Medicina Dentária

Tratamento cirúrgico da ATM: “O nosso sucesso passa por formar equipas multidisciplinares”

Tratamento cirúrgico da ATM: “O nosso sucesso passa por formar equipas multidisciplinares”

Em Portugal já se vão introduzindo novas técnicas no tratamento cirúrgico da articulação temporomandibular (ATM) como a artroscopia, uma técnica de cirurgia minimamente invasiva à ATM. Devido à consciência de que o tratamento cirúrgico da ATM é complexo e com uma curva de aprendizagem longa foi organizado o ‘Curso Ibérico de Artroscopia e Cirurgia Aberta da Articulação Temporomandibular’, que contou com a presença de Florencio Monje, especialista com mais de 25 anos de experiência em artroscopia.

O ‘Curso Ibérico de Artroscopia e Cirurgia Aberta da Articulação Temporomandibular’, que se realizou em Lisboa nos dias 23 e 24 de fevereiro, contou com Florencio Monje, David Ângelo e David Sanz como formadores. O curso foi desenhado para os profissionais de saúde com interesse na área da articulação temporomandibular (ATM) cujo tratamento cirúrgico é tecnicamente complexo e com uma curva de aprendizagem longa.

À SAÚDE ORAL David Sanz, que se dedica à cirurgia maxilofacial e é presidente da Sociedade Portuguesa de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial (SPDOF), explicou que nesta formação procurou-se “fazer uma abordagem do que é hoje o estado da arte do tratamento da articulação temporomandibular do ponto de vista cirúrgico”. Em Portugal, de acordo com David Sanz, “pouco a pouco já se vão introduzindo as novas técnicas, como a artroscopia, que é uma cirurgia minimamente invasiva”. Tal representa um grande avanço, uma vez que “antigamente só havia duas possibilidades: não fazer nada ou realizar uma cirurgia aberta mais invasiva, que continua a ter as suas indicações”.

Este tipo de cirurgia “tem sofrido alterações ao longo do tempo”. Até aqui “as pessoas tinham receio porque era considerada uma cirurgia muito traumática, daí estarmos a tentar mudar esta visão porque se trata de um procedimento que traz muitos benefícios para a saúde”.

Cirurgia minimamente invasiva

Florencio Monje, com residência e formação na especialidade do Serviço de Cirurgia Oral e Maxilofacial do Hospital de La Princesa, em Madrid, veio a Portugal com o objetivo de relatar a sua experiência em cirurgia minimamente invasiva da articulação Temporomandibular, como a artroscopia. “São 25 anos de experiência”, confidenciou à SAÚDE ORAL, sendo que “nesta profissão é muito importante partilhar quais os erros cometidos e quais os bons resultados alcançados para que quem está a abraçar a área não tenha a mesma curva de aprendizagem que nós tivemos. E isto faz a diferença para os mais jovens”.

A cirurgia minimamente invasiva possui várias vantagens. “Em primeiro lugar não há cicatriz, em segundo não há efeitos secundários e em terceiro a reabilitação e a recuperação são imediatas”, especificou o também último presidente da European Society of Temporomandibular and Surgery. Em contrapartida, a cirurgia aberta implica que “a pessoa fique vários dias no hospital e possivelmente efeitos secundários”.

Acontece que “nem todos os doentes são candidatos à artroscopia”. E, neste sentido, Florencio Monje salientou que “o mais importante é perceber qual o paciente que vai melhorar com este procedimento e aquele que não vai ser beneficiado”. De uma maneira geral, os candidatos à artroscopia deverão “ter a doença da articulação temporomandibular, nomeadamente dor, diminuição da abertura oral (não tendo melhorado com o tratamento conservador) e não ter sido alvo de cirurgias abertas”.

Próteses versus autoenxertos

Florencio Monje falou-nos ainda, no que toca à reconstrução da ATM, da utilização de próteses versus autoenxertos, argumentando que esta “é a parte mais sofisticada da cirurgia”. Neste sentido, a reconstrução tridimensional aporta várias novidades, sendo a primeira “a reconstrução, utilizando a engenharia tecidular: tecido do próprio paciente ou de outro paciente”. E, em segundo lugar, se o problema for muito grave “solucioná-lo com uma prótese feita à medida”. O especialista especificou que “se deve usar a engenharia tecidular quando o paciente é jovem (menos de 30 anos), mas quando é mais adulto é preferível utilizar a prótese”.

Profissionais qualificados

É preciso ter em mente, no respeitante à ATM, que “as novas correntes apontam para que não se perca tanto tempo em tratamentos conservadores com doentes que têm indicação para intervenção cirúrgica”, alertou David Ângelo, que fez um fellow em Cirurgia Oromaxilofacial no Hospital Infanta Cristina sob a orientação de Florencio Monje, acrescentando que também é relevante “os doentes terem consciência de que devem ser alvo de tratamentos que tenham evidência científica. Daí ser importante procurarem profissionais qualificados que lhes possam garantir esse tipo de tratamentos associados ao rigor científico”.

Dimitroulis 3 ou 4

Quando se fala em articulação temporomandibular, nomeadamente das suas disfunções, e uma vez que o seu tratamento envolve uma equipa multidisciplinar para que todos se entendam é fundamental a adoção de uma linguagem universal. Com estas premissas em mente, David Ângelo apresentou as classificações que existem atualmente respeitantes à disfunção temporomandibular, especialmente aquela que “usamos no dia-a-dia para conseguirmos comunicar todos da mesma maneira”. Deste modo, “se chegar ao pé do colega A, B ou C e referir que temos um Dimitroulis 3 ou 4, ele conseguirá perceber que tipo de patologia é e que tipo de tratamento será mais adequado àquele doente”. E isto, na opinião do médico estomatologista, “é muito significativo, até para estudos científicos”. Resumindo: “estes sistemas permitem-nos transformar sinais e sintomas numa linguagem universal para ser usada por todos”, refere David Ângelo.

Algo que é vital quando o futuro passa pela multidisciplinaridade, como expôs David Sanz. “Não se consegue tratar sozinho uma patologia articular: mesmo que se seja um bom cirurgião, se não se tiver o apoio de um fisioterapeuta, de um médico dentista, etc., não se vai conseguir um bom resultado”. Na opinião do presidente da SPDOF, “o nosso sucesso passar por formar equipas multidisciplinares em prol do nosso paciente”.

David Ângelo partilhou durante o curso alguns resultados das experiências que tem feito em ovelhas ao nível dos biomateriais. “Conseguimos que um dos biomateriais que interpusemos na articulação da ovelha tenha tido uma capacidade regenerativa”, especificou à SAÚDE ORAL, acrescentando que “conseguimos pela primeira vez no mundo criar um biodisco, através de uma scaffold inteligente, incluindo a regeneração dos ligamentos”. Neste momento, segundo o médico e investigador, “estamos a tentar patentear este produto e iniciar um estudo de fase I em humanos”. Apesar de “a burocracia ser muita estamos a fazer de tudo para que num curto período de tempo consigamos, em alguns doentes com patologia grave, sobretudo em Dimitroulis 3 e 4, usar este biodisco para lhes proporcionar uma qualidade de vida de mastigar, sorrir e falar sem dor”.

O objetivo do ‘Curso Ibérico de Artroscopia e Cirurgia Aberta da Articulação Temporomandibular’ era “trazer a Portugal Florencio Monje, uma referência nesta área”, salientou David Ângelo, bem como dar a conhecer técnicas como a artroscopia e a artroplastia funcional. “Chegámos a um ponto onde acreditamos ter uma grande experiência nesta área. Temos tido resultados fantásticos e por isso sentimos que era o momento oportuno para difundir esta técnica a outros profissionais, partilhando o nosso percurso, resultados e dificuldades”. O primeiro dia foi preenchido com um módulo teórico e no segundo dia foram abordadas técnicas cirúrgicas, replicadas por cada formando em peça anatómica fresca. “O dia teórico foi destinado a médicos, médicos dentistas, fisioterapeutas, terapeutas da fala, etc., ou seja, a todos os profissionais de saúde que lidam com esta patologia no seu dia-a-dia. Já o segundo dia destinou-se apenas a licenciados em medicina”.

Por fim, David Ângelo revelou que “tivemos a agradável surpresa de ter um impacto internacional grande, pois tivemos muitos participantes brasileiros e espanhóis, além dos médicos portugueses”.