Saúde Oral

X Congresso SPED: “A integração de fluxos de trabalho de base digital é uma inevitabilidade”

X Congresso SPED: “A integração de fluxos de trabalho de base digital é uma inevitabilidade”

No X Congresso da SPED, o digital foi rei. O digital e os oradores nacionais. O recurso às opções de base digital foi um tema comum a todos os conferencistas, sendo que também se falou da importância do planeamento e da ‘ignorância positiva’.

O X Congresso da Sociedade Portuguesa de Estética Dentária (SPED), que decorreu nos dias 22 e 23 de setembro, em Lisboa, contou com perto de 400 participantes. Uma das razões que leva Luís Macieira, da organização, a fazer “um balanço final muito positivo, especialmente pelo reduzido tempo de preparação do congresso. Mesmo assim, o aspeto mais importante é a satisfação dos congressistas e tivemos um feedback muito positivo”. Uma consequência “da qualidade do painel de conferencistas e da abrangência dos temas cobertos”.

Após 10 edições, os congressos da SPED já se podem considerar um marco. “A SPED ao longo destes anos teve sempre a capacidade de organizar congressos de muito bom nível e num formato em que no primeiro dia falavam profissionais nacionais e no segundo um profissional estrangeiro de reconhecido prestigio”, explicou Luís Macieira, salvaguardando que “estiveram sempre envolvidos no programa e na organização os técnicos de prótese dentária que, além da mais elementar justiça, é também um sinal de inteligência, já que faz todo o sentido que as equipas que trabalham em conjunto no dia-a-dia também se encontrem nos eventos de partilha e discussão das temáticas de interesse comum”.

Porém, o fator mais relevante destas 10 edições de congressos é “o facto de em 10 anos a SPED reunir de forma consistente, num evento, profissionais de qualidade que partilham a sua experiência e esta é discutida em conjunto, permitindo um envolvimento muito maior e um estímulo de partilha e evolução das equipas de profissionais em vez de cada um por si e isoladamente”.

Congressos mais participados

Se até aqui o formato do congresso sempre foi um dia preenchido com oradores nacionais e o segundo dia contar com um orador internacional, este ano o formato mudou. “Ao longo dos primeiros 9 congressos, os profissionais nacionais que sempre asseguraram a qualidade do primeiro dia vinham ao segundo escutar um colega internacional. Mas desta vez foi decidido que todo o programa seria exclusivamente realizado por colegas portugueses”, revelou Luís Macieira argumentando que, “além de existirem imensos profissionais nacionais de altíssima qualidade, quisemos criar as bases para que os futuros congressos sejam ainda mais participados nas fases de debate e discussão e para isso nada melhor do que fazê-lo entre colegas nacionais, que estão muito mais disponíveis para esta abordagem e desde logo não existe a barreira linguística. Este facto permitiu ainda cobrir diferentes áreas e disciplinas da reabilitação oral”.

O facial flow

De todas as áreas abordadas, Luís Macieira destaca “o recurso às opções de base digital, que foi um tema sugerido a todos os conferencistas sendo dada liberdade para o assumirem, debaterem ou até contrariarem”. No final “observou-se que, de uma forma ou outra em quase todas as áreas, a componente digital do trabalho clínico e laboratorial está presente e pudemos até assistir a apresentações muito interessantes com base nestas opções”.

Uma das apresentações bastante dedicadas ao digital foi a de Bruno Pereira, médico dentista com prática clínica exclusiva em reabilitação oral e prótese fixa, intitulada ‘Planificação e diagnóstico orofacial na era digital’. Em entrevista à SAÚDE ORAL, o conferencista explicou o conceito facial flow: “durante os últimos anos, os médicos dentistas tentaram seguir receitas e alguma sabedoria empírica, pois sabemos que o ser humano sempre se sentiu atraído pela simetria”. Em consequência, esta ideia “de que deveríamos procurar a simetria quando desenhamos um sorriso no momento da restauração tornou-se quase uma verdade absoluta”. Não obstante, o facial flow parte do princípio de que “qualquer ser humano é assimétrico por natureza, logo se temos um rosto com assimetria, optar por um tratamento simétrico vai resultar numa aparência artificial”.

Assim sendo, o conceito baseia-se em entender “a orientação que as estruturas da cara possuem para depois durante a nossa planificação sabermos exatamente quais são os erros que não queremos cometer”, relata o médico dentista, reforçando que “a natureza é naturalmente imperfeita, mas não deixa de ser bonita e de nos cativar”. Daí a importância de “os nossos tratamentos respeitarem essas imperfeições”. Algo que, ainda de acordo com Bruno Pereira, acaba por ser facilitado graças à tecnologia: “a incorporação da tecnologia digital, nomeadamente de algoritmos que incorporam estas imperfeições, fazem com que os nossos tratamentos se integrem melhor facialmente”.

Digital, uma inevitabilidade

No que à tecnologia diz respeito, o médico dentista sublinhou que “quando olhamos para o mundo atual, de uma perspetiva filosófica, e vemos que estamos constantemente a ser substituídos pelas máquinas, não deixa de ser preocupante. Mas do ponto de vista profissional, a tecnologia só nos traz vantagens porque veio facilitar o nosso trabalho”.

Bruno Pereira avançou ainda que “há realmente medo entre os profissionais, sobretudo da parte dos técnicos de próteses dentárias, e é exatamente ao contrário: a tenologia vem ajudar, a eles e a nós, a trabalhar em conjunto e a chegar ao mesmo fim, de uma maneira mais fácil, sem cometer tantos erros, em menos tempo e principalmente com um custo menor”.

Não obstante, o médico dentista alertou que “não deixa de ser curioso que esse custo atualmente esteja a ser assumido pelos técnicos e pelos médicos dentistas e não pelos pacientes e é algo que temos de ter em conta, visto que estamos a incorporar tecnologia muito cara e que depois se torna difícil de amortizar. Até porque estas máquinas tornam-se obsoletas rapidamente”.

Questionado sobre esta problemática da integração do digital, nomeadamente no laboratório, Luís Macieira referiu que, “na minha opinião, a integração de fluxos de trabalho de base digital é uma inevitabilidade, estando consciente de que se tratam apenas de ferramentas que permitem otimizar os processos em vários aspetos, mas não permitem alhear-nos dos conceitos que orientam a reabilitação oral e até a estética”. Luís Macieira considerou ainda que “não se atingiu a maturidade que permite distinguir que, aceder a tecnologia não tem como resultado imediato uma melhor performance seja em que aspeto for, mas que apenas o correto desenvolvimento de curvas de aprendizagem permitirá, por um lado, tirar partido da tecnologia e, por outro não sofrer dos malefícios de não a entender ou controlar”. Em todo o caso, e de forma muito geral, Luís Macieira acredita que “nos dias de hoje a pergunta já não é ‘quando?’, mas ‘qual?’”.

Quanto ao receio de que o técnico possa ser substituído, “se por um lado alguns processos são efetivamente retirados ao trabalho manual dos técnicos, por outro existem novas funções e oportunidades para os técnicos desempenharem, como por exemplo o desenho de CAD. Penso que caminhamos nesta questão para o equilíbrio”.

“Não lhe é dado o devido valor nas faculdades”

X Congresso SPED: “A integração de fluxos de trabalho de base digital é uma inevitabilidade”

Jorge André Cardoso, professor clínico honorário no mestrado de Estética no King´s College – Universidade de Londres e um dos oradores do X Congresso da SPED, em conversa com a Saúde Oral, referiu que o objetivo da sua apresentação – ‘Reabilitação estética e funcional: uma integração que pode ser simples’ – foi “simplificar um assunto que é relativamente complexo: o planeamento”. Neste sentido, argumentou que “não lhe é dado o devido valor nas faculdades, visto que existe uma abordagem estanque dos conhecimentos das especialidades e o planeamento exige que haja uma inter-relação entre as várias especialidades”. Algo que o médico dentista acredita que “não é difícil, tem é de ser abordado da maneira mais pragmática possível para as pessoas poderem resolver casos mais complexos com mais segurança”.

A ‘Apologia da ignorância positiva’ foi o tema da intervenção de João Pimenta, outro dos conferencistas convidados. À SAÚDE ORAL, o médico dentista, fundador da Sociedade Portuguesa de Estética Dentária, explicou que “a apologia da ignorância positiva é o plágio de um livro de um paciente e grande amigo meu – Arménio Miranda – que é o proprietário de uma das maiores multinacionais em Portugal, tem a 4ª classe, é de Barcelos e é doutor honoris causa pela Universidade Católica”. De acordo com João Pimenta, Arménio Miranda divide a ignorância em três: “a santa, que é aquela dos felizes, que aceitam tudo; a negativa, que é a das pessoas que sabem tudo, sendo uma ignorância que acontece muito nas universidades porque os professores sabem tudo; e por último a ignorância positiva, que é a daqueles que sabem que entre o que sabemos e o mundo ignoto há muitas coisas que é preciso saber e que para se saber essas coisas é preciso por em causa e conhecer a causa das coisas”.

X Congresso SPED: “A integração de fluxos de trabalho de base digital é uma inevitabilidade”

A ignorância positiva pode ser aplicada a todas dimensões. No que à medicina dentária diz respeito, por exemplo, “aplica-se quando há a fratura de um implante e eu vou à descoberta da razão por que fraturou, assim como quando tento desenvolver conceitos técnicos”. Neste sentido, “falei ainda do strong-life concept que é uma modificação que eu e o meu técnico fizemos no design das infraestruturas em zircónia que proporciona um aumento da resistência”.