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Médicos Dentistas

“A nova geração de médicos dentistas está mais sensibilizada para a saúde mental”

Manuela Rodrigues

Manuela Rodrigues é medica dentista e desde 2018 que se dedica a organizar cursos de mindfulness para colegas de medicina dentária. Em 2019 dava a conhecer o seu projeto Mindful Dentistry, ainda dar os primeiros passos. Hoje, em entrevista à SAÚDE ORAL, fala do sucesso internacional que tem tido, abrindo caminho para que o mindfulness e a inteligência emocional façam − cada vez mais – parte da prática clínica e das clínicas dentárias.

Em 2019 deu uma entrevista à SAÚDE ORAL sobre o seu projeto Mindful Dentistry. Como tem evoluído o projeto desde então?

Muita coisa mudou apesar do curto espaço de tempo. A entrevista em 2019 foi a propósito da primeira edição do meu curso de Mindful Dentistry em Portugal e o projeto estava a dar os primeiros passos. Na altura, eu tinha decidido fazer uma pausa na minha prática clínica para me dedicar a 100% ao projeto porque acreditava que o curso poderia fazer a diferença na medicina dentária. Apesar do ainda breve tempo de vida, o Mindful Dentistry Training é agora um projeto internacional de sucesso, e o que era antes uma hipótese é agora uma certeza com provas dadas. A atenção plena (mindfulness), autoconsciência, comunicação assertiva, escuta ativa, compaixão e inteligência emocional, fazem a diferença na vida dos médicos dentistas. É possível os médicos dentistas viverem a profissão com paixão, calma e entrega e ainda assim serem saudáveis e atingirem a realização pessoal e profissional.

Antes da pandemia, as suas consultas eram presenciais? Como se processava este programa?

Antes da pandemia o programa era só presencial, em Portugal decorreu na Clínica Dentária do Bairro, dos colegas Dr. Nuno Puna e Dra. Ângela Matos. Quando o curso é lecionado em formato presencial é sempre em clínicas dentárias ou em centros de formação de medicina dentária. Em 2022 vou regressar ao formato presencial, na Holanda, em maio. O programa em formato presencial consiste em oito sessões de 2h30 ao longo de oito semanas, mais um dia intensivo de 6h.

Referiu-me que com a chegada da pandemia acabou por organizar o programa online. Como correu no formato digital?

Com a pandemia comecei a ter uma presença online mais assídua e fui contactada por muitos colegas. O Mindful Dentistry Training Online, em inglês, teve uma adesão muito grande. Lembro-me que na altura tive que adaptar horários porque tinha participantes dos Estados Unidos, Canadá e até Austrália.

Este ano fiz uma parceria com a plataforma Holandesa Karma Dentistry (www.karmadentistry.com), e o curso está agora lá disponível. O formato digital permitiu-me também, através de mentoria individual, dar resposta aos colegas que querem fazer o curso, mas não têm horário para fazer em grupo ou preferem fazê-lo individualmente.

“É possível os médicos dentistas viverem a profissão com paixão, calma e entrega e ainda assim serem saudáveis e atingirem a realização pessoal e profissional”

Como é constituído e estruturado o programa?

O Mindful Dentistry Training tem como base o programa de Mindfulness Based Stress Reduction, atualmente o programa de mindfulness com mais pesquisa científica e mais praticado a nível mundial, totalmente adaptado ao contexto da medicina dentária.

O curso tem uma abordagem baseada em evidências, e combina neurociência, treino de atenção plena (mindfulness) e inteligência emocional. O programa oferece ferramentas práticas que podem ser aplicadas imediatamente na prática clínica diária. Trabalhamos gestão de stresse, regulação emocional e implementação da prática do mindfulness no gabinete dentário. São oito módulos e começámos com uma base de atenção plena e construímos os principais domínios da inteligência emocional que levam a um médico dentista excecional.

“Em Portugal verifica-se uma das melhores práticas de medicina dentária do mundo”

Nestes dois anos foi possível aferir algumas conclusões através de estudos que desenvolveu. Que resultados foram estes?

O estudo “Bem Estar, Mindfulness e Saúde Oral: Benefícios para profissionais e pacientes” foi publicado este ano, e é da minha coautoria e das investigadoras Cristina Vaz de Almeida, Patrícia Rodrigues, Diana Pinheiro (Higienista Oral) e Cecília Nunes, todas especialistas nas suas áreas e com competências demonstradas na área da mudança comportamental e literacia em saúde há longos anos.

Neste estudo, com abordagem quantitativa e qualitativa, feita a profissionais de saúde oral e a pacientes, pretendemos medir e avaliar a perceção do médico dentista e do paciente de saúde oral, sobre fatores de stresse e de bem-estar associados às técnicas do mindfulness e as estratégias que usam para superar estes fatores que envolvem o encontro de saúde oral para ambos os intervenientes.

A investigação apresenta uma revisão bibliográfica, além da minha experiência direta de médica dentista envolvida, há longos anos, na utilização do mindfulness como ferramenta para promoção da saúde e bem-estar do profissional de saúde oral.

Ficou demonstrado, que nas situações de stresse que o paciente encontra aquando da consulta de saúde oral, o profissional de saúde tem um papel fundamental para acalmar, ajudar, reduzir a ansiedade e contribuir para o bem-estar do paciente.

Ficou também evidenciada a perceção do profissional de saúde sobre o grau de satisfação e as questões que mais os preocupam na sua profissão, sejam elas relacionadas com o contexto profissional, os aspetos físicos ou psicossociais.

“A nível de condições de trabalho, na Bélgica conseguimos ter mais qualidade de vida porque existe uma consciência generalizada da importância do equilíbrio entre a vida pessoal e profissional para evitar o burnout profissional”

Foi possível também, identificar e categorizar as maiores causas de stresse na profissão, assim como as atividades que desenvolvem para conseguirem lidar melhor com o stresse profissional, podendo ser uma forma de avaliar o seu bem-estar e produzir intervenções que melhorem a qualidade de vida desta classe.

Percebemos pelo relato dos pacientes que o stresse é motivado por questões que se relacionam com o ambiente, tratamento e ruídos. E tanto a receção como o profissional de saúde têm um impacto significativo na tranquilização dos pacientes antes da consulta.

O correto acesso, compreensão e uso da informação pelos pacientes são fatores de qualidade para o mesmo, pelo que as estratégias devem passar também pelo incremento da literacia em saúde do paciente.

Mediante a importância do desenvolvimento de estratégias eficazes, para minimizar e evitar os muitos problemas físicos e emocionais que o stresse inerente à profissão causa, estes resultados são relevantes para um conjunto de intervenções que tragam mais-valias ao futuro da profissão.

Como tem sido o feedback por parte dos médicos dentistas? Este projeto inclui apenas portugueses ou também atua no setor dentário belga?

Neste momento, este projeto inclui médicos dentistas de todo o mundo. O feedback tem sido muito positivo. A palavra mais usada é transformadora. O mindfulness não diz respeito apenas a uma atenção presente ao momento. A isso podemos chamar de concentração, foco, ou até ao que conhecemos como “into the flow” e os médicos dentistas têm muita facilidade em aprender e rapidamente atingir esta primeira fase (principalmente a trabalhar “em boca” no paciente). E sem dúvida que este pode ser um estado da mente completamente envolvido e comprometido com a atividade a que nos propomos, mas isso não implica que mindfulness esteja presente. Para que mindfulness esteja presente, há um outro fator a ter em conta. A capacidade que temos de tornar consciente, monitorizar e autorregular os nossos processos internos na relação com o que estamos a experienciar. É isso que pode fazer de mindfulness uma prática transformadora e libertadora na medicina dentária.

“O stresse está a deixar os médicos dentistas tristes e doentes. Os jovens médicos dentistas não querem viver a profissão dessa maneira”

De que forma pretende dar continuidade a este projeto no futuro?

O meu objetivo é o de fazer chegar estas ferramentas que são o mindfulness e a Inteligência Emocional ao máximo de médicos dentistas, para que eles criem ambientes de trabalho mais conscientes.  E também para libertá-los do “peso” que muitas vezes carregam e consigam voltar para casa, depois de um dia de trabalho, satisfeitos e com energia porque têm prazer e alegria no que fazem.

Neste momento a continuidade do projeto passa por continuar os cursos (nos formatos online e presencial) a 4ª Edição em Português vai arrancar dia 13 de setembro (https://www.mindfuldentistrytraining.com/portugal/). Vou iniciar também treinos presenciais em clínicas, para toda a equipa clínica. Este ano fui contactada por colegas, que tinham feito o curso ou que já têm uma prática de mindfulness, e que querem que o mindfulness seja uma das pedras basilares não só da sua prática clínica, mas da própria clínica. Os primeiros treinos vão acontecer na Bélgica e na Holanda, e eu mal posso esperar por voltar ao ambiente clínico novamente!

“Neste momento a continuidade do projeto passa por continuar os cursos (nos formatos online e presencial) a 4ª Edição em Português vai arrancar dia 13 de setembro (https://www.mindfuldentistrytraining.com/portugal/)”

Estou também a trabalhar noutro artigo de investigação para determinar a eficácia e benefícios do mindfulness para os profissionais de saúde oral, já com base nos resultados do meu programa.

Que diferenças nota entre a realidade belga e portuguesa no setor dentário?

A nível clínico nenhuma. Em Portugal verifica-se uma das melhores práticas de medicina dentária do mundo. A nível de condições de trabalho, na Bélgica conseguimos ter mais qualidade de vida porque existe uma consciência generalizada da importância do equilíbrio entre a vida pessoal e profissional para evitar o burnout profissional. Esta consciência levou os profissionais a adotarem uma série de medidas (como, por exemplo, um horário de trabalho das 9h às 17h30, uma semana de trabalho de quatro dias, e o não trabalhar aos fins de semana) que são praticadas e respeitadas por todos (médicos e pacientes).

Considera que a nova geração de médicos dentistas portugueses está mais sensibilizada para as questões emocionais e gestão do stresse?

Sim, sem dúvida. A nova geração de médicos dentistas está mais sensibilizada para as questões não só emocionais e de gestão de stresse, mas também de saúde mental e para novas realidades. Um exemplo disto em Portugal foi o IX Encontro Nacional de Estudantes de Medicina Dentária, que decorreu este ano, teve como mote a relação entre “Soft-Skills e a Medicina Dentária”.

O mundo está a mudar, a medicina dentária tem de saber acompanhar. Apostar em qualificar as competências dos médicos dentistas, através de uma abordagem que contribua para um melhor entendimento das mudanças e transformações que vivemos no nosso tempo, dotando-os de ferramentas que estimulem a reflexão e aptidões que os diferenciem, especialmente neste mercado tão competitivo como a medicina dentária, é essencial.

O stresse está a deixar os médicos dentistas tristes e doentes. Os jovens médicos dentistas não querem viver a profissão dessa maneira. Até porque sabem que é possível viver a profissão de outra forma, de uma maneira genuína com energia e prazer, e também porque têm outros valores e interesses.

Eu acredito (muita gente me chamou e continua a chamar de louca) que a medicina dentária está a mudar, e a maneira como nós vivemos a medicina dentária pode mudar também. E eu acredito que podemos ser nós a trazer a mudança que queremos ver na profissão. Essa mudança deve começar por nós.

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