Quantcast
Saúde Oral

Ansiedade e medo: estratégias para tornar a ida ao dentista positiva

ansiedade medo

A deslocação a um consultório médico dentista pode ser sinónimo de alguma ansiedade e até mesmo medo. Estes são sentimentos que os médicos dentistas estão conscientes de que existem e que cada vez mais trabalham para os atenuar e tornar este momento numa experiência positiva.

Ao longo dos anos, muitos são os trabalhos desenvolvidos que revelam como uma deslocação ao médico dentista pode ser stressante, provocando ansiedade e até mesmo medo, um fenómeno conhecido como odontofobia. Estes dois sentimentos podem inclusive ser causa para condicionar as deslocações ao médico dentista, contribuindo assim para uma má saúde oral. Os pacientes que sofrem de medo e ansiedade adiam os tratamentos, recorrendo ao dentista muitas vezes já em situações limite quando há dor envolvida.

Principais fatores da ansiedade dentária:

  • Características da própria personalidade;
  • Medo da dor;
  • Experiências dentárias traumáticas passadas, particularmente na infância (experiências condicionantes);
  • A influência de familiares ou pares dentalmente ansiosos que despertam o medo na pessoa (aprendizagem vicariante);
  • Medo de sangue e feridas.

Fonte: Medo e Ansiedade Dentária: uma realidade, Ana Catarina Macedo da Silva

O estudo Why are people afraid of the dentist? – Observations and explanations, publicado em 2013 no jornal Medical Principal and Practice, revela que a ansiedade afeta 36% das pessoas quando se dirigem a um consultório de medicina dentária e 12% das pessoas sofrem mesmo de medo extremo. O mesmo trabalho indica que a origem destes sentimentos é multifatorial e complexa. Neste mesmo estudo foi verificado que muitos dos pacientes que têm estes sentimentos sofreram no passado, muitas vezes na infância, experiências traumáticas, desencadeando assim este medo de ir ao médico dentista.

Contudo, Ana Catarina Macedo da Silva, no seu estudo Medo e Ansiedade Dentária: uma realidade, de 2012, refere que “Kent (cit. in Frias-Bulhosa, 1996) considera que a ansiedade dentária envolve não só alterações fisiológicas e de comportamento, mas também convicções e pensamentos acerca dos tratamentos. Os aspetos cognitivos de stresse dentário prendem-se com pensamentos expectantes por parte dos pacientes mais negativos do que na realidade acabam por experimentar”.

Estes estados de espírito começam muitas vezes logo na sala de espera. Ana Catarina Macedo da Silva escreve que “os pacientes mencionaram frequentemente o tempo de espera para um tratamento dentário como um fator provocador de ansiedade, já que aumenta o tempo em que se pode pensar sobre o que se passará ou poderá passar-se e interiorizar possibilidades de alcançar os piores resultados”.

Por isso, estratégias como ter uma sala de espera acolhedora e tempos de espera curto ajudam a minimizar estes impactos. Assim, como uma relação de empatia entre o médico e o doente. “O médico dentista, ao adotar uma atitude que permita desenvolver uma relação de confiança, deve garantir uma situação de tratamento calma, segura e com a preocupação de disponibilizar todas as informações ao paciente sobre os procedimentos a realizar”, descreve Ana Catarina Macedo da Silva.

Joana Ramalho – Médica dentista na clínica Angel Smile

Na prática clínica, os médicos dentistas convivem diariamente com estas situações.

António Pedro Silva, odontopediatra, a exercer em Antuérpia, na Bélgica, comenta que “o medo e a ansiedade são relativamente comuns em medicina dentária. Muitos tratamentos são invasivos, causam desconforto ou até mesmo dor, por isso, o medo é considerado normal e racional”. A médica dentista, Joana Ramalho, a exercer na clínica Angel Smile, tem opinião semelhante: “o medo da consulta de medicina dentária é uma realidade ainda muito presente na nossa sociedade atual”, mais acrescentando que “a partilha de experiências menos positivas são a maior causa desta ansiedade e nervosismo, normalmente fruto de intervenções traumáticas anteriores”.

António Pedro Silva – odontopediatra em Antuérpia, na Bélgica

António Pedro Silva defende que “o médico dentista pode e deve prevenir, identificar e intervir de forma a promover a saúde oral dos seus pacientes”. Pela sua experiência, o odontopediatra, considera que “na grande maioria das vezes, a ansiedade dentária tem a sua origem na realização de tratamentos durante a infância. Tratamentos esses que representaram para a criança uma experiência de elevada dificuldade para a sua capacidade de processamento cognitivo, emocional e comportamental”. Especializado no tratamento pediátrico, António Pedro Silva comenta ainda que “as crianças são geralmente mais ansiosas que os adultos pala natureza das etapas de desenvolvimento humano. Os pais desempenham assim um papel fundamental na modulação do medo e também na forma de comportamento. As competências parentais; o estilo parental, assim como, a ansiedade dentária e as expectativas dos pais em relação à sua criança e à realização de tratamentos dentários serão determinantes para a criança e a sua ansiedade no dentista”.

Joana Ramalho partilha quais são para si os quatro fatores fundamentais para ajudar os pacientes a ultrapassar esta dificuldade: “aromaterapia, ambiente, entretenimento e relações interpessoais”. Estas são algumas das técnicas utilizadas na Angel Smile onde exerce medicina dentária. Joana Ramalho pormenoriza ainda que “está comprovado que a aromaterapia consegue tranquilizar e relaxar. O aroma da sala de espera deve ser leve e agradável, uma difusão de óleos essenciais que estimulam a produção de hormonas que nos ajudam a acalmar e sentir bem. O ambiente que nos rodeia tem uma influência direta no nosso estado de espírito. Uma clínica dentária deverá ser um espaço confortável e luminoso, com luz quente e harmoniosa. A temperatura deve ser amena e a decoração agradável”. Também António Pedro Silva refere a importância do “ambiente dentário para prevenir ou diminuir a ansiedade, pois o conforto do espaço, as cores, os cheiros e os sons são elementos de comunicação importantes para o paciente a par claro de um atendimento humanizado por parte de toda a equipa”.

Manter sempre uma boa comunicação

  • Perguntar ao paciente se está bem, se tem alguma questão a colocar;
  • Manter sempre uma atitude de empatia, amável, próxima e profissional;
  • Informar o paciente sobre todos os procedimentos e esclarecer todas as dúvidas;
  • Ter sempre em atenção os medos do paciente, não os desvalorizar;
  • Sempre que possível informar o paciente de como pode comunicar que precisa de uma pausa durante o procedimento.

Joana Ramalho explana ainda que “o ideal é que o nosso paciente se sinta como na sua própria casa: confortável, protegido e aconchegado. Idealmente o paciente deve permanecer na sala de espera o mínimo de tempo possível, mas durante esse período, é extremamente importante que se mantenha ocupado e abstraído. Dispor de wi-fi, sala de brinquedos para as crianças, televisão e revistas é recomendado, assim como uma música ambiente calma e tranquilizante. O objetivo é evitar que o foco do paciente esteja na consulta”. Por fim, na sua ótica considera que “as relações interpessoais são o aspeto mais importante”, destacando que “criar laços de confiança é um trabalho por vezes demorado e que requer paciência”. Joana Ramalho defende, por isso, que “é fundamental que o paciente se sinta apoiado e compreendido em relação ao seu medo, que saiba que é uma situação que vai conseguir ultrapassar”. Por fim, a especialista considera que “os médicos dentistas estão perfeitamente preparados para lidar e ajudar os seus pacientes a ultrapassar estes receios. O nosso discurso deverá ser sempre de positivismo e de confiança no nosso trabalho”.

No estudo de Ana Catarina Macedo da Silva é referido que “o controlo da ansiedade dentária inicia-se na avaliação clínica e anamnese, onde o profissional deve conhecer o seu paciente, avaliar o seu perfil psicológico, estabelecer uma relação de confiança e, quando julgue necessário, aplicar algum instrumento psicométrico para melhor planear o atendimento”. No mesmo documento lê-se ainda que “o profissional de saúde necessita ter consciência de que o seu paciente não é somente boca, que, quando o paciente está sob intervenção dentária, ele é um sujeito que traz uma série de temores e esperanças. Com explicações simples, ao alcance do entendimento dos pacientes, o médico dentista pode desmistificar o tratamento dentário e com isso diminuir o clima de ansiedade (Bottan et al., 2007)”.

Idade, economia e género

Uma classe social economicamente mais debilitada apresenta, recorrentemente, níveis de ansiedade dentária maiores, resultado de uma bola de neve que agrupa várias circunstâncias. Por vezes, há ausência de hábitos de higiene e saúde e um baixo nível de escolaridade. O recurso ao médico dentista ocorre em situações agudas extremas o que faz aumentar ainda mais a ansiedade, uma vez que muitas vezes o profissional de saúde tem de recorrer a técnicas invasivas. No estudo Medo e Ansiedade dentária: uma Realidade é descrito que “a relação entre baixos recursos económicos e deficiente assistência e cuidados na saúde oral induz a decadência do estado dentário destes indivíduos, proporcionando uma ansiedade acrescida, tendo em vista o constrangimento social e psicológico intrínseco a esta circunstância (Locker, 2003; Lopes, 2005)”.

Os mais novos são a população que mais medo revela nas deslocações ao médico dentista. As crianças revelam mais ansiedade do que o adulto e nos jovens esta condição pode estar já relacionada com experiências menos positivas que já tenham vivido. Contudo, o avançar da idade parece atenuar a odontofobia. Para Ana Catarina Macedo da Silva este atenuar ou mesmo desaparecimento da ansiedade e medo no médico dentista com a idade “acontece porque os mais idosos estão expostos a um leque variado de patologias médicas, bem mais invasivas e dolorosas do que o tratamento dentário e a experiência que adquirem permitem-lhes enfrentar a ansiedade pela habituação aos níveis de dor e exposição a muitas outras sensações que acabam por aceitar o tratamento dentário com passividade (Bottan et al., 2007; Hagglin et al., cit. in Maniglia-Ferreira et al., 2004; Souza et al., 2005; Humphris et al., 2009; Udouye et al., cit. in Chaves et al., 2006).

Relativamente ao género, os estudiosos deste tema não registam diferenças acentuadas, embora as mulheres possam transparecer mais do que os homens os receios na hora de visitar o médico dentista.

Medidas a adotar perante um paciente ansioso

  • Dar tempo suficiente para a consulta dentária;
  • Minimizar fatores que provoquem ansiedade, como modificar a configuração do consultório, a assistente dentária deve colocar os instrumentos onde não se veem ou mantê-los cobertos, colocar na sala de tratamento uma fragância para reduzir o aroma clínico;
  • Introduzir métodos de relaxamento;
  • Fornecer um controlo adicional durante o procedimento;
  • Usar técnicas de distração, como música com auscultadores, óculos para vídeos, óculos para ver a realidade virtual (especialmente em adultos);
  • Anestesiar de forma mais eficiente ou usar métodos complementares, como injetores peristálticos, cremes tópicos e estimulação nervosa transcutânea;
  • Remeter para especialistas cognitivos ou de comportamento ou psicólogos para manipular a ansiedade e terapias de comportamento;
  • Dar sedação consciente usando agentes farmacológicos.

Fonte: Medo e Ansiedade Dentária: uma realidade, Ana Catarina Macedo da Silva

 

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 136 da revista SAÚDE ORAL, de janeiro-fevereiro de 2021.

Este site oferece conteúdo especializado. É profissional de saúde oral?