Clínica

“O técnico de prótese e o médico dentista estão ao mesmo nível”

"Os técnicos de prótese dentária e os médicos dentistas estão ao mesmo nível"

Longe vai o tempo em que médico dentista estava num patamar superior ao protésico. Hoje, ambos os profissionais têm de estar ao mesmo nível diz Manuel Neves, médico dentista com clínica estabelecida na cidade do Porto. Hoje, a sua clínica é totalmente digital, de resto o grande desafio para os próximos anos.

Não faz sentido uma clínica não ter laboratório próprio, diz Manuel Neves, médico dentista com clínica estabelecida na cidade do Porto. “Porque perde-se muito tempo, não fica uma prática ágil”, explicou à SAÚDE ORAL. “Não posso estar a fazer uma estrutura de uma prótese e de repente haver algo que não está a correr tão bem, querer chamar o técnico de prótese para que me ajude a resolver o problema e ele não estar disponível. Hoje, o técnico de prótese e o médico dentista estão ao mesmo nível. Um bom técnico tem, nesta área, as mesmas qualidades em termos de conhecimentos científicos do que um médico”. O que não é fácil já que apenas há uma dezena de anos é que se investiu nesta área. “Hoje temos técnicos a trabalhar em Portugal de nível mundial”.

Longe vai o tempo em que médico dentista estava num patamar superior ao protésico. Hoje, ambos os profissionais têm de estar ao mesmo nível diz Manuel Neves, médico dentista com clínica estabelecida na cidade do Porto.

Manuel Neves

Há 36 anos que Manuel Neves estabeleceu a sua clínica no Amial. Bem diferente do que nessa altura, hoje o espaço é composto por 10 salas e 14 médicos dentistas. Mas não só. Além de um laboratório de próteses, uma das apostas deste profissional é a formação dos jovens médicos dentistas, tendo criado na clínica um Centro de Estudos de Medicina Dentária, que alberga um auditório para a vertente teórica e uma sala de formação onde os profissionais podem simular o tratamento, neste caso nos famosos “fantomas”. Receita para o sucesso? “Fácil”. Primeiro as pessoas, que têm de ser obviamente competentes, desde os médicos dentistas, passando pelos protésicos e todos os auxiliares. Depois o laboratório, que tem de estar dotado de equipamentos à altura da prática. E por último o espaço, que não deixa de ser importante. “Passamos aqui muitas horas. Temos de ter um ambiente agradável. Se estas condições estiverem reunidas…”

“Workflow” digital

O digital está em todo o lado e a medicina dentária obviamente não é exceção. Manuel Neves diz que mesmo que as clínicas que, neste momento, não estiverem a abraçar esta transformação e a apostar no “workflow” digital vão perder o comboio. Disso não tem qualquer dúvida. “Aqui já estamos 100% digitais. Desde o scanner intraoral, cujas imagens passam para um iPad, no qual posso desenhar o que pode ser a boca do paciente. Interagimos de uma forma muito diferente com o doente”.

Quanto ao investimento, foi “muito elevado”, admite Manuel Neves. “Só a compra do equipamento de TAC, ou mais especificamente CBCT – fomos dos primeiros a fazê-lo – foram 250 mil euros. No total seguramente que o investimento ascende aos 400 mil euros, só em tornar uma clínica em digital”. E para quando o retorno? Mais do que medir o retorno, aqui falamos em sobreviver aos novos tempos. “Não é que se morra já, mas perde-se o comboio. Quem quiser continuar a trabalhar no método tradicional pode fazê-lo, desde que seja intelectual e eticamente honesto. Mas é cada vez mais complicado”. Até porque, garante o médico dentista, é impossível hoje “sobreviver” na “unidisciplinaridade” da medicina dentária. “Há áreas que são tão específicas que ou nos dedicamos a 100% ou não conseguimos ser bons profissionais. Um exemplo disso é a ortodontia. Um clínico geral não o pode fazer. Tem de referenciar senão não está a servir o seu paciente da melhor forma”.

Multi-valências

Apesar da multidisciplinaridade da sua clínica há uma valência que Manuel Neves admite que gostava de ter entre portas: a oclusão. “Se houvesse uma clínica de excelência em Portugal referenciava os meus pacientes. Mas há muito poucos técnicos disponíveis. É uma área muito difícil e, até lhe digo, muito chata de se estudar. Há muito poucos profissionais que se queiram dedicar a isto”.

Relativamente à formação, e ainda mais na era pós-Bolonha, Manuel Neves diz que a única certeza que tem é que o seu Centro de Estudos é procurado por jovens profissionais que lhe admitem nunca terem, por exemplo, preparado um dente para receber uma coroa.

Longe vai o tempo em que médico dentista estava num patamar superior ao protésico. Hoje, ambos os profissionais têm de estar ao mesmo nível diz Manuel Neves, médico dentista com clínica estabelecida na cidade do Porto.

Mas a grande questão no que diz respeito ao ensino é o facto de os professores, por vezes, estarem mais preocupados com a sua prática privada do que com o ensino. “Ainda vão à faculdade de manhã picar o ponto e tomar o café e fugir o mais depressa possível para as suas clínicas. Não há uma entrega total. Ou são professores ou exercerem de forma privada. Devia de haver regras mais rígidas, com o real cumprimento das horas de trabalho”. No entanto, Manuel Neves acredita que esta é uma tendência que esteja a inverter-se, já que com o excesso de profissionais no mercado haja uma maioria que já obtém os seus rendimentos via ensino, “já que a clínica privada deixou de ser rentável”.

Projetos

Depois de ter abraçado o digital, o grande projeto de Manuel Neves é entender se o tal “workflow” digital vai funcionar ou não. A clínica está preparada, tem todo o equipamento necessário, mas “além da maquinaria é preciso que as coisas efetivamente funcionem”, desabafa. “Porque o que ouvimos dizer é que o digital é obrigatório, mas requer uma curva de aprendizagem muito grande. E as casas comerciais que vendem esses equipamentos digitais ainda estão a aprender connosco, por forma a aperfeiçoar os aparelhos”. Ou seja, os próximos anos serão definitivamente todo um novo desafio, agora num patamar digital.