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Clínicas Dentárias

A voz que faltava aos empresários de medicina dentária

A voz que faltava aos empresários de medicina dentária

Deu-se a conhecer no início deste ano, mas já tinha sido oficializada no final do ano passado. A Incisivos – Associação dos Empresários da Medicina Dentária, a primeira especificamente dedicada à profissionalização da gestão das clínicas, chegou pela mão de Miguel Martins, ele próprio gestor – mas não médico dentista − de uma clínica dentária. Com foco na lacuna empresarial da profissão, a associação pretende contribuir para aliviar o peso de um setor que “precisa de ajuda”.

Como é que surgiu a ideia de criar a Incisivos – Associação dos Empresários da Medicina Dentária?

Antes do acontecimento que motivou a concretização da Incisivos, já tinha tido a ideia de criar uma associação para empresários médicos dentistas, porque, enquanto gestor e professor, fui reparando nessa necessidade. Em 2018 lecionei um curso de gestão para médicos dentistas na Universidade Autónoma de Lisboa que teve uma enorme adesão, repercutindo-se por mais duas edições. E, nestas três formações, apercebi-me que existia uma grande falha sistémica – empresarial − no que toca à gestão de uma clínica dentária. As empresas são criadas com vista ao autoemprego, mas depois pensa-se que a empresa se vai gerir sozinha e tudo se precipita para as coisas não correrem bem. O desgaste do médico dentista face às situações que tem de resolver, extra ato médico, começa a ser muito pesado e os tempos exigem cada vez mais que as empresas sejam profissionais. Durante este período em que dei formação, percebi que os médicos tinham muitas preocupações − totalmente legítimas − no seu negócio do dia a dia e pensei que faria sentido criar uma associação de empresários, médicos ou não, que pudesse auxiliar, dar formação e ferramentas de apoio na área da profissionalização da gestão. Mas, entretanto, veio a pandemia e isto não passou de uma ideia.

Durante este período em que dei formação, percebi que os médicos tinham muitas preocupações − totalmente legítimas − no seu negócio do dia a dia e pensei que faria sentido criar uma associação de empresários que pudesse auxiliar, dar formação e ferramentas de apoio na área da profissionalização da gestão.

E como é que o processo se desenvolveu a partir daí?

Durante o período do primeiro confinamento geral, com o fecho das clínicas, muitas marcas começaram a realizar webinars dirigidos a médicos dentistas, mas todos eles técnicos, e nenhum que os preparasse para o momento crítico − a nível empresarial – que aí vinha. É neste sentido que lanço o desafio à Straumann para levarmos a cabo um webinar que possibilitasse preparar os médicos dentistas para a reabertura de portas. A empresa aceitou de imediato, o webinar superou todas as expetativas e contou com 539 participantes. Estava programado para 1h30 e, ao fim desse tempo, as pessoas continuavam a fazer perguntas e a pedir para que continuássemos. Durou 4h. Se eu já tinha uma noção da pertinência deste assunto… Entretanto há um médico que faz uma pergunta chave: “Considera que devia haver uma outra entidade, além da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), a auxiliar nesta área?” E eu referi que sim, que deveria existir uma associação de empresários, proprietários de clínicas dentárias. Mas, na realidade, não tinha consultado ninguém e não tinha as pessoas certas para poder concretizar essa vontade. Nesse preciso momento começaram a cair mensagens – através da plataforma do webinar – de pessoas a referirem que queriam pertencer à associação. Depois do evento virtual elaborei um guia prático de gestão clínica para ser distribuído pelos participantes e, no dia seguinte, recebi muitos e-mails.

O que é que estava na base desse reconhecimento?

A minha mulher é médica dentista, eu sou gestor, e temos uma clínica dentária em comum. Fechámos durante 45 dias, como todas os outros. E, por isso, há uma empatia imediata da minha parte. Dei exemplos de problemas do dia a dia que os médicos se identificaram, coisas simples como manutenção de lâmpadas. Ocorrências a que se juntam outros problemas, seja de recursos humanos, de fornecedores, pacientes que não pagam, um médico que ficou doente, entre outros.

E, depois dessa abordagem, como é que escolhe os membros para a associação?

Deixei passar algumas semanas após o webinar para perceber se era apenas o entusiasmo do momento ou se existia efetivamente interesse das pessoas no associativismo. Algumas percebi imediatamente que poderiam ser sócias e outras que gostaria que estivessem comigo nos órgãos sociais. A associação conta apenas com cinco dirigentes que eu já conhecia, as restantes surgiram através de contacto de e-mail, na sequência do evento. A partir de junho/julho, depois de orientar a minha clínica para a retoma, começo a convidar estas pessoas para conversar via Zoom, onde lhes explico o que é a Incisivos. E, desta forma, juntaram-se 13 pessoas ao projeto − comigo 14. Somos um grupo de pessoas que não são notáveis, não procurei nomes sonantes. É um grupo que se manifestou preocupado e com proatividade − médicos dentistas na sua maioria, mas também uma higienista oral e gestores. Aqui, está representado o setor.

Somos um grupo de pessoas que não são notáveis, não procurei nomes sonantes. É um grupo que se manifestou preocupado e com proatividade − médicos dentistas na sua maioria, mas também uma higienista oral e gestores. Aqui, está representado o setor.

Por onde pretende começar o plano de atuação da associação?

Tudo o que a Incisivos faz emana de uma máxima: profissionalização da gestão das clínicas dentárias. Temos noção que há imensos problemas nesta área, mas queremos focar-nos nas prioridades. Para 2021, e até ao primeiro semestre – um gestor prudente não faz planos a mais de seis meses em tempo de crise −, pretendemos dar apoio jurídico a todos os associados. Este apoio é muito importante porque a maioria são micro ou pequenas empresas e não têm capacidade para pagar avenças a gabinetes de advogados. Assim, nós disponibilizamos um gabinete jurídico para ajudar nos contratos de trabalho, em situações de dívida de pacientes por resolver ou até na mudança do registo comercial da empresa. A maioria das clínicas não tem know how para resolver estas questões jurídicas, que têm de estar bem trabalhadas e bem sustentadas. Qualquer sócio da Incisivos, sem pagar mais que as quotas mensais, tem acesso a este serviço.

Para 2021, e até ao primeiro semestre – um gestor prudente não faz planos a mais de seis meses em tempo de crise −, pretendemos dar apoio jurídico a todos os associados.

Quem é Miguel Martins, presidente da Incisivos – Associação dos Empresários da Medicina Dentária?

Tem 49 anos. É administrador executivo do Dentista de Família – Clínica Dra. Natália Simões (Lisboa). Formou-se em Ciências da Comunicação na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), onde lecionou durante 21 anos e também fez um MBA em Estratégia e Gestão Empresarial. Foi jornalista em órgãos de comunicação como Público, Expresso e SIC Notícias. Deu formação no Departamento Português da Comissão Europeia, em Bruxelas, e frequentou o Poynter Institute da Florida, assim como o Newsplex, na Universidade da Carolina do Sul (EUA). É autor do curso Gestão Clínica 360º, dirigida a médicos dentistas, lecionado na UAL e docente da CESPU (Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário) no Executive Master em Gestão e Administração em Saúde. É dental and health business executive consultant.

* A entrevista completa vai estar disponível na edição de março-abril da revista SAÚDE ORAL.

 

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