Médicos dentistas

Acha que sabe tirar fotografias?

A fotografia digital é hoje em dia essencial na medicina dentária, mas para se conseguir a(s) fotografia(s) ideal(is) para o caso em questão, é preciso “ciência”. A SAÚDE ORAL falou com vários profissionais que nos explicaram como fazê-lo e que tipo de equipamento usar.

“[A fotografia] só trouxe benefícios para a medicina dentária, tanto para nós, médicos dentistas, como para os próprios pacientes”, garante Hugo Madeira, CEO da Clínica de Implantologia Avançada – Hugo Madeira Clinic. “São essenciais para o estudo dos casos clínicos e para o planeamento do tratamento, uma vez que permitem definir o resultado final do procedimento de forma mais precisa.” Para o médico dentista, são ainda fundamentais em situações em que é necessária a intervenção de diversas áreas, por forma a “definir um tratamento multidisciplinar”, acrescenta.

A fotografia digital veio ainda melhorar a comunicação com o laboratório, pois “deixou de existir apenas uma prescrição numa folha sobre o trabalho pedido ao laboratório”, salienta Pedro Brito. Para o diretor do Laboratório BioMimetik Lab e ministrante de cursos de fotografia dentária desde 2007, “atualmente é obrigatória a prescrição (por parte de um médico dentista ao técnico de prótese dentária) de um dispositivo médico feito por medida ser acompanhada da respetiva documentação fotográfica”.

Paulo Monteiro, coordenador da pós-graduação de Dentisteria Adesiva no Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz (ISCSEM), acredita mesmo que a integração da fotografia digital no workflow clínico será “cada vez maior e vista como algo essencial”. Neste sentido, vemos “câmaras mais pequenas, compactas e com capacidade para captar detalhes de uma forma muito simples a serem cada vez mais usadas em medicina dentária”.

O também formador em fotografia para a área médico-dentária espera mesmo que, no futuro, as câmaras fotográficas venham a estar “integradas com os próprios sistemas de aquisição de imagem digital, intraoral e facial”.

Foto de Sandro Silva, Clínica Hugo Madeira

Quem tira as fotos?

“Na maioria das clínicas, a fotografia é executada pelos médicos dentistas, assistentes e técnicos de prótese dentária”, salienta Pedro Brito. No entanto, existem já clínicas que “apostam em ter um fotógrafo profissional para o efeito, mas são ainda poucas”. Para o técnico de prótese dentária, este tipo de opção representa, por um lado, “uma garantia de que tudo é documentado porque existe uma pessoa só para esta função”, mas, por outro, pode-se perder parte daquilo que na verdade é a essência da fotografia dentária.

“[O registo fotográfico] convém ser executado por um profissional de medicina dentária, porque só ele consegue captar toda a informação técnica necessária, algo que é mais complexo de se fazer por parte de um profissional de fotografia geral, até porque o campo da macrofotografia dentária é muito restrito e implica conhecimento.”

Bruno Seabra é médico dentista, fotógrafo e também formador na área da fotografia em medicina dentária. “Para se fazer um bom registo, com os parâmetros ideais para a nossa área, e compreender o que temos de fotografar e como o fazer, será indicado ter formação na área”, diz. “O ideal seria que a pessoa que trabalha connosco, por exemplo o assistente dentário, fotografasse, porque assim não precisaríamos de parar o tratamento nem atrasar o tempo de consulta para fotografar.” Ao fotografar um caso com todos os passos durante o tratamento, o médico dentista pode demorar, por vezes, “três vezes mais tempo”, revela.

Por estas razões, “principalmente nas clínicas maiores, com muitos casos para fotografar ou também nas que investem mais em formação e têm mais tendência a registar os casos clínicos de forma consistente, a tendência será cada vez mais ter a presença de um fotógrafo clínico que acompanhe esses casos com uma agenda dedicada”, conclui Bruno Seabra.

Na clínica de Hugo Madeira, há um departamento dedicado apenas ao trabalho fotográfico. “Foi mesmo necessário criá-lo porque são cada vez mais os casos que surgem e temos de ter uma equipa especializada que se dedique apenas a esta área.” No entanto, ainda de acordo com o CEO, “os médicos dentistas e os próprios assistentes dentários estão constantemente em formação, porque é extremamente necessário que a equipa seja multifacetada para conseguirmos evoluir e estar um passo à frente”.

“Temos algumas formações específicas nesta área e inclusive algumas universidades já incluem este tópico no seu curriculum, pela sua utilidade e importância”, salienta Paulo Monteiro, acrescentando que também alguns fabricantes têm feito, nos últimos anos, campanhas e atividades formativas nesta área.

Benefícios abrangentes

Todas as áreas da medicina dentária ganham com a realização de fotografias.

“Desde o planeamento para reabilitação oral, prostodontia, dentisteria, ortodontia e cirurgia”, refere Paulo Monteiro. Na área da prostodontia e na comunicação da cor com o laboratório, a fotografia tem um papel fundamental, pois “permite passar para o ceramista detalhes e informação que caso contrário seriam muito difíceis”, especifica o médico dentista, acrescentando que “com os protocolos de seleção de cor digital, a fotografia é uma vez mais fundamental”.

Além destas áreas, a fotografia veio permitir ao clínico “acompanhar, no tempo, a longevidade de um determinado tratamento” e é, igualmente, ainda de acordo com Paulo Monteiro, “um meio muito importante para melhorar a qualidade do trabalho clínico devido ao detalhe que proporciona”.

Finalmente, num tempo em que a comunicação e o marketing são muito valorizados e importantes no dia a dia do médico dentista, “a fotografia é um coadjuvante para essa alavancagem”, remata o médico dentista.

Extra e intraorais

Os protocolos de fotografia dentária clínica podem ser divididos, explica Pedro Brito, “em fotografia intraoral e fotografia extraoral e, opcionalmente, mas já numa vertente secundária, fotografia artística, sendo que depois acrescentamos a documentação do trabalho laboratorial que se enquadra no protocolo, que é feita por técnicos de prótese dentária, mas também médicos dentistas”.

As fotografias extraorais servem fundamentalmente para três situações, segundo Paulo Monteiro: “Planeamento em certas áreas (ortodontia, cirurgia, reabilitação oral); registo do início e fim do tratamento e, finalmente, como imagens artísticas.” O grande desafio deste tipo de fotografia é “a estandardização da posição da face do paciente para o planeamento e também o tipo de luz usada”. Como tal, podem ser utilizados diferentes tipos de luz, “desde o flash anelar, o próprio flash embutido na câmara fotográfica, até ao uso de caixas de luz, que permitem uma melhor distribuição e suavização”.

O fundamental, como complementa Hugo Madeira, é “registar todas as referências faciais que nos ajudam a realizar a construção de um novo sorriso”. Neste tipo de fotografias, salienta-se a relevância de “colocar o paciente numa posição correta que permita posteriormente definir as linhas de referência faciais, bem como as linhas que constituem o sorriso”.

Quanto às fotografias intraorais, Hugo Madeira sublinha a necessidade de alcançar fotografias de qualidade, “com o foco correto” e que representem “todos os detalhes das peças dentárias”. O médico dentista reforça: “Para desenharmos um novo sorriso, para explicarmos ao nosso paciente a presença de certas configurações anatómicas e até para comunicarmos com o laboratório, torna-se fundamental apresentar fotografias intraorais com a luz ideal, com contraste e com as cores corretas, de forma a representar aquilo que realmente se observa.”

Mas, o protocolo de fotografia intraoral depende muito da área, existindo algumas que têm especificidades maiores do que outras. Não obstante, “as fotografias base do protocolo intraoral são frontais em MIC, frontal arcada superior, frontal arcada inferior, laterais em MIC, oclusal superior, oclusal inferior”, especifica Paulo Monteiro.

Como um dos maiores desafios deste tipo de fotografia é uma correta e real proporção dos dentes e uma exata e adequada iluminação da cavidade oral, devem sempre ser usadas lentes macro de distância focal fixa, aconselha o formador. Quanto ao flash, ainda de acordo com o médico dentista: “Deverá sempre ser um anelar ou twin, sendo que a diferença entre eles depende de se pretendemos uma fotografia com uma luz mais uniforme e simples (flash anelar) ou uma fotografia com mais recortes entre altas luzes e sombras e mais suavizada (twin flash).” Assim, Paulo Monteiro afirma que o ideal para dentes posteriores seria o flash anelar e para dentes anteriores o twin flash.

O desenho do sorriso

Com a implementação da fotografia dentária na prática diária nasceu uma nova fase de abordagem de diagnóstico e estudo dos pacientes. As fotografias são um dos elementos fundamentais para a análise e planeamento do design do sorriso e, segundo Paulo Monteiro, podem ser incorporadas nestes softwares quer tenham sido tiradas por uma câmara fotográfica ou até por telemóvel, “pois algumas marcas já apostam em câmaras de alta qualidade, que com uma iluminação adequada poderão ser suficientes para este tipo de registo fotográfico”.

Bruno Seabra especifica que, para o estudo do sorriso, “devem-se realizar alguns setups fotográficos que permitirão, posteriormente, utilizando um programa simples de edição, realizar o estudo desse sorriso e de que forma poderemos melhorar e transmitir essas informações aos colegas e laboratório, mas também comunicar com o paciente e explicar nosso projeto”. Atualmente, ainda de acordo com o fotógrafo, “existem já softwares dedicados, que fazendo upload de imagens fotográficas e utilizando também informação dos scanners digitais, permitem realizar um planeamento totalmente 3D”. Todas estas ferramentas possibilitam que a apresentação do plano de tratamento ao paciente seja “muito mais impactante, muito mais fácil de compreender, de valorizar e permite que o todo o nosso trabalho seja bastante simples e previsível”, remata.

Através de software, como o Digital Smile Design, Hugo Madeira refere que o profissional consegue mostrar ao paciente como irá ficar o seu sorriso e avaliar de forma mais precisa a relação estética entre dentes, gengiva, sorriso e face, e alcançar assim a harmonia desejada. São necessárias, segundo o médico dentista, “três fotografias do sorriso em vários ângulos, que depois são trabalhadas no computador. As fotografias diferem consoante a realização de um planeamento em 2D ou 3D, pois se apenas quisermos motivar o nosso paciente, temos de ter presentes menos fotografias”.

Entre as vantagens deste tipo de software, encontramos “o diagnóstico estético através de uma análise digital que permite visualizar detalhes ao pormenor; a comunicação com o laboratório, que permite a partilha de informação desde o trabalho inicial até ao resultado final”; e, além disso, a possibilidade da “criação de uma biblioteca de casos clínicos que pode ser partilhada e visualizada por colegas e pacientes”, remata Hugo Madeira.

No campo das desvantagens, Paulo Monteiro aponta o preço do equipamento fotográfico e do software. Por outro lado, como alerta Pedro Brito, “o conhecimento e a formação são essenciais, porque este tipo de software é mais uma ferramenta à disposição da equipa de saúde oral”.

Como escolher

O equipamento fotográfico

“Para fotografarmos necessitamos de uma câmara (corpo), de uma objetiva macro (lente) e de um flash para fotografia macro”, afirma Bruno Seabra.

O corpo

É considerado, à partida, “o menos importante”, garante o médico dentista. Como em medicina dentária não tem de se usar qualquer especificidade especial nas definições da máquina, pode-se “adquirir um corpo a um preço mais acessível, com sensores mais pequenos e mesmo assim conseguir obter fotografias bastante boas”, acrescenta. “Se tivermos necessidade de imagens maiores e de maior qualidade, poderemos adquirir câmaras com sensores full-frame.” Por outro lado, ainda de acordo com o fotógrafo, “além desta opção relativamente ao tipo de sensor, temos também a opção de escolher entre uma câmara reflexa DSLR (Digital Single Lens Reflex) ou uma câmara mirrorless, que não tem sistema de espelho, e por isso é mais pequena e leve”.

A objetiva

“É o mais importante” e, neste sentido, “necessitamos de uma lente macro, que permita obter imagens com ampliações pré-definidas para a nossa área (1:3; 1:2; 1:1,5; 1:1)”, explica Bruno Seabra. Apesar de só as lentes macro permitirem aproximar do objeto e focar tão perto, existem várias lentes macro com distâncias focais diferentes. “A distância focal indicada para a nossa área andará à volta dos 90/100 mm”, declara o médico dentista, acrescentando que “se usarmos distâncias focais inferiores, por exemplo, lentes macro de 60 mm, teremos de nos aproximar demais dos dentes para obtermos a mesma ampliação, o que está provado que provoca um efeito de distorção, sendo que isto acontece tanto nos retratos que fazemos, mas também nas imagens que captamos intraorais”.

No momento da escolha das objetivas, pode “optar por comprar da mesma marca do corpo, o que parece mais lógico considerando toda a compatibilidade do sistema”. No entanto, ainda de acordo com Bruno Seabra, “por razões de limite de orçamento, podemos preferir comprar uma objetiva de marcas diferentes, menos conhecidas, mas que consideramos que também permitem registar boas imagens”.

O flash

Os mais frequentemente utilizados são o “flash ring (anelar) e o twin flash (bilateral). A escolha entre um ou outro dependerá principalmente da nossa área de especialidade”, conclui Bruno Seabra.

Como obter a fotografia perfeita

Settings fotográficos

Os settings (definições) indicados para fotografia em medicina dentária são muito simples e sem grandes variações. “Tendo corpo, objetiva e flash compatíveis, conseguimos facilmente obter uma exposição perfeita da imagem captada logo no primeiro clique”, refere Bruno Seabra. “É muito importante o conhecimento da razão pela qual selecionamos esses valores (abertura diafragma, velocidade de obturação e ISO) que inserimos na câmara, selecionando o modo manual.”

Deste modo, a escolha dos settings relaciona-se com condicionantes da imagem que pretendemos captar. Neste contexto, Bruno Seabra explica que:

Abertura
“F 22 (ou números mais elevados). Normalmente, temos de captar imagens com grande profundidade de campo para termos todos os dentes definidos, desde o incisivo central até ao último molar. Isso consegue-se fechando muito o diafragma, com números grandes ƒ, o que corresponde a muito pouca entrada de luz.”

Velocidade obturação
“1/125 segundos (ou números até 1/200 ou 1/250, dependendo da câmara e do flash). A seleção deste valor prende-se com a velocidade necessária para o objeto ficar congelado, respeitando a velocidade de sincronização do flash, que, normalmente – sim, existem flashes com HSS (sincronização de alta velocidade) –, vai até 1/200”.

ISO
“ISO 100 (ou valor mais baixo disponível). O ISO relaciona-se com a sensibilidade do sensor à luz. Quanto mais elevado, maior a introdução de ruído na imagem. Na nossa área, normalmente não necessitamos de aumentar este valor porque temos sempre um flash que nos ilumina o objeto.”

O fotógrafo alerta ainda que se tem de prestar atenção a outros settings, “nomeadamente o tipo e a qualidade do ficheiro que gravamos, a correção seleção da data e hora da câmara, balanço de brancos e calibração da cor, entre outros”.

Em medicina dentária, o registo de um caso deve respeitar também parâmetros que permitam obter sempre “registos que mostrem exatamente a situação do paciente, sem distorção de planos, que permitam reprodutibilidade, para comparação futura e até sobreposição”, indica o médico dentista.

“Por isso, no momento do disparo devemos ter atenção à ampliação que vamos selecionar, à orientação da imagem com base em planos e linhas existentes no paciente, como o plano Frankfurt, linha bipupilar, linha média, plano oclusal, linha dos caninos, etc. Depois, temos de saber como focar, em modo manual de focagem, e aproximarmo-nos do dente certo para a focagem para cada setup fotográfico (tipo de fotografia).”