Entrevista

(cont.) Paulo Malo: “Marcámos definitivamente a história da medicina dentária a nível mundial”

Quando começou a abrir essas portas como se sentiu?

Cada vez que descobríamos uma mentira era uma alegria enorme porque se abriam portas, o nosso knowledge cresceu brutalmente. Chegámos a um ponto muito superior, em termos de knowledge, a qualquer dentista no mundo porque começámos a ver mais além e a ter acesso a informação que eles não tinham. Isto já foi há 20 anos e permitiu mantermos a liderança nestes últimos 20 anos. A cereja no topo do bolo foi quando dissemos: vamos fazer tudo com carga imediata. Foi um escândalo! Fizemos o All-on-4 que é baseado em cinco coisas que eram proibidas: fazer cantilevers, colocar 4 implantes para 12 dentes, inclinar os implantes, colocar implantes mais curtos que a própria estrutura e fazer função imediata. E mais: proibido fazer os dentes em plástico porque naquela altura outra mentira é que se pensava que as estruturas tinham de ser rígidas. Ainda hoje há dentistas que pensam que as estruturas não podem ser flexíveis, o que é mentira. A dificuldade de lançar o All-on-4 é porque na verdade é baseado em seis mentiras.

Como conseguiu provar que o que dizia era verdade?

Com os estudos científicos, mas a comunidade dentária mundial não é muito científica, é emocional. É 99% emocional e 1% científica. Os dentistas não leem, não estudam, são praticantes e esta é a grande dificuldade. Quando falamos com cientistas, físicos ou matemáticos dizemos – ‘está aqui a prova’ – e toda a gente vê que passa a ser assim. Na dentária não. Fazemos uma coisa, provamos, mas 99% continua a dizer que é mentira.

Entrevista com Paulo Malo, Crédito: Rodrigo Cabrita

Porquê?

Porque é uma comunidade que a educação da Medicina Dentária não é científica, passa por protocolos que as industrias dão. O dentista é uma pessoa que foi treinada para resolver problemas que estão no livro, não foi treinado para ser um cientista e tem dificuldade em perceber coisas que saíram do seu protocolo. As faculdades têm essa característica, de não incentivar o questionar. Dão protocolos. A dificuldade do lançamento do All-on-4 foi porque se fosse uma técnica com seis fatores, três deles aceites e três não aceites era mais fácil. O facto de ser uma técnica cujos seis fatores característicos eram algo que não se podia fazer faz com que pareça uma mentira completa. Perdi a licença médica em Portugal durante dois meses por falsas alegações e isto está errado. Não podemos ter o juiz e a acusação na mesma pessoa. Na OMD há um erro de ilegalidade, o juiz e o acusador são a mesma pessoa e faz processos como o meu de uma coisa que hoje em dia é vista como uma das mais importantes na medicina dentária no mundo. Tem de haver a capacidade dos dentistas recorrerem aos tribunais fora da OMD. É uma falha gravíssima e paguei por isso.

Depois algumas pessoas começaram a fazer a técnica no estrangeiro e começou a ganhar credibilidade. É sempre assim. Portugal é um país pequeno e é preciso ser reconhecido lá fora para ser reconhecido cá dentro. Mas é do ser humano. Está descrito que existe um processo de aceitação de uma nova teoria: a primeira coisa que a matilha faz é ignorar a inovação, tentar que não seja visível. O segundo passo é lutar contra a inovação, dizer que é tudo mentira. Passei por isto, nos congressos diziam que a técnica era mentira, que não podia funcionar, e eu com 300 casos para demonstrar. É de loucos. O terceiro passo é dizer que não foi aquela pessoa que inventou, o 4º passo é a aceitação e o 5º é reconhecer a pessoa como o inventor.

Já chegou ao 5º passo?

Sim, já lá cheguei. Aliás, estou entre o 4º e o 5º (risos). Ao fim de 20 anos. Hoje em dia se perguntar quem inventou o All-on-4 vão dizer que fui eu, mas ainda há pessoas que dizem que não. Mas a carga imediata unitária ninguém sabe. Se perguntar quem inventou o implante zigomático de zero graus ninguém sabe, quem fez o Procera dizem que foi a Nobel Biocare, porque a maior parte dos produtos que desenhei e as técnicas que desenvolvemos foram vendidas à Nobel Biocare. Isso tem um impacto muito grande. As patentes são minhas, mas em conjunto com a empresa.

E como chegámos a este edifício e clínicas espalhadas pelo mundo?

Durante dez anos sofremos um bocado porque não conseguíamos que uma empresa de implantes adotasse e divulgasse a técnica. Se nenhuma empresa adota a técnica, esta nunca vai ser conhecida. Era essencial que uma grande empresa pegasse e desenvolvesse a técnica, batemos à porta de todos até que a Nobel Biocare comprou a ideia. Durante dez anos batemos à porta da Nobel Biocare e tudo mudou quando a empresa colocou como presidente uma mulher que vinha da área da cardiologia, ou seja, não percebia nada de dentes. Era uma pessoa de fora, que não tinha sido influenciada pelos dentistas. E quando chegou sabia que era a minha grande hipótese, tinha de falar com ela no primeiro dia que se sentasse no escritório, antes mesmo que falasse com outro dentista e que este dissesse que era tudo mentira.

Entrevista com Paulo Malo,
Crédito: Rodrigo Cabrita

Na altura já era um dos grandes clientes mundiais da Nobel Biocare, pedi uma audiência/reunião porque já tinha algum background de prestígio, dava palestras e ela aceitou falar comigo e expliquei a história. Aceitou o projeto e acabaram por lançá-lo. Hoje em dia é um projeto mundial, todas as empresas de material dentário aceitaram o projeto, mudaram-lhe o nome e fizeram igual. A única empresa que me enviou email a agradecer e a avisar que ia adotar projeto com um novo nome, mas que ficava escrito que fui eu que fiz, foi a Straumann. Todas as outras, nenhuma teve a honestidade e a ética de enviar email a dizer que iam lançar um produto que eu tinha criado.

Antes de a Nobel Biocare comprar a patente já aplicava o conceito na prática diária?

Sim, mas era um problema porque quando abrimos nos EUA não pude aplicar na prática diária por causa dos possíveis processos. Fizemos uma empresa com um nome diferente, líder nos EUA em All-on-4.

Em Portugal como resolveu o processo de ficar sem licença durante dois meses?

Comecei a tratar da minha emigração para os Estados Unidos porque foi dito que, se continuasse a exercer, retiravam a licença em definitivo.

E foi para os EUA?

Não. Passaram os dois meses, falei com o bastonário que disse que compreendia a situação, mas que se ultrapassava. Arranjei emprego nos EUA até a ganhar mais, mas passaram os dois meses e continuei cá. Aliás, nos dois meses trabalhei sempre porque a clinica já tinha alguma dimensão e era impossível saberem se estava a trabalhar.

Como lidou durante o seu percurso com as invejas?

Não ligo a isso. Não é um problema português, é um problema no mundo inteiro – a inveja, o ego – mas em Portugal nota-se mais porque é um país pequeno. É um problema do ser humano. Não ligo a essas coisas nem sei quem disse o quê. Sinceramente esqueço, não tenho a mínima ideia, não quero saber, não estou interessado em saber porque isso vai tirar-me alguma atenção daquilo que é importante na minha vida. Não é o que as outras pessoas pensam de mim. Isso vale zero.

Consegue chegar a esse ponto de ignorar?

Consigo. A técnica para ignorar as pessoas é não ler nada sobre si e quando vierem contar nem chegar a ouvir. Não sou cusco socialmente, não leio revistas cor-de-rosa, leio notícias, mas estou desligado do mundo social, com as suas vantagens e desvantagens. Não sei o nome de um artista de cinema, nunca fui ver um filme, não vou ao cinema há dez anos, nunca fui a concertos a não ser em miúdo, nunca fui ao teatro, não sei quem é quem.

Quais são os seus hobbies?

Agricultura, pecuária, dentária e gestão.

  E como é o seu dia-a-dia?

Nas primeiras horas do dia estou a ver emails, a pensar, ou se estou na herdade começo a trabalhar. O sol nasce às 06h30 e às 06h00 estou a tomar banho, às 06h20 a beber o café e às 06h30 estou em cima do trator. Faço tudo na herdade e neste momento estou a semear. Passo 10h por dia em cima do trator. Neste momento tenho de terminar tudo até domingo porque na 2ª feira vai chover.

Entrevista com Paulo Malo, Crédito: Rodrigo Cabrita

Faz desporto?

Não, fiz rugby e basquetebol profissional, atletismo e hoje em dia o meu desporto é andar a pé na herdade. Vou ao ginásio sempre que possível.

Construiu este império pelo mundo. Era uma prioridade ou foi acontecendo?

Foi acontecendo. Não estou muito interessado em saber o tamanho, os números passam-me ao lado. Tenho pessoas que controlam isso. Quer dizer, sei o tamanho que temos, mas não estou focado nisso. Estou focado em coisas que me dão gozo: desenvolver produtos novos. Tenho uma lista de coisas que não conseguimos fazer e estou focado nisso. E estou preocupado com três coisas: temos alguns problemas em medicina dentária que não conseguimos resolver. Estou preocupado porque tenho até domingo de semear o sorgo todo e a terceira coisa com a qual estou preocupado é que o meu filho e a minha filha percebam que é mais importante ao fim-de-semana ir para a herdade e trabalhar do que estar no café e ir aos concertos e fumar e beber gin tónico. Espero conseguir alcançar o dia em que os meus filhos digam que preferem ir para a herdade do que até às 03h00 na discoteca a beber caipirinhas. Se conseguir fazer isto tive sucesso na minha vida!

Em relação à saúde financeira do projeto liga a essas notícias ou também passam ao lado?

Oiça: a Malo Clinic foi fundada há 25 anos e durante esse período todos os anos dizem que temos um problema. O nosso grupo é característico em duas coisas: inovação e agressivo na expansão. Somos a única empresa dentária que é uma empresa internacional. Mais: somos das poucas empresas médicas internacionais. Grandes hospitais, mesmo os americanos, não conseguiram internacionalizar. Somos a única empresa no mundo na área dentária e médica presente em quase 20 países, com mais de 200 clínicas. Esta agressividade e a inovação gera atenção, invejas, qualquer coisa que acontece é notícia. Há 25 anos que tenho este grupo e há 25 anos que todos os anos temos um problema, mas nunca um problema que ponha em causa a minha existência. Todos os anos há notícias que vamos fechar e depois é fomentado por alguns. Todos temos inveja, é uma característica do ser humano e até faz falta. Agora a inveja tem limites e a partir de um determinado limite passa a ser patológico. Bloqueia. A inveja passa por pensar que se é melhor que o outro.

A constante procura pela inovação está sempre presente em si? Está sempre a procurar inovar? É um eterno insatisfeito?

Sim, evidentemente. Para se inovar temos de ter algumas características e a número um é não estar satisfeito com o que existe. Depois tem de haver a capacidade de ter uma ideia para melhorar. Depois ter a capacidade e energia de fazer. E depois a capacidade de convencer empresas do processo. O processo da inovação não é dizer ‘tenho uma ideia’. Isso não é nada. Idiotas há muitos. O problema é ter uma ideia e levar o projeto para a frente.

Leia a primeira parte