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Dentistas Portugueses pelo Mundo

“As condições aqui nem sempre são as melhores, por isso entendo a escolha de tentar a sorte noutro país”

Ana Góis Sá, médica dentista e voluntária da Mundo A Sorrir

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área? 

Costumo dizer que a medicina dentária é que me escolheu, porque nunca pensei em seguir esta área. Acabou por surgir na minha vida, e eu abracei. Terminei o Mestrado Integrado em Medicina Dentária em 2016, e nos dias de hoje faço prática de médica dentista generalista.

Como é que começou a sua colaboração com a Mundo A Sorrir?
 

A minha colaboração com a Mundo A Sorrir começou em outubro 2020 no Centro de Apoio à Saúde Oral do Porto. Comecei por assistir e auxiliar os médicos dentistas da equipa para perceber o seu método de trabalho. Desde aí foi percetível a dimensão do trabalho médico-dentário e apoio prestado às pessoas mais vulneráveis a nível socioeconómico. É uma sensação fantástica ver até onde a Organização consegue ajudar e contribuir para o acesso a cuidados de saúde oral no País. Em janeiro 2021, embarquei numa missão para a Guiné-Bissau.

Quando é que surgiu a oportunidade de iniciar o voluntariado na Guiné-Bissau?

Surgiu no início do ano 2020 quando percebi que a Mundo A Sorrir andava à procura de um médico dentista para a Guiné-Bissau. Inicialmente surgiram alguns entraves à minha decisão de ir, mas em janeiro de 2021 estava a chegar à Guiné-Bissau.

 

“Durante a minha missão fiquei bastante surpreendida porque apercebi-me que a população estava consciente de que se sentir dor num dente não significa que tenha de o extrair. Esta mudança de mentalidade é muito importante para o desenvolvimento do nosso trabalho, visto que facilita a sensibilização para a criação de hábitos de higiene oral”

Fale-nos do projeto em que esteve inserida…

Eu desenvolvi várias atividades, desde prevenção à capacitação dos profissionais e assistência médico dentária, entre outras, que não estão diretamente ligadas com a minha área, mas são necessárias para a concretização dos projetos. O grande foco está no trabalho médico-dentário que tem vindo a ser desenvolvido na Clínica Social Mundo A Sorrir, sediada em Bissau. Na clínica realizamos tratamentos médico-dentários à população que nos procura. O nosso público-alvo são as pessoas socioeconomicamente desfavorecidas, no entanto, também recebemos pessoas de diferentes estratos sociais, que nos procuram para os mais diversos tratamentos. Durante a minha missão fiquei bastante surpreendida porque apercebi-me que a população estava consciente de que se sentir dor num dente não significa que tenha de o extrair. Esta mudança de mentalidade é muito importante para o desenvolvimento do nosso trabalho, visto que facilita a sensibilização para a criação de hábitos de higiene oral.

 

Também participei no projeto ‘Reforço dos serviços de nutrição e da capacidade de gestão integrada dos Centros de Saúde dos Setores de São Domingos e Bigene – Região de Cacheu’, financiado pelo Camões, I.P. e Unicef Guiné-Bissau. Deslocávamo-nos aos diferentes centros de saúde para realizar ações de sensibilização, rastreios orais e tratamentos dentários às mulheres grávidas e crianças.  Em cada centro de saúde, organizávamos uma sala para realizar os rastreios orais de forma a averiguar quem tinha necessidade de tratamento dentário para ser reencaminhado para o tratamento.

 

Na sala de espera, nestes casos estamos a falar de espaços abertos em frente ao centro de saúde, eram realizadas ações de sensibilização sobre o que era a cavidade oral, a sua importância e funções e como manter hábitos de higiene oral.

Nas ilhas de Uno e Formosa, onde a Mundo a Sorrir trabalha há muitos anos com um parceiro local, a Missão Semide, para a promoção da saúde oral, realizei rastreios e tratamentos dentários junto da comunidade.

No Hospital Simão Mendes, realizámos ações de capacitação aos técnicos de saúde oral da Guiné-Bissau, no âmbito do projeto “Saúde A Sorrir: Educação para a Saúde”, financiado pela Direção-Geral da Saúde e International College of Dentists. Foram quatro dias intensivos a rever, a aprender e a partilhar conhecimento na área da medicina dentária.

Como está a correr a experiência e que desafios tem enfrentado?

Está a correr bem. Não foi fácil e continua a não ser. Não digo isto de forma desmotivadora, muito pelo contrário. É algo positivo. É preciso abraçar esta oportunidade com uma mentalidade e um espírito aberto, porque vamos inserir-nos numa comunidade com uma cultura muito própria e com hábitos diferentes dos nossos. Como tudo na vida, há dias bons e dias menos bons, mas isso é normal. O segredo é ultrapassar as dificuldades com força e motivação e abraçar cada dia com um sorriso. A integração na comunidade e o envolvimento com os seus hábitos e cultura são fundamentais para que nos recebam de braços abertos.

Desafios? Bem, são vários. O calor e a humidade são aqueles que não me habituo mesmo após seis meses a viver no país. Nem sempre ter a possibilidade de tomar banho de chuveiro, embora que tomar banho de caneca é uma experiência fantástica na verdade.

Os picos de eletricidade que existem e obrigam a ter imenso controlo do material que temos ligado à corrente. Toda a logística de lidar com os pequenos contratempos da clínica.

Como é o seu dia-a-dia lá?

Durante a semana, começo as consultas na clínica às 8h e termino às 17h. Depois do trabalho, depende das tarefas que tiver para fazer, do humor e do cansaço. Algumas vezes fico na clínica a tratar do material e, outras vezes, mantenho-me pela Missão Semide, um dos nossos parceiros locais, no “djumbai”, convívio. Também costumo ir à praça passear e conviver. Sempre que a internet permitia, aproveitava para ver Netflix.

Sei que ainda vai voltar em setembro. Mas até agora, quais foram as maiores lacunas que encontrou no que diz respeito à saúde oral?

Acho que a principal lacuna é o facto de não existir um sistema que apoie os técnicos de saúde oral, nem cursos que permitam a sua evolução e atualização de conhecimentos. Não existindo pilares de apoio e crescimento para esta área, a partir daí tudo se torna complicado. É como uma casa que vamos construir sobre um terreno de lama e sem nunca realizar os pilares de suporte. Até podemos conseguir construir a casa, mas eventualmente vai acabar por ser deitada abaixo. Não têm um forte sistema de saúde, que impede a criação de estratégias de saúde oral sólidas. Não há acesso a materiais dentários, nem dos mais básicos. Os técnicos de saúde oral trabalham em regiões que não têm acesso a gabinetes médico-dentários equipados onde possam ver e detetar alguns problemas orais.

Sente que cumpriu a sua missão até agora? O que espera dos próximos meses?

Difícil pergunta de responder. Não sei bem. Sinto que fiz um bom trabalho, cometi alguns erros pelo caminho, mas sei que consegui ajudar a população. E sei, de coração, que ainda posso fazer mais. E quero!

Tenho a confiança de que os próximos meses correrão melhor. Já estou mais habituada aos improvisos, ao clima e população, e isso ajuda imenso. Já sei com o que posso contar, ou não. Sei que irá correr bem!

Que conselhos dá a quem também queira passar pela mesma experiência?

É aquela experiência que toda a gente deveria passar. Nem que seja por quinze dias. Não falo somente por experiência profissional, mas igualmente pelo crescimento pessoal. É ter um pouco do conhecimento de como é viver numa outra cultura e realidade. Tudo aquilo que temos, e ainda achamos pouco, para muitos já é uma alegria. Damos muita coisa por garantida, e outros não sonham nem um terço do que temos a hipótese de possuir. Tudo isto é voluntariado. Apoiar quem mais precisa, partilhar conversas e conhecimento. Abraçar o outro e entendê-lo. Não há melhor experiência que esta. Aconselho! Ter “o cérebro e coração” alinhados para o mesmo e simplesmente ir.

Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo?

Infelizmente, continuam a sair milhares alunos dos cursos de medicina dentária, e falo isto contra mim, para ocupar lugares que deixaram de existir há anos. Não há controlo no número de clínicas que decidem abrir. Mestres em medicina dentária acabam os seus cursos e decidem logo ir trabalhar para outros países. As condições aqui nem sempre são as melhores, por isso entendo a escolha de tentar a sorte noutro país.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 140 da revista SAÚDE ORAL, de setembro-outubro de 2021.

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