Médicos dentistas

João Pimenta: à sua maneira

João Pimenta: à sua maneira

São 38 anos de exercício da medicina dentária, passados com uma postura reivindicativa, ativista, ética e de equilíbrio entre saúde e estética. João Pimenta foi o vencedor do Prémio Carreira na décima edição dos Prémios Saúde Oral, mas ainda tem uma luta para travar todos os dias: a da retidão no exercício da sua profissão. Em conversa com a SAÚDE ORAL, fez um balanço do setor da única maneira que sabe – a sua.

Nos Prémios Saúde Oral 2019, disse que estava verdadeiramente feliz por receber o Prémio Carreira. Porquê?

João Pimenta: Se calhar porque estava na hora de homenagear alguém sem uma verdadeira carreira, no sentido mais lato do termo. O que eu sou verdadeiramente é um clínico; diria mais, um clínico que fez muitas conferências divulgando o que fazia. Não tenho uma carreira académica ou associativa, se bem que tenha sido académico e associativo. Sou um médico dentista normal, exercendo atividade há 38 anos, numa cidade que me acolheu muito bem: Barcelos.

Foi exatamente na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto que eu e o saudoso professor Peres arquitetámos o primeiro mestrado universitário de Implantologia em Portugal. Esse mestrado tinha uma característica ímpar: os nossos alunos foram durante alguns meses para a Faculdade de Medicina adquirir uma maior formação médica. Achávamos que isso era muito importante. Na Europa não havia nada igual e nos dias de hoje faríamos o mesmo. Os médicos dentistas deveriam ter uma maior formação médica e também técnica. Aliás, tínhamos em mente um projeto de alterar completamente o plano de formação em medicina dentária, aumentando a vertente médica. Infelizmente, o professor Peres partiu e não o pudemos fazer. Mas, no mestrado, fizemos.

Nesse mestrado os alunos colocaram centenas de implantes, e era assim que deveriam ser os mestrados. Dar aos alunos a mais completa formação teórica e prática. E o que vemos agora? Deixo essa pergunta no ar…

Para ver a pequenez de algumas mentes, chegaram a colocar em dúvida se eu podia lecionar nesse mestrado. Eu e o professor Peres éramos os únicos dentro da faculdade com formação académica universitária em implantologia, feita em França. Eu não era doutorado, mas tinha formação universitária na área, que os outros não tinham. As universidades portuguesas, se tivessem mais experts a ensinar, seriam melhores. Não acha que um Manuel Neves, um Couto Viana, um João Desport, um Pedro Rodrigues, não deviam estar no ensino? Há uma grande tendência de rejeição da excelência nalgumas instituições, o que não se passa nos Estados Unidos da América.

Como associativo, fui o primeiro presidente da Assembleia Geral de uma Comissão de Médicos Dentistas que pediu a integração na Ordem dos Médicos. Fiz parte do Conselho que fez o primeiro Código de Ética e Deontologia em Medicina Dentária.

Mas, do que eu tenho mais “vaidade” foi de, juntamente com o Manuel Neves, idealizar o congresso que se tornou num dos maiores congressos europeus: o Congresso da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD). Nos 25 anos do Congresso, nem eu nem o Manuel Neves fomos ouvidos ou sequer citados pela OMD. Somente o Fontes de Carvalho e o saudoso João Carvalho o fizeram nos vídeos que a OMD mandou fazer. Ficou-me uma grande mágoa com sabor a fel de ingratidão.

Como médico dentista, sempre lutei por valores como a dignidade profissional, a ética, a retidão, contra a publicidade que foi crescendo e atinge agora proporções gigantescas e vergonhosas. Como clínico tenho noção que sempre procurei trabalhar de uma forma digna, ética e usando as técnicas mais inovadoras e comprovadas de cada época. Nessa vertente clínica não posso esquecer as conferências que fiz em muitíssimos países. Ainda hoje o faço, mas menos em Portugal. Sou convidado mais para congressos fora do País. No “circuito” luso preferem outras pessoas e outros géneros de apresentação.

Fez grande parte da sua formação lá fora. Sente que isso lhe aportou vantagens?

Na época que fiz essa formação, nos anos 1980-90, posso dizer que sim, que me trouxe vantagens, principalmente a formação que fiz, juntamente com o Manuel Neves, na Universidade de Bordéus em 1989-90. Fizemos o Diploma Universitário de Implantologia e Reabilitação Oral e no final tivemos de defender uma tese em francês. Fui durante alguns anos docente nesse Diploma Universitário.

Também fizemos muitos cursos, assistimos a muitos congressos, e não raras vezes eu e o Manuel Neves éramos os únicos portugueses. Como tínhamos “uma grande lata” e levávamos sempre garrafas de vinho do Porto, fomos conhecendo grandes figuras da medicina dentária mundial, com as quais fizemos grandes amizades.

Nos dias de hoje, podemos dizer que temos dos melhores profissionais do mundo. Mas, como disse, muitos não estão ligados a universidades. Atenção que também há grandes profissionais nas universidades. O que quero dizer é que alguns excelentes, que estão fora, deveriam estar dentro, e os medíocres no ensino deveriam sair.

Como é que vê, exatamente, a formação em medicina dentária hoje em Portugal?

Globalmente, a formação graduada é deficiente. E cada vez mais. A vertente médica esbateu-se, a técnica também, e o que vemos nos dias de hoje são jovens que acabam os seus cursos com um número reduzido de atos clínicos praticados. Bolonha contribuiu em muito para esta degradação. O curso de Medicina Dentária deveria ter seis anos. As universidades deveriam apostar na formação pós-graduada de excelência. E existem pontualmente essas formações. Um exemplo são os cursos de pós-graduação internacional em Dentisteria Adesiva Minimamente Invasiva e o curso de pós-graduação em Periodontologia Clínica Internacional, na Egas Moniz. Existem outros noutras instituições, mas infelizmente não há muitos. O que existe em quantidade são cursos privados, alguns excelentes. O que não deixa de ser curioso é a existência de clínicos e técnicos de prótese a darem cursos muito bons que poderiam ser integrados nas universidades. Todos ficariam a ganhar.

O que é que o desafio de ter inaugurado a sua clínica em nome próprio em Barcelos representou para a sua carreira?

Sempre achei que o médico dentista deveria ter o seu nome à porta. Sabia que em Barcelos chegou a haver uma clínica com o nome “Dente Anónimo”? Completamente ridículo. E agora põem muito nomes em inglês. É smile para aqui, esthetics para acolá…O nosso nome é a nossa marca. Saibamos usá-lo.

Ajudou a fundar tanto a Sociedade Portuguesa de Estética Dentária (atual SPERO) como a Associação Portuguesa de Implantologia e Biomateriais. Acredita que o associativismo é importante para a classe profissional? Ainda está ligado a estes projetos?

O associativismo é importantíssimo e devia ser acarinhado pela nossa Ordem. Eu estou ligado a tudo que me pedem, não sei dizer que não. E quando me pedem que contacte conferencistas estrangeiros muito conhecidos e meus amigos para congressos em Portugal, faço-o com todo o gosto. Mas não exerço qualquer cargo operacional em nenhuma associação ou sociedade científica.

Como é que acompanha a evolução tecnológica que tem ocorrido na medicina dentária? É um convertido ou descrente?

Nem convertido nem descrente. Eu utilizo, por exemplo, a tecnologia CAD-CAM desde que apareceu. Eu e o meu técnico de prótese dentária, Harry Lévy, introduzimos em Portugal a prótese fixa sem metal há 28 anos. Há muitos anos, alterámos o desenho das infraestruturas em zircónia, aumentando a resistência e também diminuindo quase a zero o fenómeno de chipping. E temos milhares de casos executados.

A tecnologia e o digital não são a panaceia. São uma ferramenta imprescindível e devemos ir buscar a cada tecnologia e procedimento o melhor que podem dar. Há dias, ouvi num congresso que as cerâmicas monolíticas acabarão com a estratificação e os técnicos de prótese acabarão. Isso é uma idiotice…

Quando apareceu o desenho digital do sorriso, eu fui muito crítico, porque faltava incluir componentes, como a psimorfologia e a individualização. Felizmente, este procedimento evoluiu muito e hoje é uma boa ferramenta. O que eu detesto é que digam que as ferramentas são boas para vender e para o marketing. Se olharem nessa perspetiva, o falhanço é iminente. As ferramentas são para proporcionar o melhor aos nossos pacientes.

Um outro problema é que não sei até que ponto os médicos dentistas podem fabricar dispositivos médicos sem licenças especiais de instalação de laboratórios. É uma pergunta que fica no ar…e que provavelmente terá uma resposta em breve, com normas europeias rigorosas.