estigma que ainda existe de que certas profissões são só destinadas a homens e outras para mulheres […]. Mas nunca me senti descriminado nem alvo de preconceito, candidatei-me a duas ofertas de emprego na área e, de facto, diziam para assistente dentária, mas mesmo assim arrisquei e das duas vezes fui selecionado”, conclui. 

“Quando vamos a entrevistas [de emprego] é sempre uma novidade”
João Pedro Silva, assistente dentário na Malo Clinic do Funchal, já sentiu diversas vezes o olhar de surpresa por verem um homem numa posição associada a mulheres. Hoje com 32 anos, iniciou-se na profissão em 2011, altura em que fazia um part-time numa clínica dentária como ajudante de técnico de prótese dentária. “Um dia a assistente faltou e eu, mesmo sem saber nada, tive de ir para o gabinete dar assistência porque as consultas não podiam ser canceladas. A partir daí o gosto foi crescendo e o meu chefe inscreveu-me no Curso de Assistente Dentária da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Tirei um curso profissional de três anos e entrei na Malo Clinic, na altura em Lisboa”, conta. 

João Pedro Silva

Questionado sobre o facto de a profissão estar associada às mulheres, João Pedro Silva diz que a primeira assistente no mundo foi uma mulher. “Acho que desde aí tomam esta profissão como ‘feminina’, assim como futebolista é uma profissão associada ao homem. Mas também há mulheres que jogam melhor que os homens e também há homem assistentes muitos bons. Mas somos realmente pouquíssimos nesta profissão.”

Homens nem sempre querem ser atendidos por assistentes homens
O assistente dentário acredita também que o maior estigma é aquele que as pessoas colocam sobre si próprias. “Nem todos os homens gostam de estar numa profissão conotada como ‘feminina’. Talvez achem que isso possa ferir o ego. Não vejo isso nesses modos”, afirma.

Apesar disso, nunca teve problemas em encontrar trabalho na área, mas diz que já sentiu surpresa no olhar de quem o vê entrar. “Penso que a maior parte dos diretores de clínicas ou recursos humanos nunca tenha trabalho ou recrutado um assistente dentário homem, logo nem sabem que existem na área. Quando vamos a entrevistas é sempre uma novidade.”

Por outro lado, conta episódios menos felizes com “homens que se recusaram a ser atendidos por mim, por ser assistente homem”, uma situação cada vez mais “rara” porque “a sociedade portuguesa está a evoluir.”

João Pedro Silva assume ainda que gostava de ver mais homens abraçarem a profissão, até porque “não é fácil passar o dia inteiro rodeado de mulheres”, conta em jeito de brincadeira. E aponta algumas soluções: “Fazer a publicidade protagonizada por assistentes homens, por exemplo, pode ser um grande passo. Dar a conhecer a profissão de assistente dentário do ponto de vista do homem, mostrar que é uma profissão como qualquer outra na área da saúde e que pode ser levada a cabo, tanto por homens como por mulheres.”