Prémios Saúde Oral 2019

João Pimenta, Prémio Carreira: “Continuarei a ser ‘abjetamente livre'”

João Pimenta, que também tinha participado enquanto orador na 8.ª edição do DentalBizz, no dia 26 de junho, na Casa da Música, no Porto, foi um dos vencedores mais emotivos dos Prémios Saúde Oral 2019, levando para casa o Prémio Carreira.

O prémio foi-lhe entregue pela colega e amiga Eunice Carrilho, membro do Conselho Diretivo da Ordem dos Médicos Dentistas, responsável ainda pela sessão de encerramento do evento.

Deixamos aqui o seu discurso de agradecimento.

“Alguém disse um dia: ‘Na ânsia de chegar ao topo, muita gente subestima os primeiros degraus. Mas é neles que está a chave para o sucesso profissional.’

E se algum o tive, devo-o aos meus mestres com quem muito aprendi. Recordar nesta hora Fernando Peres é, pois, um dever, e faço-o evocando o seu nome em primeiríssimo lugar. Com ele aprendi que esta nobre arte e ciência tem de ter como base a ética, os princípios de conduta exemplares, a cabeça erguida em qualquer lugar. Aprendi que ter ‘coluna vertebral’ é muito difícil, mas também é muito bom.

Para ele, as minhas primeiras palavras.

O Papa Francisco afirmou: ‘Em cada sociedade, as famílias geram paz, porque ensinam o amor, o acolhimento e o perdão, que são os melhores antídotos contra o ódio, o preconceito e a vingança que envenenam a vida de pessoas e comunidades.’

Na minha família, sobretudo na minha mulher, filhos, netos, pais e irmãos, encontrei a âncora e a base de todas as facetas da minha vida. Porque me dão diariamente exemplos de valores, de princípios, de condutas. E nessa interação procuro sempre lutar contra os preconceitos, os vícios e as mentiras que nos toldam. Sem eles era impossível eu ter ganhado este prémio, porque não basta ter sucesso na profissão…mais do que um homem de sucesso, temos de ser um homem de valores. O meu obrigado à minha família.

Na Tora podemos ler: ‘Seu amigo, aquele que é como se fosse sua própria alma.’

Com os amigos, a tal família que escolhemos, chorei e ri, apoiei muitas vezes a minha cabeça nalguns ombros, orei em conjunto, supliquei e inconformei-me. Com os amigos percorri caminhos largos e veredas estreitas, mas quando olhei para o lado estavam lá.

E permitam-me que personifique esses amigos no Manuel Neves. Em todos os momentos, mesmo naqueles em que alguns o julgavam ausente, o encontrei. De olhar meigo, voz serena, a apontar-me rumos…os dois, num só, sentados num banco de jardim dessa Bordéus que tanto nos marcou,  meditando sobre tudo e sobre nada. Os dois lutando contra dogmas, contra os medíocres, os invejosos, os reis sem trono…porque os reis normalmente estavam nus, pensando que vestiam finas púrpuras e coroas de diamantes.

‘Dois é melhor do que um, pois se um fraquejar, o outro o erguerá. Mas sofra pelo que estiver só, pois ao cair, não terá quem o reerga’, diz o Eclesiastes.

Obrigado a todos os amigos que nunca me deixaram só.

E, com a vossa permissão invoco um outro amigo que partiu, e que do oriente eterno assiste a esta cerimónia. Obrigado João Carvalho; também tu foste um companheiro de viagem, de tormentas e de sois brilhantes.

Este prémio é mais um princípio do que um fim de carreira. Porque no dia seguinte a recebê-lo, eu vou levantar-me na mesma às 6h30 da manhã, trabalhar duramente, entregue a mim próprio e motivando a minha equipa de trabalho (a quem também agradeço) a fazerem sempre mais e melhor, numa selva sem rei nem roque onde vale tudo porque nela reina a impunidade.

No dia seguinte, vou continuar a atender chamadas de colegas a pedirem conselhos sobre formação, a dizerem-me que as minhas conferências os motivaram, a ‘chorarem’ pelo sofrimento de terem de trabalhar a ganharem menos do que a minha empregada de casa.

No dia seguinte, continuarei a dizer alto e bom som que deixamos e deixaram a medicina dentária bater no lodo…mas que pode existir um futuro mais risonho, provavelmente com outras gentes, outras mentes e outras atitudes. Com mais e melhor regulação.

No dia seguinte, vou continuar a ouvir o Couto Viana a dizer-me: ‘Se me dedico à prótese foi porque um dia o ouvi numa conferência e vi que havia um mundo diferente na medicina dentária’; e o Manuel Neves a sussurrar-me ‘Podes entrar em qualquer porta de cabeça levantada porque não deves nada a ninguém’.

No dia seguinte, continuarei a ser ‘abjetamente livre’ que é a única forma de sermos livres, como dizia Agostinho da Silva. ‘Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade, nem segurança’, disse Benjamin Franklin…Eu continuarei essencialmente livre, fugindo de um cinzentismo crescente numa sociedade que não combate eficazmente a corrupção e as faltas de carácter. Sempre procurando na força, na sabedoria e na beleza as luzes do meu caminho.

Porque o dia seguinte será sempre o primeiro. Até que o eterno arquiteto o permita.”