Quantcast
Saúde Oral

“A fragilidade dos postos de trabalho não facilita a disponibilidade para o voluntariado”

Mariana Dolores

Fundada com o propósito de democratizar os cuidados de saúde oral no nosso País e nos países africanos mais desfavorecidos, a Mundo A Sorrir já ajudou mais de 642 mil pessoas, que se encontravam em situação de vulnerabilidade socioeconómica. Estes dados surgem aquando da comemoração do seu 16º aniversário, assinalado no passado dia 5 de julho. Em entrevista à SAÚDE ORAL, a presidente da Mundo A Sorrir, Mariana Dolores, destaca os feitos mais importantes desde a criação da associação e fala sobre a predisposição dos médicos dentistas portugueses para abraçar causa, como o voluntariado.

O que motivou a criação da Mundo A Sorrir?

Fundámos a Mundo A Sorrir com o propósito de colmatar uma falha do sistema que não permitia que uma percentagem bastante significativa da população tivesse acesso a cuidados de saúde oral, nomeadamente nos países africanos onde atuamos e onde o rácio de médicos dentistas é incrivelmente baixo. Começou por ser um “pequeno sonho” de um grupo de amigos médicos dentistas que, com resiliência e dedicação, rapidamente transformaram a Organização, fazendo-a crescer enquanto exemplo de boas práticas em saúde em vários países. Os projetos são já muitos, mas a missão continua a mesma: promover a Saúde e a Saúde Oral como um direito universal.

Por que valores se move?

Os valores do bem-estar, solidariedade, seriedade e conhecimento continuam a mover-nos para tentar criar uma mudança positiva e mobilizar a sociedade civil para a nossa causa. Diariamente, trabalhamos para que todos tenham igualdade no acesso aos cuidados de saúde e saúde oral, promovendo de forma integrada a inclusão social e a cooperação e apoio ao desenvolvimento. Na Mundo A Sorrir somos leais à nossa missão e aos nossos valores! Assumimos um compromisso com todas as pessoas que beneficiam da nossa intervenção e, por isso, o nosso trabalho é baseado no respeito ao próximo, na transparência, na dedicação e na inovação.

Se tivesse de destacar os três feitos mais importantes desde a sua criação, em 2005, quais seriam?

Desde sempre que festejamos todas as pequenas conquistas da Organização. Quando se trata de uma Organização que cresceu do zero aprendemos a valorizar cada momento e cada conquista. Claro que há vários “momentos chave“ na história da Mundo A Sorrir, vou destacar a inauguração do projeto Centro de Apoio à Saúde Oral (C.A.S.O.) no Porto, onde de forma inovadora, a Organização criou um mecanismo de acesso a cuidados de saúde oral para as populações mais fragilizadas. Numa altura em que a desvalorização dos cuidados de saúde oral pela população em geral era ainda crescente, a criação deste projeto (entretanto replicado em vários municípios) inovou pela utilização da saúde oral como uma ferramenta para promover a inclusão social. A primeira vez que nos foram atribuídos fundos europeus marca também um ponto significativo na nossa história. Não só por uma questão financeira, mas pelo facto de ser uma conquista extraordinária conseguir um financiamento deste tipo para um projeto de promoção da saúde oral e prevenção de doenças, desenvolvido de norte a sul do país. Isto numa altura em que a saúde oral era ainda mais negligenciada do que atualmente. Por outro lado, foi também nesta altura que a Organização deu um “salto de crescimento” tremendo. Destaco, ainda, a construção de uma clínica médica na Guiné-Bissau, inaugurada em 2020 e que marca o crescimento da Organização a nível internacional.

Que balanço faz destes últimos 16 anos?

Em 16 anos a Mundo A Sorrir viu a equipa a crescer. Um grupo de pessoas dedicadas que, com muitas horas de trabalho, levaram a Organização a ser uma ONG de referência na área da saúde oral quer a nível nacional, quer internacional. São 642 mil as pessoas que, de alguma forma, já receberam apoio da Mundo A Sorrir e é nessas pessoas que foco o balanço destes 16 anos. São testemunhos como os abaixo que nos fazem pensar que os últimos 16 anos valeram muito a pena. “Passei por uma depressão muito grande. O dia mais importante da minha vida foi quando descobri este projeto. Agora já posso sorrir para as minhas filhas e netas. O meu sonho foi concretizado!” − Eugénia Cabrita, beneficiária do projeto C.A.S.O. Cascais. “Eu participei nas ações de capacitação na área da saúde oral e oftalmologia, promovidas pela Mundo A Sorrir, na minha Universidade. Considero estas formações muito benéficas para os estudantes de Medicina, mas também para outros Técnicos de Saúde da GuinéBissau. Espero que a Mundo A Sorrir continue a desenvolver estas formações para capacitar os Técnicos de Saúde do país, para que no futuro possamos colocar em prática o que aprendemos e, além disso, sejamos nós a formar os mais jovens.” − Mamuro Balde, estudante de Medicina na Guiné-Bissau. “O projeto “Sorrisos de Porta em Porta” é uma mais-valia nos dias de hoje para os nossos idosos. Aprendemos, não só as boas práticas para uma melhor higienização oral, mas também as causas das doenças e problemas orais provocados pela falta ou má higienização da boca e como os podemos evitar. Com este ensinamento e a implementação destas boas práticas reduzimos o número de queixas acerca dos problemas orais.” − Casa do Povo de Cerdeira e Moura da Serra, instituição beneficiada pelo projeto “Sorrisos de Porta em Porta – Região Centro”.

“São 642 mil as pessoas que, de alguma forma, já receberam apoio da Mundo A Sorrir e é nessas pessoas que foco o balanço destes 16 anos”

Até onde pretende chegar?

Olhando para a motivação do grupo de colaboradores, voluntários e parceiros que temos na Organização diria que vamos continuar sempre a trabalhar até a saúde oral ser um direito universal!

Quais são os principais objetivos para o próximo ano?

A nível nacional estamos numa fase de grande crescimento e equilíbrio, logo o foco é o desenvolvimento das atividades dos projetos em curso e potenciar o impacto na vida dos beneficiários. A inovação na forma como atuamos é sempre um fator importante para nós, pelo que a idealização de novos projetos que colmatem necessidades existentes é sempre uma prioridade. A nível internacional o nosso foco está no crescimento das atividades em cada um dos países onde atuamos potenciando, sempre de uma forma estruturada e continuada, a atuação da Organização em parceria com os interlocutores locais. A comunicação é uma área que pretendemos continuar a trabalhar de forma assertiva nos tempos mais próximos.

Como caracteriza a saúde oral em Portugal atualmente? Em que estado se encontra? Considero que em Portugal continuamos a ter 3 problemas graves: o excesso de profissionais da área, as condições contratuais medíocres dos mesmos e as desigualdades no acesso aos cuidados de saúde oral.

O que ainda é preciso fazer?

É preciso que a saúde oral passe a ser uma área da saúde prioritária, em vez de ser uma área negligenciada, para que todos os portugueses possam aceder a cuidados preventivos e interventivos. É preciso apostar na literacia em saúde!

Qual é o plano de ação nacional da Mundo A Sorrir para este ano? O que pretende fazer pela saúde oral em Portugal?

A pandemia aumentou os níveis de pobreza e deixou muitas famílias em situação de vulnerabilidade socioeconómica. Nos próximos meses temos que apostar em apoiar estas pessoas e garantir que também elas têm acesso a cuidados de saúde. Estamos a trabalhar em mecanismos que nos permitem apoiar as populações mais fragilizadas de forma estruturada. Apostar também nos nossos projetos de prevenção, uma vez que é, sem sombra de dúvidas, a melhor forma de promovermos a saúde oral das comunidades.

“Olhando para a motivação do grupo de colaboradores, voluntários e parceiros que temos na Organização diria que vamos continuar sempre a trabalhar até a saúde oral ser um direito universal!”

Pretendem estender os Centros de Apoio à Saúde Oral a outras regiões do País?

Para nós o crescimento é fundamental, mas deve ser feito sempre de forma sustentável. Temos todo o interesse em replicar o Centro de Apoio à Saúde Oral em outras zonas do País, no entanto, é um investimento significativo e precisamos sempre do apoio ou das autarquias locais, ou de financiamentos (públicos ou privados), mais alargados que possam permitir que o projeto se instale e permaneça, pelo menos, por cinco anos naquela região. É igualmente crucial complementar uma intervenção de assistência médico-dentária com uma vertente de prevenção e de capacitação em saúde oral junto da comunidade, pois é o primeiro passo para garantir, a médio/longo prazo, que o trabalho realizado melhora a qualidade de vida das populações.

Como atuam estes centros e que serviços disponibilizam?

Existem atualmente 4 Centros de Apoio à Saúde Oral: Porto, Braga, Lisboa e Cascais, sendo que cada um implementa a mesma metodologia de intervenção, mas adaptada ao modelo de sustentabilidade que está previsto para cada caso (através de apoios municipais, financiamentos públicos, modelos de negócio sociais, apoios mecenáticos, entre outros). A metodologia de funcionamento assenta numa lógica de parceria com entidades sociais locais, com as quais se estabelece um protocolo. A partir desse momento, os beneficiários dessas entidades são sinalizados, mediante critérios específicos, que são definidos através da avaliação da condição socioeconómica. Ou seja, todos os utentes apresentam situações de vulnerabilidade socioeconómica que os torna elegíveis para serem beneficiários do C.A.S.O. O Centro de Apoio à Saúde Oral é uma resposta de complementaridade às alternativas já disponibilizadas, quer pelo mercado, como também pelo Estado, até porque todas as pessoas elegíveis para medidas como o cheque-dentista, por exemplo, não são atendidas nas nossas clínicas e são sensibilizadas e aconselhadas a usufruírem desse serviço. No projeto C.A.S.O. os utentes recebem não só apoio clínico de medicina dentária, mas também apoio psicossocial, dado por sociólogos e psicólogos. Não nos esqueçamos de que o principal objetivo deste projeto é potenciar a inclusão social.

 

E relativamente a projetos internacionais, o que está definido para este ano?

Como já referi um dos nossos objetivos a médio prazo é potenciar a atuação da Mundo A Sorrir a nível internacional. Nos próximos 12 meses iremos continuar a trabalhar com os Ministérios da Saúde e da Educação de cada um dos países com vista a potenciar o impacto do nosso trabalho e delinear e implementar as melhores estratégias de promoção de saúde. Paralelamente temos um cronograma elaborado com as missões que integram voluntários em cada um dos países. Neste momento temos uma equipa em permanência na Guiné-Bissau e missões de média duração em São Tomé e Príncipe e Cabo-Verde. Continuaremos com um foco assertivo na capacitação dos profissionais de saúde locais.

Como tem evoluído o acesso à saúde oral e água potável nos PALOP e qual o papel da Mundo A Sorrir neste campo?

A Mundo A Sorrir trabalha de forma coordenada com os Governos locais, o que faz com que o impacto da intervenção seja potenciado. Maioritariamente trabalhamos na área da promoção da utilização de água potável e dos benefícios desta para a saúde. Trabalhamos a saúde de forma integrada: estilos de vida saudáveis, higiene e outras questões cuja necessidade nos é manifestada pelos parceiros locais.

De um modo geral, os médicos dentistas portugueses estão sensibilizados e predispostos a abraçar estas causas e o voluntariado?

O tipo de contrato de trabalho que a grande maioria dos dentistas tem em Portugal e a fragilidade dos postos de trabalho não facilita a disponibilidade de tempo para a realização de voluntariado. Diria que há muitos dentistas com perfil e gosto pelo voluntariado, sensíveis às mais variadas causas sociais, mas nem sempre conseguem disponibilizar o tempo necessário ou que gostariam para a realização de atividades de cariz voluntário. Considero, no entanto, que a grande maioria dos dentistas não está sensibilizada para o trabalho social, havendo ainda muita necessidade de sensibilização nesta área. A integração de um módulo de voluntariado nas licenciaturas, eventualmente na disciplina de medicina dentária preventiva e comunitária, poderia ser uma boa solução.

Que papel tem tido a Mundo A Sorrir nesta sensibilização?

A Mundo A Sorrir desenvolve ações em universidades, está presente em congressos, comunica de forma contínua com os voluntários e associados da Organização. E, acima de tudo, trabalha com os voluntários de forma estruturada de maneira que eles recebam formação, se sintam parte integrante na “família Mundo A Sorrir” e compreendam o impacto do seu trabalho na vida dos beneficiários. É preciso não só sensibilizar os novos voluntários, como também manter os bons voluntários de continuidade e na Mundo A Sorrir temos voluntários em permanência há 16 anos.

“Considero, no entanto, que a grande maioria dos dentistas não está sensibilizada para o trabalho social, havendo ainda muita necessidade de sensibilização nesta área. A integração de um módulo de voluntariado nas licenciaturas, eventualmente na disciplina de medicina dentária preventiva e comunitária, poderia ser uma boa solução”

Fale-me da equipa e dos voluntários. Quantos elementos constituem a estrutura da ONGD?

A estrutura da Mundo A Sorrir é constituída pelos elementos voluntários dos corpos sociais, por uma equipa de mais de trinta colaboradores(as) remunerados, com competências profissionais nas áreas da medicina dentária, das ciências sociais e da gestão e por mais de 1600 voluntários. A Mundo A Sorrir conta com o contributo de voluntários especializados em diversas áreas e estes são parte integral da Mundo A Sorrir, uma vez que estão na génese da Organização. Em Portugal, os voluntários assumem um papel fundamental na área logística e administrativa e na concretização dos projetos. No contexto internacional, o voluntário, profissional de saúde, pode integrar missões de curta ou longa duração com o objetivo principal de contribuir para a cooperação para o desenvolvimento através da realização de atividades de prevenção para a saúde, assistência médica e capacitação técnica dos profissionais locais. Todos os voluntários recebem uma formação específica para as funções que vão desempenhar. Os voluntários que desenvolvem atividades na Mundo A Sorrir podem envolver-se em todos os projetos e atividades e servir a todos os níveis de aptidões e tomada de decisões. Quer os voluntários, quer os colaboradores, da Mundo A Sorrir são parceiros na implementação da missão e dos projetos da Organização, com cada um a cumprir um papel complementar ao outro.

*Artigo publicado originalmente na edição n.º 139 da revista SAÚDE ORAL, de julho-agosto de 2021.

Este site oferece conteúdo especializado. É profissional de saúde oral?