Entrevista

“Se souberem que existimos passamos a ser opção”

tiago fonseca

A Clínica de Glândulas Salivares é uma unidade funcional especializada da Casa de Saúde da Boavista, no Porto. Dedica-se à prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças das glândulas salivares. Tiago Fonseca, médico estomatologista, assume a liderança de um projeto pioneiro em que a motivação, diferenciação e dedicação pretendem estabelecer um novo rumo para as doenças das glândulas salivares.

Como surgiu a ideia de criar a Clínica de Glândulas Salivares?

O projeto surgiu pela perceção que as doenças das glândulas salivares são simultaneamente “a terra de todos e a terra de ninguém”! Passo a explicar: um problema do coração é do foro da Cardiologia (se for um problema médico) ou do âmbito da Cirurgia Cardio-Torácica (se for um problema cirúrgico). Uma patologia renal, da Nefrologia ou da Urologia (na mesma distinção, médica vs cirúrgica). Mas se se considerar que o olho é abordado pela Oftalmologia e a boca pela Estomatologia, existem outros órgãos (ou porções do corpo humano) em que uma relação inequívoca é mais difícil de estabelecer. Quem “mexe” na coluna, a Ortopedia ou a Neurocirurgia? E quem “faz” um nariz: Cirurgia Maxilo-Facial, Cirurgia Plástica ou Otorrinolaringologia? Muitas especialidades chamam a si a abordagem da patologia salivar (as glândulas salivares são até “geridas” pela Medicina Interna e pela Cirurgia Geral). Mas – é minha perceção – são poucos os especialistas que se dedicam a estes órgãos, quer aos problemas médicos, quer às situações cirúrgicas. A ausência de concentração da patologia salivar numa única especialidade resulta na dispersão da sua abordagem. E isso acarreta algumas dificuldades, diagnósticas e terapêuticas. Foi para suprir um certo “vazio” diagnóstico e terapêutico que surgiu a ideia de criar a Clínica de Glândulas Salivares.

glândulas salivares

É uma área em desenvolvimento? Ou seja, notam um aumento de patologias relacionadas com esta área?

Sempre existiu patologia salivar. A dispersão da abordagem das doenças das glândulas salivares é responsável pela dificuldade de cada profissional em adquirir vivência – e experiência – clínica. Além disso, cria a ideia – em cada profissional, individualmente – que patologia de glândulas salivares é “coisa rara”. Mas, se existir um local agregador de doentes com problemas das glândulas salivares, com o tempo esse centro passa a ter uma atividade assistencial semelhante à de qualquer outra unidade especializada. Passa a ser um local de referenciação. Um local de referenciação possibilita a tradução da aprendizagem teórica na vivência – e experiência – clínica. E um local de referenciação também serve para aumentar a consciencialização nos profissionais de saúde e, muito importante, na população em geral que os problemas inerentes às glândulas salivares, ou que se repercutem nas glândulas salivares são, afinal, “coisa comum”. Com certeza não tão comuns quanto a hipertensão ou a diabetes (em que o subdiagnóstico e o subtratamento também são importantes) mas, ainda assim, muito prevalentes. Portanto, não notamos um aumento de patologias das glândulas salivares; notamos sim – e ainda bem – um aumento da perceção que estes problemas existem e que é importante e possível resolvê-los.

Trabalham por referenciação?

Sim, principalmente, quer interna, quer externa. Mas também temos doentes que nos procuram por iniciativa própria, através de pesquisa individual e não por indicação de um profissional de saúde.

Quantas pessoas têm a trabalhar na equipa?

Desde logo, a equipa apresenta três vertentes: no apoio à consulta, no auxílio das sialoendoscopias e nas cirurgias. Excluindo pessoal administrativo e auxiliar, no total – incluindo-me – são sete pessoas.

O médico dentista é importante na identificação de problemas das glândulas salivares?

Muito! Por um lado, se faz parte dos curricula dos cursos de medicina dentária a abordagem da anatomia, da fisiologia, da clínica e da patologia das glândulas salivares, por outro lado também faz parte o diagnóstico atempado dos problemas destes órgãos através destes profissionais de saúde. Que, aliás, estão numa posição privilegiada de o fazer, uma vez que são quem diariamente mais lida com o aparelho estomatognático (isto é, o conjunto de estruturas relacionadas com a cavidade oral, glândulas salivares incluídas, portanto). Sobretudo em primeiras consultas é fácil e rápido perguntar se o doente tem, ou já teve, queixas nas regiões das glândulas salivares principais e alterações da salivação. Palpar, sobretudo as regiões parotídea e submandibular, é também fácil e rápido. No entanto, aquilo que acaba por se verificar é um maior direcionamento da atenção para a patologia dento-alveolar e periodontal… Mas os médicos dentistas não só são muito importantes na identificação dos problemas, como também são fundamentais na prevenção de alguns desses problemas, nomeadamente no que diz respeito à patologia inflamatória. O controlo da flora bacteriana comensal intra-oral é a vertente mais evidente. E isso consegue-se através do ensino de técnicas de higiene oral, tratamento da cárie e controlo da periodontite.

Como é feito o diagnóstico?

Pergunta chave! Como já referi noutra ocasião, enquanto órgãos, as GS apresentam uma das maiores variedades de patologias, quer de origem própria, quer resultantes de alterações sistémicas. Mas, por outro lado, a manifestação dessas patologias é relativamente exígua. Dor e/ou tumefação na localização das glândulas parótida, submandibular e sublinguais são, por vezes, as únicas manifestações. Sensação de boca seca – xerostomia – e/ou alteração do sentido do gosto – disgeusia – são outros sintomas. Existirem apenas quatro sintomas principais da grande maioria dos problemas das glândulas salivares é, simultaneamente, “bom” e “mau”. Bom porque é “linear”: não há muitas outras queixas, apontam para as glândulas salivares. Mau já que, sendo apenas estes, são “vagos”, ou seja, é preciso pormenorizar de modo a obtermos a melhor orientação sobre a que é que cada um corresponde. Esta é a parte da anamnese, embora por esta altura já seja possível ter-se uma ideia bastante fidedigna da situação: se é uma alteração inflamatória, infeciosa, obstrutiva, neoplásica, iatrogénica; se é um problema intrínseco ou extrínseco. Depois segue-se o exame objetivo, extra e intra-oral, nas componentes da inspeção e da palpação. Por último, o diagnóstico é complementado através de exames direcionados, maioritariamente imagiológicos.

Fazem algum tipo de exames complementares?

Sim. Temos disponíveis todos os exames relacionados com glândulas salivares. Uns são efetuados na Casa de Saúde da Boavista, por mim próprio, como as biopsias e as sialoendoscopias. Outros são realizados no SMIC da Boavista (contíguo à CSB). Aí são feitas ecografias, ressonâncias magnéticas e sialografias.

O que diferencia a Clínica de Glândulas Salivares?

A Clínica tem vindo a tornar-se o último recurso de muitos doentes “perdidos”. Doentes já consultados por vários profissionais de saúde, em seguimento durante meses ou anos, com situações não esclarecidas ou alvo de tratamentos mais ou menos empíricos… São muitos dos doentes que recorrem até nós. Se é um problema de glândulas salivares nós temos a solução! É quase um slogan… Na Clínica de Glândulas Salivares os doentes têm a nossa maior atenção. Mas o mais importante é que os doentes da Clínica podem contar com o estado da arte na terapêutica das suas patologias. Isto significa que, com os recursos disponíveis, fazemos os mesmos tipos de tratamentos que são realizados em centros de referência europeus. Em termos médicos falo, por exemplo, no controlo da Parotidite Juvenil Recorrente, da Síndrome de Sjögren e da Síndrome de Frey. Em termos cirúrgicos falo, por exemplo, na abordagem da rânula, da litíase e de tumores benignos (como sendo exemplos de patologias na sublingual, na submandibular e na parótida, respetivamente). Damos primazia ao órgão e à sua função e, seguindo esse princípio, fazemos intervenções minimamente invasivas, mais conservadoras, mais vantajosas sob vários aspetos. Em súmula, o que nos diferencia assenta apenas numa particularidade: o conhecimento.

Objetivos a curto prazo?

Sendo um projeto ainda jovem, numa área muito específica, o objetivo a curto prazo é só um: darmo-nos a conhecer. Se souberem que existimos passamos a ser opção. É o primeiro objetivo.

Entrou para o curso de Medicina, na Faculdade de Medicina de Lisboa, em 1998. Fez o Ano Comum do Internato Médico em 2005 e acabou por escolher Estomatologia por causa das glândulas salivares. Realizou a Formação Específica desta especialidade no Hospital de São José e durante o internato fez várias formações complementares. Acabou por enveredar também por uma pós-graduação e por um mestrado na área da Estomatologia. Quando terminou o internato continuou a atividade médica enquanto assistente hospitalar no Hospital de São João. Desde o final da licenciatura até aos primeiros anos como especialista, ou seja, durante oito anos, teve atividade docente enquanto assistente de anatomia nas Faculdades de Medicina e de Farmácia da Universidade de Lisboa e também na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Atualmente é docente voluntário da área clínica optativa de Estomatologia do Mestrado Integrado em Medicina da FMUP e iniciou atividade assistencial e formativa a nível extra-hospitalar. Acabou por ser empreendedor com o projeto da Clínica de Glândulas Salivares na Casa de Saúde da Boavista.