Médicos dentistas

Opinião: Medicina dentária – um caso isolado?

Ricardo Faria e Almeida diz-se alvo de “ataque pessoal” depois de aceitar fazer parte do Conselho Médico da Médis

Médico dentista, membro do Conselho Diretivo e presidente da Comissão Científica e do Centro de Formação Contínua da Ordem dos Médicos Dentistas

Os médicos dentistas só serão parte de uma solução se não forem um problema para si próprios.

As reflexões na nossa classe estão muito centradas na premissa de que a profissão é um caso sui generis no contexto de profissões similares em Portugal e na Europa.

A forma como estas discussões são efetuadas no seu global ilustram a maturidade de uma classe profissional que exerce uma profissão regulada, mas também a responsabilidade que cada um de nós assume enquanto parte de um coletivo profissional. E, é certo, alguns têm ou tiveram responsabilidades que não podem “esquecer” à medida das suas conveniências, quando, sobretudo de forma pública, participam nessas discussões.

Devemos ter consciência de que os locais em que se desenvolvem estas trocas de impressões exigem ponderação. As redes sociais permitem que as conversas facilmente extravasem limites. Essa forma de argumentação, por vezes perniciosa, atinge o seu auge quando se pretende alimentar a ilusão de que a medicina dentária vive numa bolha. Mentira!

É óbvio que existem problemas, no entanto, para uma discussão séria e profícua convém perguntar se as outras profissões reguladas também não vivem crises? Só existem taxas e taxinhas para os médicos dentistas? A regulação só não funciona para os médicos dentistas? Só para os médicos dentistas é que emigrar é uma fatalidade, para os médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, engenheiros é uma oportunidade? A concorrência desleal só existe nesta área?

As dificuldades são transversais a outras profissões liberais. E para que se possa de forma proveitosa tentar melhorar, é necessário, conscientes das dificuldades, refletir, planear e agir, apresentando soluções.

No que à formação diz respeito, área na qual tenho tido responsabilidades como membro da Direção da Ordem, existem sobretudo dois aspetos centrais: a qualidade da formação e a empregabilidade. Sempre com a preocupação transversal de universalização da prestação de cuidados de saúde de qualidade às populações independentemente da sua condição. Sobretudo, como a Ordem tem vindo a fazer de forma notável, na promoção da procura.

A medicina dentária em Portugal procura caminhos para se tornar mais forte, apostando na formação contínua e na formação pós-graduada, como o projeto de implementação de especialidades e de competências que a Ordem tem em curso.

Em segundo lugar, necessitamos de uma estratégia integrada para a formação. Vejam-se as conclusões do seminário “Medicina Dentária: Do Ensino à Profissão. Realidades e Perspetivas. Entre a Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) e as Instituições de Ensino Superior (IES) Portuguesas”. É um primeiro passo para que todos assumam as suas responsabilidades em matérias essenciais para o futuro da profissão.

O Estado é também insubstituível para uma visão estratégica: não esquecendo a questão dos números clausus, da regulação, da concorrência, da carga fiscal, das seguradoras e da criação de condições da promoção da universalização do acesso das populações a cuidados efetivos de saúde oral, seja através do SNS ou de agentes privados, com remunerações dignas.

Tenhamos em mente que será mais fácil se estivermos empenhados, apresentando ideias e soluções, e não apenas centrados na crítica, legítima em democracia, mas conscientes de que tudo isto só nos permitirá seguir o caminho que desejamos, com ideias e soluções que permitam resolver os problemas que temos pela frente.

*Artigo de opinião publicado na revista SAÚDE ORAL n.º 128, de setembro-outubro.