Medicina Dentária

Unidade de Saúde Santa Casa Liberdade: “A população que atendemos nunca foi ao médico dentista”

Unidade de Saúde Santa Casa Liberdade

A Unidade de Saúde Santa Casa Liberdade, situada num bairro carenciado de Lisboa, distingue-se pelo facto uma das suas valências ser a medicina dentária. Uma vez que os pacientes são aqueles indivíduos que nunca foram a uma consulta de medicina dentária na vida, “ainda não conseguimos privilegiar a prevenção porque as pessoas chegam aqui em fim de linha, ou seja, a precisar de reabilitação”.

O Bairro da Liberdade, em Lisboa, ao lado do Bairro da Serafina é um local cheio de contrastes. A estrada a precisar de asfalto, as casas em mau estado de conservação, comungam com uma vista esplêndida para as torres das Amoreiras, uma das zonas mais cosmopolitas da capital. Mas mais deslumbrante do que a vista é mesmo a proximidade ao Aqueduto das Águas Livres. Foi precisamente neste bairro que nasceu há mais de dois anos a Unidade de Saúde Santa Casa (USSC) Liberdade, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Esta poderia ser mais uma entre o rol de unidades deste género que a instituição detém por toda a cidade. “A Santa Casa tem uma rede de unidades de proximidade (cuidados de saúde primários) que referenciam, quando necessário, os casos para a unidade Dr. J. Domingos Barreiro (cuidados secundários), em Marvila, que tem cerca de 50 anos, onde existem especialidades médicas como urologia, ginecologia e oftalmologia”, explica o médico dentista André Brandão de Almeida.

Mas a USSC Liberdade não é apenas mais uma unidade. Logo à partida há uma particularidade que a diferencia das restantes: a Medicina Dentária. De todas as unidades de proximidade da Santa Casa, “a única que possui a valência da medicina dentária é esta”, declara o médico dentista. Mas há outra característica que a distingue das restantes unidades: os cuidados de saúde na Liberdade são sempre prestados de forma gratuita (sem taxa moderadora) aos moradores do bairro, seja qual for a sua condição económica ou social. “Só atendemos as pessoas do Bairro da Liberdade e da Serafina”, indica André Brandão de Almeida, revelando que “se estima que tenha uma população de 7.500 pessoas. Contudo, existem muitas pessoas que não estão documentadas e que não fazem parte da estatística, que por exemplo vêm dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) ou refugiados”.

Voltando à questão do acesso, para a compreendermos melhor André Brandão de Almeida explica a ‘mecânica’ do acesso aos cuidados de saúde nas unidades da Santa Casa: “para se ter acesso é necessário ter um cartão ou, quando não tem documentos, uma credencial providenciada pela Santa Casa. O cartão tem quatro escalões, sendo que quem define o escalão a que cada individuo pertence é uma assistente social após uma entrevista. No primeiro escalão não se paga nada e no último paga-se 75% da taxa moderadora”.

unidade de saúde clínica santa casa - consultório

Na USSC Liberdade “não é preciso este cartão, basta apresentar um documento comprovativo de morada para se ter acesso aos cuidados de saúde que aqui se prestam”. O objetivo desta ‘medida’ é “tentar perceber o impacto que uma unidade de proximidade a custo zero tem na comunidade, nomeadamente se é sustentável e se as pessoas aderem”. Até à data, “os resultados são bons, apesar de não se notarem diariamente”, expõe o médico dentista. “Mas quando as pessoas chegam aqui com dificuldades de mastigação, de fonética ou medo de sorrir e, depois de reabilitadas, a sua saúde oral melhora ao ponto de deixarem de faltar ao trabalho ou à escola é muito gratificante para nós. E ouvimos relatos destes todos os dias”, declara André Brandão de Almeida, para quem estes testemunhos são a prova de que, efetivamente, “contribuímos para que haja ganhos em saúde”.

3.500 consultas

Na USSC Liberdade existem consultas de saúde infantil, saúde do adulto, enfermagem, fisiatria e fisioterapia (com ginásio), vacinação e saúde oral. Em termos de equipa é constituída por três médicos de medicina geral e familiar, dois médicos dentistas, uma higienista oral, dois fisiatras, quatro fisioterapeutas, três enfermeiros, dois secretários clínicos e um auxiliar.

Para André Brandão de Almeida, o facto de “conseguimos congregar praticamente todos os cuidados de saúde primários é uma mais-valia” não só para a população, como para a própria equipa de medicina dentária, já que “estamos sempre em contacto com os outros profissionais de saúde, ou seja, o funcionamento da nossa unidade é verdadeiramente integrador”.

A equipa de medicina dentária é constituída por André Brandão de Almeida (encarregue da cirurgia e patologia oral), pelo médico dentista David Janeiro (que se dedica à endodontia e à dentisteria) e pela higienista oral Sara Neves, “que está cá todos os dias. Eu e o David alternamos entre esta unidade e a J. Domingos Barreiro”. Na USSC Liberdade existem cerca de 1.800 pacientes inscritos e cerca de 725 são utentes da consulta de medicina dentária. “Desde que iniciámos a atividade até ao final de 2016 realizámos 3.500 consultas”, conta o médico dentista, especificando que “muitos dos utentes precisam de várias consultas para conseguirmos resolver os problemas”.

Mas antes de chegar à consulta do ‘departamento’ de medicina dentária da USSC Liberdade, os utentes têm de passar primeiro pela consulta de medicina geral familiar. “Tudo começa na consulta de medicina geral familiar, onde o médico faz a primeira avaliação do doente e mediante o quadro clínico encaminha para a devida especialidade médica. Se as queixas forem do foro da medicina dentária, a pessoa é encaminhada para a nossa consulta. Se for no âmbito de outra especialidade é encaminhada para a unidade Dr. J. Domingos Barreiro”, explica André Brandão de Almeida.

Na primeira consulta de medicina dentária “fazemos sempre uma avaliação e nunca fazemos tratamentos”, salienta o médico dentista. “Costumamos conversar com a pessoa, recolher a história clinica, elaborar o plano de tratamento e fazer um exame intra e extraoral muito detalhado”. Quando o caso exige próteses, “o pedido é feito aqui, mas depois a pessoa terá de ir à J. Domingos Barreiro colocá-la, pois é lá que elas são feitas”.

Muitas vezes, “os casos são realmente de reabilitação oral total. Já vi muitos jovens de 18 anos com dez dentes na boca, a acharem que é normal”, revela. Uma realidade chocante, mas compreensível quando se fica consciente de que “a população que atendemos nunca foi ao médico dentista, quanto muito foi à urgência do Hospital de Santa Maria porque teve um abcesso”.

Fim de linha

A instituição Santa Casa “tem muita credibilidade”, mas isto não significa que a USSC Liberdade não enfrente desafios. Um deles está relacionado com a desconfiança. “As pessoas são bastante desconfiadas e se associarmos isso o medo de ir ao dentista pode ser problemático”, refere André Brandão de Almeida. Quanto à prevenção, nesta unidade é feita de duas formas: por um lado “a higienista oral vai fazendo sempre recomendações, sobretudo às crianças” e, por outro, “é a equipa de enfermagem da unidade que para todas as áreas tenta fazer a prevenção”.

Não obstante os esforços, o médico dentista alerta que “ainda não conseguimos privilegiar a prevenção porque as pessoas chegam aqui em fim de linha, ou seja, a precisarem de reabilitação”. A unidade está vocacionada para isto, mas “espero que, com o passar dos anos, possamos ter a vertente da prevenção mais presente”.

Investigação e formação

No que diz respeito ao futuro, André Brandão de Almeida explica que a Santa Casa também tem muitos lares de idosos, juvenis, de pessoas com problemas psiquiátricos e de cuidados paliativos” e, neste sentido, seria bom que estas pessoas, sobretudo as acamadas, tivessem consultas de vigilância”. Assim sendo, o “médico dentista deslocar-se-ia ao local e, ao detetar infeções conseguiria ganhos em saúde porque há indivíduos que, por exemplo, têm uma infeção que nunca foi detetada e de repente ficam com uma pneumonia”.

Outra oportunidade, “dada a diversidade patológica que temos aqui e a quantidade de pacientes, é ao nível da investigação clinica”. Na opinião do médico dentista, este é um caminho pelo qual a Santa Casa pode avançar: “tornar-se num centro de referência nesta área”. Sendo que, “paulatinamente poderia estruturar a área da formação destinada a médicos dentistas, por exemplo em patologia oral porque muitos destes doentes não vão às clinicas. Os médicos dentistas podem vir a estas unidades fazer uma residência durante uns meses e ter contacto com situações que, por norma, não veem nos consultórios”.

Para André Brandão de Almeida, “as clínicas não devem ter receio que a integração dos médicos dentistas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) afete o ‘negócio’ – a maior parte dos médicos dentistas são empresários e por isso têm de estar atentos a este lado”. Neste sentido, explica que “das pessoas que irão recorrer aos serviços dos centros de saúde, à semelhança daquelas que recorrem aos cuidados da USSC Liberdade, 80% nunca iriam a uma clínica”. No fundo estamos a falar de indivíduos que “não vão fazer consultas de reabilitação com implantes ou tratamentos estéticos como branqueamento”. Daí o médico dentista defender que “as clinicas terão de se diferenciar mais e se o fizerem creio que conseguiremos todos sobreviver bem”.

André Brandão de Almeida considera que fez um “trajeto algo sinuoso na medicina dentária”. “Fui estudar, interrompi o curso quase no início, pois na altura interessava-me muito por política. Foi-me lançado o desafio para integrar o projeto de candidatura de um partido político à Assembleia da República e aceitei”. Apesar de não ter sido eleito diretamente, “fui repescado e estive um mandato na Assembleia da República”.

Após o término do mandato regressou ao Porto para terminar o curso. “Empenhei-me na medicina dentária e acabei por ir para Barcelona fazer Erasmus durante seis meses”. Foi nesta cidade espanhola que fez um estágio “num centro de atenção primária, que é semelhante ao nosso centro de saúde, e foi aí que percebi que quem recorria àquele serviço eram os imigrantes, os sem-abrigos, etc., ou seja, pessoas que não frequentavam outro tipo de consulta”. Quando regressou a Portugal fez um mestrado “na Universidade Católica de gestão de unidades de saúde e a minha tese foi sobre a inclusão no Serviço Nacional de Saúde (SNS) dos cuidados de medicina dentária”.

No fundo, André Brandão de Almeida ‘casou’ a reflexão da tese com a experiência de Barcelona “porque percebi que a Santa Casa tinha uma rede de cuidados de proximidade onde não havia medicina dentária, e apresentei uma proposta”, que foi aceite. “Disseram-me que iam abrir uma unidade nova, onde tinham espaço e ainda tinham uma cadeira a mais”. Quanto ao facto de se ver num bairro carenciado como o da Liberdade, o médico dentista ressalva que “nunca tive receios e até agora confirmou-se que não tinha razões para ter. Sabemos que os problemas existem, mas nunca senti qualquer problema”.